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Seu Teodoro

SEU TEODORO

O dia amanhenceu cinzento. Nuvens carregadas prenunciavam uma tempestade. Ainda assim o gado começa a se juntar próximo a casa de seu Teodoro e a  andar dando voltas no velho pé de juazeiro, berrando num lamento. O gado chora. Um choro que somente os grandes vaqueiros mereciam. Era a homenagem do gado para o maior de todos os vaqueiros, o seu Teodoro. Ate o  rio maretava arrastado pela ventania. Toda a natureza parecia ter sido tomada pela tristeza, pois um dos grandes estava indo embora. Seu Teodoro, deitado em sua cama em forma de girau a tudo escuta. Mal podia se mexer. Mas naquele dia, ao ouvir o gado que berrava o seu berrado triste, busca forças no seu corpo adoentado. As pernas inchadas. O corpo inchado. Se arrasta e pede pra Joana chamar o filho Zé Tonton. Zé nem se da conta de que toda a natureza venera seu Teodoro. Ele pede ao filho: quero montar. O filho estranha o poedido, sabia que o pai nao conseguiria reunir forças, mas obedece. Arreia o melhor cavalo. Coloca aquela sela que somente era usada em tempos de festa. Amarra o rabo do cavalo. Enfeita-o. Seu Teodoro sai e olha para o rio revolto, as águas barrentas provocadas pelas chuvas da época. O vento balançava todas as árvores. O gado continuava ali ao redor do velho pé de juazeiro a chorar. Seu Teodoro olha para o cavalo que parece entender o seu intento. Aquele instante tão mágico. O filho segura o cavalo e ajuda o pai, corpo pesado pela doença a montar. Seu Teodoro qauando se vê em cima do cavalo parece voltar no tempo. Parece por um instante breve que lá estava ele a correr por aqueles campos gerais. O mais famoso vaqueiro do seu tempo agora se despedia. O cavalo começa a andar vagarosamente. Vai até a casa de Ana feia. Vai ate a casa do filho Zé. Seu Teodoro chora. Ai deus, ele conhecia cada arrodeio, cada árvore, cada lagoa. A tudo vira. Ê boi. Seu Teodoro ainda tenta boiar. E o gado, mesmo ouvindo aquela voz fraca, responde, começa a berrar. Seu Teodoro se aproxima do pé de juazeiro onde o gado se reunira para a grande despedida. Continua a chorar. Que tempo bom meu gado. Tempo em que todo o gado era um e por isso quando um morria todos choravam. Agora tudo estava se acabando. Tudo estava se transformando. E o rio era a grande testemunha dessa mudança. Ai se pelo menos pudessem aprender com o rio que a cada momento nao é mais o mesmo!!! Seu Teodoro desce enfim do cavalo. Não mais podia. Nada mais podia. Miúdo, com sua lancha, se aproxima. Vai levrar seu Teodoro para a cidade. Seu Teodoro nao quer ir. Quer ficar ali junto com o gado. Junto com o cavalo. Junto com o pé de juazeiro. Mas obedece e entra na lancha. Miúdo tinha pressa. O rio estava muito bravo e era preciso chegar ao menos nos Campinhos. Mas como levar seu Teodoro para a cidade se ele queria ficar para sempre ali no lugar onde nascera, onde se tornara famoso, onde cumprira com amor a promessa feita a sua mãe, Umbilina. Todo ano celebrava o dia de São João. “Meu pai São João Batista é Xangô. É o dono do meu destino até o fim”. Seu Teodoro um dia foi rei lá em outras terras. Um rei nagô. Viera para também aqui se tornar rei. Rei dos campoos gerais. Aquele a quem o gado seguia quando começava a aboiar. O melhor de todos os vaqueiros de seu tempo. A lancha começa a descer o rio. Seu Teodoro volta os olhos pra trás e é ali mesmo que seu corpo falece.
meire cazumbá
Enviado por meire cazumbá em 15/09/2007
Código do texto: T654270
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Sobre a autora
meire cazumbá
São Paulo - São Paulo - Brasil, 55 anos
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