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UMA CRIMINOSA NO BANCO

Tudo parecia normal. Não era porque eu estava ali que haveria de ser diferente. Os atendentes continuavam com suas expressões de entusiasmo ao trabalhar, o que me lembrou do “sorriso McDonald’s”: nem sempre o que parece ser é. As pessoas com seus malotes, suas contas, seus cartões, suas necessidades e preocupações permaneciam com os olhos atentos ao painel que chamava as senhas.

156...

157...

Meu número era o 193. Havia muita gente ainda para ser atendida, mas eu não estava com pressa. Poderia esperar o tempo que fosse.

Reparei, em um assento próximo ao meu, uma senhora com uns quarenta e poucos anos. Havia chegado ao banco no mesmo momento em que cheguei. Com as mãos trêmulas, tinha os ouvidos aflitos ao som que indicava o próximo número a ser atendido. Estava com uma roupa que me fez lembrar aquelas executivas bem sucedidas de filmes, que brigam o tempo todo com um rapaz, geralmente mau-caráter, mas no final ficam juntos e apaixonados. Ela estava com óculos escuros.

Comecei a pensar no que a levaria a usar os óculos naquele lugar. Lá não havia luminosidade em excesso, nem o sol chegava naquele lugar.

Na novela Mulheres Apaixonadas, a personagem de Helena Ranaldi apanhava do marido, o que lhe causava hematomas na região dos olhos. Para tampar, ela usava óculos escuros. Em enterros, a viúva sempre está com esse acessório para esconder os olhos inchados pelo pranto. Em alguns filmes, os ladrões estão vestidos com óculos escuros para não serem reconhecidos.

Em qual desses casos a senhora que vi se enquadraria?

Ela era casada. Reparei em seu anelar esquerdo uma aliança. Deduzi que ela não usava os óculos para esconder marcas de pancadas. Uma mulher que apanha do marido, acredito eu, não se orgulharia disso e, portanto, tiraria a aliança. A mulher que anda com o símbolo de seu casamento está feliz com a relação. E, se está feliz, possivelmente vive em paz com o seu cônjuge.

Teria ela se tornado viúva recentemente? Muito improvável. Ela estava com um terninho azul claro e não preto como de viúvas; e nem tinha o nariz vermelho, como ficamos quando há muito pranto. A expressão dela não era de tristeza, mas também não demonstrava felicidade. Ela simplesmente estava ali: com o pescoço apoiado no encosto da cadeira, olhos em direção ao painel que anunciava a próxima senha, mãos em cima de umas contas e não tremiam mais como quando havia chegado.

Se ela chegou trêmula, pode ser porque praticou algum ato ilegal e estaria usando óculos para não ser reconhecida. É isso! Mas... Sua roupa de “executiva” não era muito discreta. Ela seria facilmente identificada caso esta fosse a mesma roupa que usou no crime. Talvez ela colocou o terno azul por cima da que estava, para se disfarçar. E como o tempo passou e ninguém foi procurá-la ali no banco, acalmou-se.

Meu Deus! Seria ela uma assassina? Quem será que ela matou? Ou será que roubou alguma coisa em algum lugar? Dezenas de pensamentos começaram a tomar conta da minha mente naquele momento. Será que eu deveria chamar o vigia e contar para ele que aquela senhora roubou algo e alguém correu atrás dela, então ela sacou a arma do bolso e atirou nessa pessoa? Não! Minhas idéias já haviam me dominado e eu estava com medo daquela senhora, que parecia tão clássica, mas podia ser uma assassina.

Resolvi enfrentar meu medo e bancar o Poirot. Sentei atrás dela para ver os papéis que segurava. Poderiam ser indícios de um crime. Mas eram algumas contas e uns papéis de FGTS. Reparei na senha dela: 192. Coincidentemente, talvez por sorte dela, para se safar da minha investigação, o painel a chamou para ser atendida.

192...

192...

E ela nem se mexeu. O que teria acontecido? Será que entrou em estado de choque pela morte que causou minutos antes de entrar no banco?

Chegou uma garota perto dela.

“Mamãe, já está na sua vez.”

E nada.

“Mamãe”, disse um pouco mais alto.

A senhora então se mexeu. Ajeitou sua postura, pegou seus papéis, deu uma mão à garota e, dirigindo-se ao caixa, comentou:

“Nossa, filha! Até cochilei! Coloquei os óculos pra disfarçar, senão todos ririam por eu estar dormindo aqui. Tenho trabalhado tanto que estou sem tempo até pra descansar. E aí, comprou o gibi que queria?”

E eu pensando que ela era uma assassina....

193...

Com licença. Já está na minha vez.

Raissa Bugança
Enviado por Raissa Bugança em 11/09/2007
Código do texto: T648407

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Sobre a autora
Raissa Bugança
São Sebastião do Paraíso - Minas Gerais - Brasil
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Raissa Bugança