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O Homem que podia voar

“As nuvens às vezes têm umas formas tão estranhas”. Salazar observara para si mesmo olhando para o céu, entediado como em tantos outros dias sentado na velha cadeira de praia no segundo andar da casa do filho e da nora. Já fazia algum tempo que se encontrava nessa posição. Alguns dias talvez. Talvez mais de um mês. Será que já fez um mês?!. Possivelmente.

Desde que se aposentara da função de policial militar que não podia mais pagar o aluguel e fora morar com seu único filho, que apesar de tudo não demonstrava nenhuma excitação na presença do pai ali. Muito pelo contrario. “Eu posso levá-lo a um lugar onde existam mais pessoas como você... Você se sentiria melhor....” “Quem ele pensa que é pra me mandar pra um asilo? Eu o criei por toda a vida dele até chegar essa pistoleira e tirá-lo de mim!” Desabafava somente em pensamento. Apesar de tudo o que passava pela cabeça, Salazar sabia que seu momento como pai terminara, e portanto, talvez não fosse tão prioridade assim. O filho estava bem.

A vista já não era mais a mesma de vinte anos atrás. Os jornais tornaram-se um obstáculo intransponível para passar o tempo, a não ser pelas manchetes em caixa alta: “ACIDENTE NA BR 316 DEIXA SEIS MORTOS”. Talvez por isso, talvez não, ele pensava em tudo... nos amores, na juventude não tão perdida assim, na faculdade trancada pela gravidez não tão esperada, na esposa falecida, em todas as oportunidades. Na liberdade. Ah... a liberdade!...

Conhecia todas as pessoas que ali residiam, não pelo nome, mas pelas silhuetas e pelos vultos que apesar da vista um tanto ruim, ainda era boa o suficiente para identificar os protagonistas de historias interessantes ou não. Sabia que a moça que mora do outro lado da praça via um rapaz que chegava de moto, e não era o marido, umas três vezes por semana. Sabia de cor todos os horários da bela jovem da casa ao lado e, sempre que ela saía para a academia, ele ficava admirando o belo espetáculo que era aquela malha. Via as crianças brincando, não de coisas que ele próprio brincara um dia, mas gostava de vê-las ali, as crianças. Elas davam a Salazar o sentimento da infância, da liberdade que tanto apreciava, liberdade essa limitada somente por horários "impostos" dos pais, mas ainda assim, a melhor liberdade que existia. E ele queria isso de volta.

E o dia que a teria estava mais próximo do que imaginava.

Talvez tenha sido o crepúsculo que banhara as nuvens com cor de sangue, talvez tenha sido a temperatura amena, pouco comum na região, talvez tenham sido as crianças. Talvez tenha sido o tédio. O que houve naquele fim de tarde de novembro não foi explicado convincentemente por ninguém.

Salazar, um homem de terceira idade talvez tenha apenas compreendido o sentido da vida, da sua vida. "Eu posso voar". Com suas poucas forças pulou de sua cadeira de praia com motivos de veraneio para fora da janela sem grades. Ele podia voar! Por alguns eternos segundos viu o chão afastar-se como a musica se afasta dos ouvidos do casal prestes a experimentar o seu primeiro beijo. Viu as pessoas lá de baixo olharem-no incrédulos no que acontecia. Ouviu os gritos, mais assustados do que preocupados, que vinham da janela que até outrora fora sua morada. Sentiu a leve brisa que fazia seus ralos cabelos movimentarem-se freneticamente. Sentiu o aroma que talvez viesse do alto da mais alta das montanhas. Sentiu o gosto da liberdade. Mas foi só isso.

Alguns segundos.

Assim como a mágica que o envolvera naquela tarde de novembro veio, ela foi embora. Ao invés de se afastar, tudo começou a se aproximar. As pessoas lá embaixo, juntamente com os carros ficavam cada vez maiores, e o olhar de incredulidade na face de todos apenas aumentava enquanto ainda estava suspenso no ar.

"Eu posso voar". Dizia Salazar apenas em pensamento na UTI do hospital que um dia deu repouso à falecida esposa. Não podia se mexer mais, apenas os olhos percorriam o quarto que podia receber visitas somente durante uma hora por dia. Os ferimentos causados pela queda o deixara ali naquela cama. Naquele quarto. Mas isso nem importava mais. Ele podia voar.
Solid
Enviado por Solid em 28/10/2005
Código do texto: T64811
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Sobre o autor
Solid
Belém - Pará - Brasil, 32 anos
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