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O corte


    Quanto mais olhava o mar, mais a paisagem se destorcia.  Não cabiam nos olhos cheios de lágrimas as ondas ofegantes em romance marítimo. Tanta beleza lhe agredia a dor, era imoral que a natureza o ignorasse, seguisse um rumo, fosse tão bela. O ritmo das ondas flutuando contrastava com o abandono e o fedor, retratos da única Bahia que ele conheceu. De outras terras só avistou os Continentes de fome nos olhos dos cães, competindo o lixo, nas latas.
    Houve um filho, mas este nunca chegou a ter olhos vivos, dançou com a morte dentro da bacia que lhe serviu de berço. Desde então a mulher só pariu mortos, talvez fosse um resto de boa sorte.  Lia nos jornais pelo chão o quanto o mundo era tudo o que não deveria ser. Ele também. Tinha uma interminável lista de coisas que ele não foi. Lembrava que a mãe lhe acariciava a cabeça: “vai ser doutor”. Não foi absolutamente nada das coisas que se penduram na parede. Na realidade ele era o resumo de uma só palavra: miserável!
    Com a chegada da noite ele era muito menos. Bebia tanto que caia pregado na calçada, cheirando as pegadas dos outros infelizes. A mulher deu para beber o desgosto ao lado dele. Ficavam lamentando a tragédia, sentados no cais mal posto em cima do mar. Quando a madrugada acontecia, brigavam de sair sangue. Ninguém interferia. E nem seria justo, pois dos toques e tapas tiravam a dose de carícia que lhes cabia, para diferenciar dos ratos.
    Perambulavam durante o dia pelo Porto. Quando ele distraía a mulher sumia... Voltava tempos depois com olhos de nada e algum dinheiro. Ele fingia não ver os cabelos embolados por outra gente.
    Naquela noite decidiu descobrir o motivo de esmolar, estender a mão, pedir e não conseguir uma única moeda!  Tentou lembrar-se de todos os seus conhecidos de ofício: o cego Juarez, a Eugenia-louca, a viúva sem braço... Foi então que percebeu que o maior de todos os entraves era o fato de ele ser saudável, extremamente saudável! E qualquer um sabe, no mundo da rua, que as pessoas se recusam a ajudar os que são saudáveis. Como ele havia sido burro! Poucas vezes ele pensou coisas que fossem servir, mas atinou vendo o mar naquela noite, enquanto chorava o excesso de falta, que lhe sobrava saúde! A mulher sugeriu, depois de ouvir a lamúria: “Corta a perna!” Ele não teve bem certeza do que ouviu. Ela repetiu: “Corta a perna! Ninguém dá esmola para quem tem saúde, você tem razão...” Depois da sentença, ela dormiu impune sobre os joelhos.  Ele pensou naquilo, olhou bem a mulher... Seu pai já lhe dizia que mulher tem sempre razão. Levantou trôpego, foi até o barraco e fez uso do machado. Lá fora, um mar sem vergonha esbanjava a fartura de seus peixes com uma lua boiando em cima.


betina moraes
Enviado por betina moraes em 14/09/2007
Código do texto: T651994

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Sobre a autora
betina moraes
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 48 anos
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