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O velho anexo

O calor no quarto, por causa da telha crua e sem nenhuma beleza no amianto, fazia seu olho arder e os ossos serem uma coisa pesada, além. Hugo, que já havia tido várias denominações durante a existência: filho, menino, rapaz, marido, contador, pai, era agora o velho no andar anexo. E logo hoje, que já acontecia o natal, deu para cismar com desnecessidades imbecis. Havia sempre uma ou outra queixa claro, quem não as tem? Mas ali, diante do par de sapatos, resmungando, dava-se conta do quanto era ridículo. Raciocinou. Onde estava a ofensa? Pelo menos ganhou um presente. Talvez a coisa toda tenha desandado quando o sapato não coube... Ou quem sabe, antes? O fato é que ao calçar e perceber os dedos ali entranhados um sobre os outros, foi lhe dando um desamor, um desconsolo, um desmedido sentido de fim da linha.... Já era o tempo de saberem o quanto lhe cabia no pé, qual o número de sua camisa, se a gola iria enforcar!
Das duas meninas ele tinha “de cabeça” cada um dos numerários que lhes coube durante as idades: Carla, miudinha, vestia um número 38 para sempre, desde a adolescência, independente dos netinhos que lhe deu. Verônica, um pouco mais fornida, tinha obsessão por regimes e variou muito de peso! Ficou magríssima quando da paixão pelo professor de química e gordíssima quando a paixão lhe disse não, mas nunca deu para esquecer o quanto lhe cabia. Mesmo os homens, Henrique e Moisés que tanto se modificaram e cresceram, ele visualizava com perfeição seus corpos.
Talvez fosse isso, não lhe visualizavam mais, nada mais lhe cabia.... Aos 82 anos, um sótão quente e uma viuvez que doía nas entranhas, quem sabe tenha passado já os limites dignos para a ocupação do espaço, assim como mobília que é transferida para a garagem? Tentou conter as lágrimas, mas a musculatura flácida das pálpebras colaborava para a humilhação de chorar. Então chorou. Cuspiu tanta solidão, tanta, que lhe veio uma absurda vontade de vestir-se, na vontade veio junto o entendimento do vestir-se. Era esse o assunto para o sapato, ali estava a tanta coisa para a qual ele estava sendo preparado e o motivo de o calçado não ser o seu número. Entendeu a metáfora. Era uma mensagem de sua família: “seus pés perderão as peles tão logo, por que um sapato mais largo?” Imaginou a filha mais velha dizendo isso diante de todos, do jeito alegre e irresponsável como ela conduzia as festas de natal. Parou e considerou as coisas.
Mesmo já tendo passado muito da meia noite, ainda não vira motivos para ir cear. Antes, mais cedo, ao receber o presente, não quis descer, ficou cismando ali.  Agora estava diante da resposta. Um homem deve saber duas coisas na vida, a hora de começar e a de parar, o resto é bobagem. Ajeitou o terno azul marinho, dos bons tempos de contador e a pele reagindo, o fez sentir o tecido. Forçou os dedos dos pés a aceitarem os sapatos. Colocou no bolso a foto de seu grande amor. Única mulher para quem um dia, entregou o coração. Mesmo severo no gostar, quando juntos na mesma cama, havia entre eles uma luz que nem cabia descrever. Incrível como os filhos desconhecem o que se passa entre os pais... Apagou a luz e abriu a janela. Ao ficar de pé, constatou que era realmente muito apertado o sapato. Lá embaixo encontrou a cama de grama que ele mesmo plantou.


betina moraes
Enviado por betina moraes em 11/09/2007
Código do texto: T648069

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Sobre a autora
betina moraes
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 48 anos
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betina moraes