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Revelação

     Nunca havia saído do país. Sempre desejou uma viagem à Europa, mas os  recursos da profissão de gerente regional de  produtos de beleza, de uma companhia famosa de cosmésticos, garantiam apenas o viver com tranqüilidade.
     Na verdade, não se casara, ficando com a incumbência, ainda que velada, de ajudar a irmã mais velha a criar os dois filhos, depois que enviuvou.
     Sempre desejou que Beatriz, tão bela e ainda jovem, tivesse se casado novamente, para que sobrassem mais recursos para si e pudesse enfim realizar seu sonho de conhecer a Europa.
     Foram mais de dez anos de espera, quando a irmã conheceu um rapaz oito anos mais jovem, solteiro e apaixonadíssimo por ela. Amor à primeira vista. Após o casamento e a lua-de-mel, Beatriz presenteia Luísa com um pacote turístico à Europa.
     -É o mínimo que posso fazer por você, Luísa.
     Naquele momento, a moça sentiu uma felicidade indescritível. Abraçou a irmã, o cunhado, que ria sem parar, e os dois sobrinhos. Mas, quando ficou sozinha, em seu quarto, pensou em algo que a assombrou e a entristeceu, será que estavam se incomodando com a presença dela?Não podia ser... Que bobagem! Todos a amavam. E sabia que tinha a simpatia do cunhado.
     Um mês passou rápido. Providenciou tudo para a viagem. Novembro deveria ser muito frio por lá. Estava levando dinheiro, que o cunhado fez questão de lhe dar, para comprar o que precisasse.Ele não a deixou fazer um financiamento para a viagem.
     Depois de mais de doze horas, chegou a Londres. Estava amanhecendo.Podia ver, ainda assim, uma cidade maravilhosamente iluminada.
     Não teve dificuldade para entrar no país. Falava razoavelmente bem o inglês e o espanhol. Foi direto para o hotel. Era um hotel de pouco luxo, porém aconchegante e no centro de Londres.Analisou o pacote de viagem e, numa atitude inesperada, até mesmo para si, resolveu que faria como bem quisesse. Estava lá como turista. Iria se virar e conhecer o que quisesse conhecer, que os quinze dias de passeio permitissem, bem como o dinheiro.
     Descansou o dia todo. A diferença de fuso era de deixar qualquer um muito cansado. E, no avião, por mais que tentasse, não conseguiu dormir.Não se preocupou com o pouco tempo que tinha para conhecer tantos lugares que desejava. Faria como bem entendesse.
     Durante o sono, sonhou o mesmo sonho que a perseguia há muito tempo e que a fez desejar tanto aquela viagem.Um lugar desconhecido, em uma ponte, conversando com um homem lindo e enigmático.
     Quando a noite chegou, sentiu fome e uma vontade louca de explorar o centro de Londres.Era sábado e, apesar do frio que fazia, tudo parecia acolhedor.Tomou um banho demorado, pediu um lanche, arrumou-se elegantemente, pediu instruções, ao gerente do hotel, sobre passeios aos principais pontos turísticos.Pegou o famoso Big Bus e foi para sua primeira aventura: conhecer a noite de Londres, em pleno sábado.
     Em uma das paradas, viu de perto a maravilhosa roda-gigante e o imponente rio Tamisa. Sentiu forte desejo de ali ficar. Tudo tão lindo. Tanta gente se divertindo. Soube que haveria um show  de uma banda irlandesa muito famosa. Daí o motivo daquele agito todo.
     De repente, sente um sopro quente em seu rosto. Já sentira aquilo, antes, em seus sonhos. Uma vertigem e a sensação de uma estranha presença assusta-a. Olha e não vê ninguém conhecido, nem mesmo alguém que a observasse.
     Assiste ao show. Fica desapontada por não ter levado a máquina de fotografar.Ao voltar para o hotel, faz projetos para conhecer mais  pontos turísticos, no dia seguinte, e visitar outros países. Iria de trem.
     Dia frio. Neblina.Umidade. Mas a disposição era até contagiante.Tomou um café reforçado, pegou novamente o ônibus.
     Ao aproximar-se da Millennium Mile, à margem sul do rio, desceu do ônibus e caminhou, parando, de quando em quando, para fotografar a bela paisagem. Já estava quase no horário de almoço. Não levava relógio, mas sentia o estômago vazio. Parou. Sentou-se em um daqueles românticos bancos.Naquele exato momento, respirou fundo, como se faltasse-lhe o ar e teve a certeza de que já conhecia aquele lugar. Lembrou-se, totalmente assombrada, de que era o lugar onde esteve, nos sonhos. Fechou os olhos. Estava muito emocionada.
     - Lindo aqui, não?
     Abriu os olhos e quase desfaleceu. Com certeza deve ter ficado muito branca.
     - Tudo bem com você?
     Tentou se controlar.
     - Sim.
     Ele sorriu. Parecia a praia que amava em dias de sol e céu azul.
     - Sim para o lindo lugar que é aqui, ou o fato de estar tudo bem com você?
     Ela começou a rir um riso nervoso.
     - Para os dois. Sou Luísa. E você?
     - Sou  Paul.
     Ela nem percebeu a origem do nome. Observou o belo e estranhamente conhecido rosto daquele homem. Observou também a roupa alinhada e, até certo ponto, estranha. Mas em Londres, nada é estranho.
     - Mora aqui?
     - Nasci aqui.
     Os olhos de um nos olhos do outro. Luísa teve a sensação de estar vivendo, naquele momento, em outra dimensão, onde somente estivessem os dois.
     - Nossa! Então conhece tudo por aqui. Poderia me levar para conhecer outros lugares. Lugares que não estão no roteiro comum de turismo, mas que devem ser maravilhosos também.
     - Com todo o prazer, apesar de você já os conhecer. Apenas não se lembra.
     Naquele momento, Luísa olhou para Paul e sentiu a respiração ofegante. Sentiu medo e vontade de sair da presença dele. Mas se conteve.
     - Tá brincando comigo, né? Do que está falando? É a primeira vez que venho a Londres, mesmo à Europa...
     Percebeu então que conversara o tempo todo em inglês com ele, sem a menor dificuldade.Viu-se na Inglaterra do final do século XIX, cuidando da irmã mais nova, depois de ter saído da Espanha, com toda a família, e ter perdido, dois anos depois, os pais, em um acidente.
     Lembrou-se de ter prometido à irmãzinha jamais abandoná-la e que havia quebrado a promessa, quando conheceu Paul, deixando-a num colégio interno. E só voltou a vê-la seis anos depois, quando a pequena estava nas últimas, por causa de uma infecção pulmonar, que apareceu meses depois em que foi internada naquele colégio.
     A irmã recusou-se falar com ela. Apenas disse que não a perdoaria nunca por tê-la abandonado.
     Tentou convencê-la de que tinha feito o que era certo fazer na época, pois Paul não estava economicamente bem e , como a amasse muito, não queria que ela passasse por privações. Então, reservou tudo o que tinha para pagar o colégio, mês após mês, e garantir-lhe um futuro. Lembrou-se de que sempre pedia informações sobre ela,através de cartas, e lhe diziam que estava bem, apesar da saudade. Prometeu tirá-la de lá e levá-la junto. Porém, Maria morreu uma semana depois.
     A morte de Maria mudou totalmente a vida de Luísa. Tornou-se taciturna e fria. Amargurada, pediu que Paul saísse da vida dela.
     Ele tentou convencê-la que não tinha culpa pela morte de Maria. Em vão. Não teve outro jeito senão respeitar o pedido dela.
     Ambos ficaram separados e sem se ver pelo resto da vida.
     Nenhum dos dois arrumou novo amor. Morreram tristes e na solidão.
     -Está melhor agora, moça?
     Acordou de um pesadelo, mas compreendeu toda a angústia em que vivera uma vida inteira.Compreendeu o motivo de tanta proteção à irmã e por que abandonou tantos projetos para ficar ao lado dela. Inclusive a faculdade de administração, que teve de parar de fazer, quando a irmã enviuvou.Estava num hospital. Informaram que ela havia desmaiado, enquanto caminhava. Que tinha sido, com certeza, queda de pressão. Ela sabia que não...
     Os dias se passaram. Voltou várias vezes àquele lugar. Não encontrou Paul. Visitou os países vizinhos. Esticou o roteiro e foi conhecer a Espanha. Sentiu-se tão em casa, quanto estar no Brasil.
Voltou ao Brasil cheia de planos, mas com uma tristeza sentida no fundo da alma. Quando reencontraria Paul? Já realizara sua missão. A própria irmã a liberou, quando teve a idéia de pagar-lhe a viagem.Será que no presente momento não se encontraria com aquele a quem sempre esperou e por quem sempre foi apaixonada?
     -Cunhadinha, não encontrou ninguém interessante na Europa não?
     - Encontrei sim. Aliás, o amor da minha vida. - disse, com um sorriso misterioso.
     - É? E vão se ver quando novamente?
     - Não sei. Talvez logo, talvez na próxima encarnação.
     O cunhado deu uma alta e engraçada gargalhada, mas a irmã, que até então só observava, de alguma forma, através do olhar, demonstrou ter entendido o que Luísa tinha dito.
     - Bom, de qualquer forma, sairemos hoje. Iremos àquela pizzaria que as duas tanto gostam, tomar um chope e comer uma deliciosa pizza.
     - Ah, Antônio, ainda me sinto cansada da viagem. E amanhã terei uma reunião com a companhia. Querem ampliar minha região. Terei de pôr mais revendedoras. Muita responsa.
     - Pare com isso. Já está resolvido. Você vai sim. Andem. Vão se arrumar. Sei o quanto as duas demoram no banheiro e no quarto. Além disso, pedir para os dois adolescentes, que estão chegando já, já do jogo, para se arrumarem depressa é outro suplício.
     - Irmãzinha, você conhecia esse lado impertinente do seu marido, antes de casar?
     - Pior que não me casei enganada, irmã.
     - Nossa! Já pensou quando ele envelhecer? Terá de arrumar um mais novo.
     Falavam como  se ele não estivesse por ali.
     - Já disse isso a ele. Mas ele sabe que é da boca para fora. Sou totalmente apaixonada por ele, até pelas chatices dele.
     Os três riram muito.
     Estavam no restaurante, quando alguém bate nas costas de Antônio. Beatriz olha para a irmã e acredita que ela esteja passando mal.
     - Oi, Antônio! Quanto tempo!
     Luísa enche um copo de água e bebe num só gole.
     - Cara! Você por aqui? Pensei que estivesse em Londres.
     - Cheguei há dois dias.
     - Que coincidência! Minha cunhadinha aqui também, apontando para Luísa, talvez até tenham vindo no mesmo vôo.
     Quando Antônio olha com maior atenção para Luísa, percebe que algo está acontecendo. Paulo se aproxima dela, sem tirar os olhos dos olhos dela. Os dois eram um só em corpo e espírito.
     - Oi! Meu nome é Paulo. Acho que te vi passando às margens do rio Tamisia, em Londres, repetidas vezes. Chamou-me a atenção desde o primeiro momento que te vi. Você estava caminhando, olhou para mim e desmaiou. Fui eu quem te prestou os primeiros socorros.As outras vezes, tentei me aproximar para perguntar se estava melhor, mas não tive coragem. Você caminhava como se buscasse algo ou esperasse por alguém. Achei que talvez fosse comprometida e não quis te complicar, apesar de que, todas as vezes que te vi,  sempre estivesse sozinha.
     - Luísa, você não nos contou isso. Que coisa feia!
     - Meu amigo não tem jeito mesmo. As mulheres têm desmaios ao vê-lo.
     Paulo e Luísa continuaram a se olhar . Ignoraram as brincadeiras de Antônio e a bronca de Beatriz.
     - Olha, está passando um belo filme no cinema. Não pude ir à estréia. Mas ainda está em cartaz. Quer ir comigo? Deixará a pizza, mas comerá uma pipoca doce... Hummmmm... Gosta?
     - Adoro.
     - Como adora? Nunca gostou...
     Antes de continuar a falar, foi interrompida pela mão do marido e sorriu.Os sobrinhos estavam calados, sem entender nada do que estava acontecendo, porém achando muita graça.  Luísa se levanta, dá um beijo em cada um e sai de mãos dadas com a felicidade.

 Soneto 96

De almas sinceras a união sincera
Nada há que impeça. Amor não é amor
Se quando encontra obstáculos se altera
Ou se vacila ao mínimo temor.

Amor é um marco eterno, dominante,
Que encara a tempestade com bravura;
È astro que norteia a vela errante
Cujo valor se ignora, lá na altura.

Amor não teme o tempo, muito embora
Seu alfanje não poupe a mocidade;
Amor não se transforma de hora em hora,

Antes se afirma, para a eternidade.
Se isto é falso, e que é falso alguém provou,
Eu não sou poeta, e ninguém nunca amou.
     ( Shakespeare)


SueliFajardo
Enviado por SueliFajardo em 15/09/2007
Reeditado em 05/03/2014
Código do texto: T653903
Classificação de conteúdo: seguro

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SueliFajardo
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