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O AZARÃO

   
Estanislau, de origem polonesa, foi criado nas redondezas de Irati, interior do Paraná. Quando concluiu o curso profissionalizante técnico em contabilidade, resolveu tentar a sorte na capital paranaense. Deu-se bem, quando, por um acaso, conheceu a polaca Sofia, jovem detentora de simpáticas dez arrobas de calorias e uma gordíssima conta bancária, filha única de uma família tradicional muito rica. Seu falecido pai deixou-lhe muito dinheiro, zelosamente administrado pela mãe.

Tudo estaria perfeito para Estanislau se não fosse a dependência do dinheiro, que somente aparecia através dos cheques da sexagenária Dona Claudina, sua implicante sogra. Esta vivia lhe chamando de vagabundo e que só servia para o jogo do bicho e corrida de cavalo. Na realidade, para esses jogos havia uma dedicação sobrenatural por parte de Estanislau. A fezinha do bicho independia se a extração era efetuada pela loteria federal ou debaixo da ponte. Apostava em todos os horários de resultados. Para os cavalinhos, paixão igual. Não perdia uma reunião no hipódromo. Dono de uma memória invejável, conhecia com propriedade ímpar a linhagem e retrospecto de qualquer bom animal. Comentava com seus amigos que o dia em que acertasse uma bolada, pagaria a algum garoto de programa para “acalmar” a jararaca da sogra. Ria sozinho ao imaginar a “brochada” do insano que aceitasse transar com a velhota. Ela, magricela, pernas cambaias, o olho esquerdo com desvio de 90° e, para coroar, uma verruga no nariz. Na sua opinião, pra ela voar, só faltava a vassoura.

Mas como bom malandro, levava dona Claudina no bico. Adorava a conhecida frase: “Bom cabrito não berra!” Afinal, diga-se de passagem, era a velhota quem sustentava a boa vida do Lalau e family.

Não se sabe bem, até hoje, como a rechonchuda Sofia foi se apaixonar pelo nosso herói que era um tremendo “durango”. Mas afinal, isto não vem ao caso, uma vez que ambos já estão juntos há quinze anos. Ao Estanislau, com toda a certeza, nada falta.

Era verão em Curitiba, quando pintou o acontecimento inusitado. O maior imprevisto de que se tem notícia em alguns círculos sociais da bela Cidade Sorriso.

Estanislau havia ganho de presente de natal de sua mulher, um computador de última geração. Agora passava horas e horas trancafiado em seu belo escritório numas das ricas mansões do Batel. Até as fezinhas do Bicho eram feitas via e-mail. Outra curtição do polaco, além dos sites de pornografia, era ficar namorando virtualmente, pela Internet.

Um dia, navegando em uma sala de bate-papo, deparou-se no monitor com o nome de uma mulher que adentrava naquela sala virtual recomendada para pessoas de até 35 anos; Vivi Jet 7. E já na primeira teclada de Vivi, ela manda um Oi! para todos. Estanislau — Tatá 171, nome que havia dado naquela sala — era um polaco romântico e ambicioso. E sua fértil mente já começou a viajar rapidamente por lugar dantes navegado. Aquela denominação, Jet 7 no final do nome da mulher, sugeria para ele “carne de primeira”. Por dedução, só podia ser de alguma bela balzaquiana da “Ráisoçaite”. Daí, aquele “Oi!” para ele teve um sabor excitante e sensual. Respondeu o cumprimento da internauta, já na condição de uso em privacidade. E o interessante é que ela entrou na dele. Quando se deu conta, já estavam teclando há mais de três (3) horas. Teve ímpetos de digitar a seguinte mensagem em maiúscula:

“CONFESSO QUE ESTOU TENDO UM AMOR À PRIMEIRA TECLADA.”

Realmente havia uma inexplicável identificação entre ambos. Até as maiores mentiras com relação ao aspecto físico, condição civil, idade, etc., estavam sendo entrosadas e aceitas maravilhosamente bem. Gostavam das mesmas músicas, dos bons restaurantes, freqüentavam os mesmos clubes. Seria quase impossível que ambos já não tivessem se cruzado mais de uma vez.

Foi nesse momento de questionamentos que Vivi resolveu atacar. Sugeriu um encontro atípico. Algo fora do comum. Um lance que causaria inveja a qualquer amigo deles que viesse a tomar conhecimento dessa fantasia erótica. Algo que os levaria à loucura maior. Ao delírio! E sedutoramente propôs:

— Que tal um encontro numa suíte de motel com luzes em total penumbra e com o uso de máscara — sugere ela — como se ambos tivéssemos saído de um baile da alta burguesia da corte francesa em pleno século XIX?

Um encontro que marcaria época, em que as palavras teriam necessariamente de ficar em segundo plano. Somente uma entrega total de dois corpos sedentos e desejosos de amor.

— Adorei a idéia — respondeu ele, teclando boquiaberto.

À medida que o excitado Estanislau recebia novas sugestões, sentia seu sangue ferver. Estava literalmente quase atingindo o clímax. Justamente hoje, que ele havia acertado num milhar na cabeça. Agora esta singular ocorrência.

— Que dia — gritou para si mesmo.

Nada podia ser melhor do que estava sentindo naquele momento. Estava ultra-radiante.

Após a mútua concordância ficou acertado que, no dia seguinte, ele deveria alugar a suíte presidencial de um famoso motel da capital, cujo endereço ambos possuíam. Pontualmente às vinte e uma horas, ele deveria estar deitado na cama com uma máscara de Zorro. Ela adorava o personagem Zorro. Ele providenciaria para que a música ambiente fosse Bolero de Ravel. Às vinte e uma horas e cinco minutos ela adentraria à suíte. Estavam ambos proibidos de se falar, no máximo poderiam emitir sussurros. Ponto importantíssimo: a luz deveria ser de total penumbra, senão ela não entraria nos aposentos. A piscina e a cama deveriam estar com muitas pétalas de rosas vermelhas. Ela chegaria também com uma máscara no rosto e com uma longa capa com capuz, preta, de seda. Deitar-se-ia ao seu lado silenciosamente. Combinado final — ambos deveriam deixar do lado de fora da suíte, qualquer tipo de censura que viesse a impedir o completo jogo livre do amor, em busca de múltiplos orgasmos. Tudo seria válido para a concretização do real prazer.

Assim foi!

Estanislau, quando teve a mulher ao seu lado, procurou dar o melhor de si. Jurou causar inveja ao autor do “Kama Sutra”.

Iniciou lambendo os pezinhos dela. Rezou baixinho pela não ocorrência de uma ejaculação precoce. Mas a enorme excitação tornava cada átimo uma temeridade. Desviava o pensamento. Pensou até na possibilidade do valente guerreiro Bush querer ser “Presidente do Mundo”. Era como se de repente sua mente fosse comandada por um experiente DJ. Daí, sussurrava, gemia com flutuações sonoras intermitentes. Sons graves e agudos. Delírio total. Transpirava endorfinas. Como se seu corpo emitisse uma música muito louca. Inundou-se em êxtase.

Aquilo não poderia estar acontecendo. Com os olhos fechados raciocinava:

— Esta mulher não existe. Só pode ser de outro planeta.

Rogou a ela para que abrisse a capa e se despisse. E continuou beijando tornozelo acima. Suplicou para que ela deixasse ele acender a luz para que pudesse apreciar aquele frágil e delicioso corpo.

Se aquela suíte pudesse falar, com certeza afirmaria que jamais vira tantos contorcionismos e ouvira tantos berros de amor como naquela noite!

Quando ambos estavam devidamente saciados, abriram o Champanhe francês que descansava no balde de gelo, para comemorar. Afinal, foi tudo muito perfeito. O dinheiro do milhar da vaca, deu até para o caviar importado.

— O jogo do amor está ganho — pensou Estanislau, e resolveu galantear um pouco mais e assegurar o sucesso da sua performance.

Empostando a voz, quase sussurrou nos ouvidos dela:

— Antes que venha a conhecer a cor dos teus lindos olhos quando acendermos as luzes, queria te agradecer por esta noite ímpar em minha vida. Que seja a primeira de muitas outras. — Obrigado, meu amor!

Aproveitou a deixa para justificar algumas tecladas mentirosas na noite anterior confessando, por exemplo, o fato de que houve de sua parte um certo exagero ao se descrever pela primeira vez. Por exemplo: não era um jovem saradão, moreno jambo, de 26 anos; era sim um branquelão de 45 anos. E que nele, nem o saco era moreno. E quando ela, timidamente, começou a balbuciar as primeiras explicações de que não era uma jovem de 22 anos e sim uma mulher um pouco mais adulta, ele encabritou-se. Somente uma pessoa possuía aquela voz de taquara rachada.

O que se seguiu foi dantesco.

Acendeu as luzes e dirimiu toda a dúvida. E antes do infarto, berrou apavorado com toda a força de seus pulmões:

— DONA FORFÉ?

(Forfait significa animal fora do páreo). Era este o apelido que ele tinha dado à sua sogra e que somente seus amigos do Jóckey conheciam quando ele se referia à velha jararaca.

Estanislau, de saudosa memória, jaz em uma rica cova no cemitério de Santa Cândida. Sofia tornou-se uma compulsiva turista. Só viaja.

Toda sexta-feira defronte ao portão principal deste campo-santo o motorista do Mercedes preto de Dona Claudina abre a porta traseira, e ela com seu porte esquálido desce do veículo toda de negro, chapéu e óculos escuros, com um ramalhete de rosas vermelhas.

Do aparelho de som do carro, ouve-se: Matriz ou Filial.

O texto acima está inserido no livro de Contos Mega Cena do autor.
E-mail: andrausdematos@yahoo.com.br
 
 

 
Luiz Celso de Matos
Enviado por Luiz Celso de Matos em 29/10/2005
Código do texto: T65036
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Sobre o autor
Luiz Celso de Matos
Curitiba - Paraná - Brasil, 75 anos
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