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O conto de Sá

O conto de Sá
  Capitulo I_ O começo de uma vida

Minha mãe Emanuela de Sá e Lima me deu a luz na madrugada fria de um inverno. Eu nasci em uma noite de lua cheia, pelas mãos da índia Anita. Minha mãe que teve um parto muito complicado não resistiu e faleceu algumas horas após o meu nascimento. A mãe que tive desde então foi a índia Anita que vivia nas terras de meu pai e trabalhava para ele. Meu pai desiludido com a morte de minha mãe pouco me dava atenção. Xico,marido de Anita e braço direito de meu pai na fazenda, foi quem me ensinou a lidar nos cafezais,caçar e respeitar a  natureza pegando só o que nessesitava. Mostrou-me a floresta, me ensinou os rituais da sua tribo. O modo que vive os índios na floresta e o que o homen branco disperdiça,por sua ignorância. Xico tem nome de homen branco. Nasceu na fazenda mas é índio. E mais que um empregado de meu pai, ele é meu melhor amigo.
Meu pai sofre constantemente com dores no peito. E preocupado com meu futuro e com o futuro da fazenda,tenta me casar com Juliana Pelizela. Filha de um dos maiores coronéis do café da região. Não que ela não seja bela,mas a intenção de meu pai não espera estar obrigatoriamente de acordo com meus sentimentos.
Na verdade o que ele quer é aumentar a fazenda e olhando para o mesmo lado o pai de Juliana o senhor Acasio Pelizela, tambem quer o nosso casamento. Aprendi que dar dinheiro para quem encherga somente dinheiro é como dar milho aos porcos...
   Meu pai serto dia veio até mim, enquanto ue ajudava alguns homens no serviço dos cafezais e me disse:
- Filho seu casamento foi acertado e dentro de um mês serás um homem casado.
 Eu havia visto Juliana algumas vezes, mas nunca conversei com ela a sós. Mas mesmo assim obdecendo meu pai não me coloquei contra sua determinação.
  Um alfaiate vindo da capital da província a mando de meu pai tirou-me as medidas para o traje nupcial. Dali alguns dias eu me casaria com Juliana .
  Um dia antes de me casar fui até a cascata que ficava no meio da floresta. Era o meu lugar preferido. Apelidei a cascata de ¨cascata das lamentações¨ Eu só ia lá quando queria ficar só, quando por algum motivo estava triste. Cheguei até lá e me despedi dela naquele dia, dizendo bem alto:
- Sentirei saudades!
  No dia seguinte me casei com Juliana. Meu pai e agora meu sogro, deram uma grande. Convidarão as pessoas mais importantes da região, pessoas consideradas finas e educadas. Na verdade torceram o nariz ao verem a índia Anita me levar até o altar. Acharam falta de classe uma índia de braços com o noivo e um índio, Xico, de cabelos esbranquiçados entre os padrinhos.
Mas a verdade é que eles estavam no lugar de direito e os outros se não estavam gostando, pouco me importava.
Assim que a noite se deu por encerrada eu e Juliana ficamos juntos pela primeira vez. Ela me fintava com carinho e ternura, foi doce o tempo todo. Um pouco assustada e melindrosa.
 Juliana veio morar comigo e meu pai em nossa fazenda. Eu me dediquei inteiramente aos negocios da fazenda. Sempre ouvindo meu pai e meu bom amigo Xico.
Três anos depois do casameto Juliana engravidou numa tentativa de melhorar nosso relacionamento que não ia lá muito bem.
Foi então que ela me presenteou com o nascimento de minha filha:
- Ela vai se chamar Emanuela de Sá,como minha mãe!
  Foi o dia mais feliz.
Meu pai tambem se encantou com o nascimento dela e passou a enchê-la de mimos e agrados. Já a familia de Juliana não tinha tanto carinho por Emanuela.
O irmão de Juliana,Romeu Pelizela tambem havia se casado.
Sua esposa teve um menino quase nos mesmo dia em que Emanuela nasceu. E o neto homem enchia muito mais os olhos de meu sogro.

  Em uma tarde muito quente de verão homens da fazenda encontraram meu pai caído no cafezal. Ver meu pai sendo carregado, já sem vida foi um golpe muito duro para mim.
Meu pai era um homem de sessenta e dois anos e todos já sabiam que à muito sofria do coração.
Nunca vou me esquecer da voz do Xico que cantava para afastar os maus espiritos. E conforme um pedido de meu pai, seu corpo foi queimado e suas cinzas depositadas no túmulo de minha mãe.
 Desse dia em diante me tornei uma pessoa amarga e de poucas palavras. Eu só tinha carinho por Emanuela e gosto pelas longas conversas com meu amigo Xico. Me tornei uma pessoa fechada e meu casamento começou a acabar...
 Eu não sabia o que era amar uma mulher de verdade. Não conseguia sentir por Juliana nada mais do que carinho. Na verdade eu tinha me acostumado a ficar do lado dela, e isso era muito triste.
Conforme passava o tempo tudo piorava. Resolvi então começar a beber e muitas foram às vezes que fartei de bebidas e de mulheres.
E quando tudo isso se tornava pouco, misturava ervas que me deixavam drogado. Não dei um fim a minha vida, por que queria ver Emanuela crescer.
  Enquanto passei por essa faze, Xico cuidou praticamente sozinho da fazenda. Juliana chorava todos os dias, mas não me abandonava pelo amor que sentia por Emanuela. Ela sabia que jamais eu deixaria que se fosse com minha filha.
Em determinada ocasião chegou da Espanha um convite para que eu fosse até a mesma afim de tratar de negócios. O convite era de um grande amigo de meu pai, Ramiro Leon comprador e negociante do café.

  Ramiro Leon era um homen importante e um dos únicos homens que tinha permissão portuguesa para negociar no Brasil e vender para os ingleses o café brasileiro. O convite dizia  também que um navio da frota Ramiro Leon partiria para Espanha em alguns dias, e que se eu aceitasse o convite deveria viajar nele.
Naqueles dias contei á Xico que aceitaria o convite e ele prevendo minha viajem me levou para passar a noite na mata, junto de sua tribo, que ficava a poucos quilômetros da fazenda. Lá chegando fui saudado pelos homens da tribo e nós misturamos á eles.
Antes de deitar Xico pediu-me para que tomasse uma porção de ervas que ele havia preparado. Dormimos com a tribo naquela noite. Acordei várias vezes suando e assustado. Parecia que algo dentro de mim dizia que essa viaje mudaria para sempre o rumo de minha vida.
  Nos dias que antecederam a viajem cuidei para que tudo ficasse em ordem durante minha ausência. Despedi-me do bom amigo Xico e de todos os outros. Abracei forte a pequena Emanuela e disse para Juliana:
- Voltarei em breve, cuide para que não falte nada para nossa pequena.
 E com um beijo na testa me dispedi de Juliana e parti rumo ao cais do porto a fim de embarcar no navio cargueiro. Minhas acomodações eram modestas dentro do navio, mas confortáveis. Naquele momento assim que embarquei fiz uma oração e pedi ao bondoso Senhor que me conduzisse em segurança até meu destino.
 Era o começo de um novo amanhã.



Capítulo II_ Terra da Espanha


  Durante a viajem sofri com enjôos nos primeiros dias e com o medo das tempestades. Mas após vários e vários dias de viajem, no clarear de um dia, todos puderam, ainda de longe, deslumbrar a linda montanha que se via aproximar. Havíamos, enfim, chagado à Espanha.

   Ao atracarmos descemos descemosno porto de uma bela cidade. Era linda,majestosa. Meus olhos nunca haviam visto tais arquiteturas, fiquei em estado de graça. Tudo era diferente, o modo que as pessoas se vestiame cantavam sem motivo aparente. Um povo muito alegre e bonito pensei comigo.
 Uma carruagem com servidores de Ramiro Leon me aguardava, me levaram até a vila de Conrado, onde em sua casa Ramiro já me esperava ancioso. Ele nunca havia me visto, mas ao me ver disse que meu pai em suas cartas sempre dizia ter muito orgulho de mim. Fiquei alegre em saber que meu pai se orgulhava de mim.
   
   Ramiro Leon e meu pai foram grandes amigos. Meu pai à muitos anos atrás havia salvado a vida dele em uma das vezes que Ramiro viera ao Brasil. Ele havia sido atacado por saqueadores que o deixaram na mata entre a vida e a morte. Naquele tempo ele era um pequeno comerciante que tentava a sorte no Brasil. Meu pai comovido o acolheu em nossa fazenda, cuidou de seus ferimentos, lhe ajudou a conseguir a quantia de que precisava para voltar á Espanha, antes disso também lhe deu serviço e lhe ensinou tudo sobre o comércio e transporte do café. Lembro-me que nos poucos momentos que meu pai dedicava, conversar comigo, me narrava essa história com riquesa de detalhes.
  Ramiro e meu pai mantiveram contato por todos esses anos, até o falecimento de meu pai. Eles eram grandes amigos. Hoje Ramiro Leon é um grande comerciante do café, possui grandes embarcações que transportam café de um canto para outro.
  Para saudar minha chegada ele organizou uma festa. Seu filho Miguel Leon junto de sua mãe me fez corte junto de seus convidados.

   Meu pai quando falava de Ramiro Leon sempre dizia tratar-se de um homem de bom coração e honrado, e pude comprovar a veracidade das palavras de meu pai.
  No fim da festa já de madrugada me retirei para meus aposentos e dormi como uma pedra . Era minha primeira noite em terra firme depois de muitos e muitos dias.
 

   No dia seguinte após o almoço fui conhecer a vila. Meu acompanhante e guia era o filho de Ramiro, Miguel. Ele falava comigo em ¨portunhol¨ uma mistura de português com espanhol que ele mesmo inventou, já que tinha tido aulas de português. Mas mesmo com algumas dificuldades nos entendíamos bem.
 Cavalgamos por vilarejos, matas e bosques. Tudo era muito, muito bonito, uma terra abençoada. De longe havistei um campo e uma ruína. Perguntei á Miguel apontando o dedo:
- O que é aquilo Miguel?
- A igreja de São Mateus que pegou fogo. Ninguém vai lá, pois todos dizem que as terras são malditas. Um raio sobre a igreja incediado-a por inteiro. E todos acham que é um castigo de Deus que não quer uma igreja nessas terras.
- Acho tudo isso uma grande besteira Miguel!
- Cada um tem uma opinião quem, é que sabe não é...

    Voltamos para casa, onde me banhei e jantei. Após a janta Ramiro me disse que eu seria bem vindo em sua casa pelo tempo que eu quisesse, e que quando eu achasse conviníente poderíamos falar sobre negócios. Agradeci a gentileza de meu anfitrião, conversamos mais um pouco e me recolhi afim de dormir. E assim que eu ficava sozinho, a saudade de Emanuela e da fazenda, me fazia deixar algumas lágrimas caírem.
 Logo que acordei de manhã, resolvi me animar. Conversei com Miguel e ele disse-me que ele sabia exatamente do que eu presisava:
-Vou te apresentar as mais belas rameiras de toda Espanha!
  Combinamos então de sairmos ao anoitecer. Na parte da manhã ocupei meu tempo escrevedo poemas e pensamentos. Já à tarde, decidi cavalgar sozinho e fui até as ruínas de São Miguel. Local deslubrante, mesmo estando parcialmente destruído. Percebi que Miguel havia alguma razão sobre o ambiente daquele lugar. As ruínas pareciam assombradas pelos mortos, um funerário silêncio tomava conta do lugar. Até meu cavalo se agitou, decidi então voltar à casa de meu anfitrião.
    A noite vinha chegando e eu e Miguel tínhamos em belo compromisso. À noite nos esperava! Após banhar-me Miguel já me esperava. Fomos então até um pequeno vilarejo, não muito longe dali.
 Lá chegando entramos na taberna. As rameiras que pude ver eram lindas. No meio do salão avistei uma escada que dava para o andar de cima. Era aonde as rameiras atendiam sua ¨farta¨clientela pelo que percebi.
  Escorei-me no balção de olho em todas as pessoas a minha volta.
  De repente como se um raio caísse sobre minha cabeça ela surgiu...
Vestida de pecado, com um vestido vermelho, e um decote exuberante. O olhar mais profundo que á havia visto em toda minha vida. Por um segundo o olhar daquela mulher me atravessou.
  Ela começou a descer as escadas lentamente, olhando dentro de meus olhos, dentro da minha alma. Senti-me violentado naquele instante por tamanha beleza. Eu suspirei sem perceber, vi então que o amor havia tocado meu coração. Fiquei preocupado, trastornado pelo desejo que estava sentindo. Estendi o braço e ela veio em minha direção. Foi então que dançamos pela primeira vez. Nunca vou esquecer a música, meu estado de realização ao sentir o cheiro e provar o toque daquela mulher.
  Percebi naquele momento que eu podia voar se assim eu quisesse.
  Quando a música terminou, segurando minha mão ela não me disse uma palava sequer e puxou-me em direção as escadas. Subimos e fomos á um dos quartos. Quando entramos, lá havia uma tina água e pétalas de rosas. Ela lentamente se despiu para mim em seguida, como fazem as mães com seus filhos ainda pequenos, despiu-me e banhou-me com delicadeza. E ali mesmo entre pétalas vermelhas de rosas fizemos amor.
  Ao sentir o calor daquele corpo eu sabia exatamente onde tocar. Jamais tive prazer igual. Ao sair da tina, peguei-a em meus braços e mesmo molhados, continuamos a trocar carícias em cima de sua cama. E assim foi até adormecemos.

   Ao me acordar o dia já havia clareado e a bela moça dormia como um anjo, um lindo anjo. Por alguns instantes zelei pelo seu sono fintando-a enquanto dormia. Levantei-me sem fazer barulho. Deixei dez dobrões de prata em sua cômoda e sai lentamente sem fazer barulho. Montei em meu cavalo radiante como uma criança que ganhou um doce e se lambuzou. Procurei não pensar mais nela, mas eu não consegui lhe tirar um só instante de meus pensamentos.

   Á tarde chovia ,eu caminhava sem conseguir me desfazer do sorriso bobo que assombrava minha face.
  Fui falar com Miguel:
- Você sabe o nome dela Miguel?
  Sorrindo Miguel me respondeu:
-Elena meu querido, Elena.
  E em seguida ele me deu uma pequena bolsa de couro me dizendo:
-Entrega pra ti, veio hoje cedo.
  Quando abri a pequena bolsa estavam lá os dez dobrões de prata.
Então li o bilhete que dizia:
        ¨Perdoa-me, mas não quero o seu dinheiro. Você foi muito generoso forasteiro, mas seu dinheiro não significa nada para mim. Algum tempo atrás eu fiz uma prece ao senhor, onde pedi que pudesse ser feliz. E ele me atendeu, por que no pouco tempo que estive perto de ti, fui feliz¨
  Naquele instante me senti envaidecido e muito, muito feliz.
  Procurei especular Miguel, mas tudo que ele sabia sobre Elena, era que ela estava lá há menos de um ano. Naquele dia percebi que dinheiro não é tudo, mas ajuda um bocado. Dei os mesmos dez dobrões á um servidor de Ramiro, a fim de que ele me trouxesse informações sobre Elena.
  Por algumas horas me desliguei do mundo esperando esperando informações. Nesse dia a única pessoa que me fazia parar de pansar em Elena era Emanuela. Eu estava morrendo de saudades da minha menina.

  Ainda naquela tarde marquei uma reunião de negócios com Ramiro. Iríamos enfim falar de negócios, já se passara alguns meses que estou longe do Brasil.

                    CONTINUA...
balta
Enviado por balta em 09/09/2007
Código do texto: T645664

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Sobre o autor
balta
Caxias do Sul - Rio Grande do Sul - Brasil, 36 anos
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