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Glória

E lá estávamos nós, dispostos em semicírculo iniciado e findado, de um lado e de outro, por coroas de flores enviados pelos amigos de birosca e do palitinho. O velho Salú havia sido em vida, além de meu avô, o ícone na vila, referência de alegria e de samba regados, sempre, a doses de conhaque e muita cerveja. “Não há como deixar de comparar um copo de cerveja gelada a uma galega de pele bronzeada com o suor escorrendo entre seus seios”, dizia ele. Nem choro, nem velas. As rodinhas se espalhavam pelo aposento, o surdo atravessava paredes e cômodos que distanciavam quintal e sala onde, vigiado pelo velho crucifixo de bronze e pelo intocável pavilhão “J” bordô, depositava-se, sobre dois cavaletes, o ataúde que só perdia em matéria de brilho para o par de sapatos calçados pelo morto. A tranqüilidade, a saudade e leve comoção estampadas nos rostos dos presentes. A lembrança triste dos últimos meses de sofrimentos se evaporara ao mesmo tempo em que o último suspiro, entre gemidos, levou para longe aquela alma, a alma do velho Salú.
A harmonia da câmara foi, então, interrompida por murmurinhos e cochichos. Olhei para a porta da rua e a reconheci imediatamente. Vestida de negro – como exigia a ocasião – deu dois passos e adentrou. Glória, um capítulo à parte em qualquer biografia, romance ou atlas de anatomia. Os anos haviam se passado – mais precisamente uma dúzia deles – mas, por algum motivo ou ação divina, sem que fizessem a ela uma visita sequer. As senhoras se calaram ao vê-la rebolar em direção ao caixão, as crianças foram postas para fora e o surdo se calou. “O que esta desavergonhada esta está fazendo aqui?”, cochichavam entreolhares. “Voltou para ficar”, sonhei.
Glória havia trabalhado em casa de meus avós durante uma das férias que passei ali. Tinha a pele morena, uma mulata e tanto, dotada da boca mais carnuda que vi até hoje. Seus seios clamavam por liberdade e as calças que costumava usar pareciam que iam romper a qualquer momento, como uma barragem que vive a lutar contra a força descomunal da natureza – e como gostaria de ser inundado por aquelas belas e perfeitas nádegas. Naquele breve e quente verão a rotina da casa se alterara, meu avô como que por milagre abandonara o boteco e, por incrível que pareça, a galega de pele bronzeada com o suor escorrendo entre os seios. Em vez disso preferia sentar-se à porta que dava para o quintal a brincar com os filhotes de vira lata, enrolar um de palha ou simplesmente olhar para frente. À mesma hora, coincidentemente, os lençóis quarados eram estendidos nos varais e estes suspensos por hastes de bambu. Quando não, as galinhas eram alimentadas ou as verduras colhidas.
Passei a fazer companhia a meu avô, já que as brincadeiras de pega-pega, a pipa e as peladas não eram páreo para Glória, principalmente quando esta se debruçava sobre o tanque de pedra a lavar as roupas que nós nos esforçáramos para sujar. O esforço realizado para esfregar e tirar manchas dos trapos fazia com que a água espirrasse para todos os lados. Braços, coxas e decotes molhados – através da blusa transparente pela água, tinha a impressão que as auréolas tinham o tamanho de uma moeda de um cruzeiro e de que aquilo se tornaria meu eterno fetiche – realçavam as curvas da recém chegada – a quem eu viria render várias homenagens. Glória era discreta, mal sabia do poder hipnótico que exercia sobre os homens. As casas da razão da vizinhança masculina pendiam para a esquerda e para a direita conforme o ritmo de seu rebolar. Era uma obra divina quando vinha, um convite do diabo quando ia. Porém, para os espetáculos no quintal a platéia era limitada e as duas cativas já tinham donos.
Certo dia me ofereci para ajudá-la a carregar, até em casa, as compras feitas na feira. O sol nos esqueceu e a chuva nos pegou na metade do caminho. Encharcados, descobri que não era mais um menino e que meus hormônios ainda me poriam em situações embaraçosas. Minha participação nos afazeres da casa tornou-se freqüente e as gentilezas com as compras carregadas, as roupas estendidas, o quintal varrido e as galinhas alimentadas foram, aos poucos, muito bem recompensadas. Foi entre uma e outra incursão ao quarto de Glória que vi as melhores férias da minha vida se passarem...
Diante do caixão, fez uma breve e silenciosa oração, pôs um beijo em sua mão e o depositou sobre as mãos cruzadas de meu avô – tenho quase certeza de ter visto neste momento um sorriso travesso na cara do velho. Com um aceno de cabeça se despediu da viúva deu meia volta e se foi. Mas não sem antes parar diante de mim dar um sorriso e piscar. Só dei por mim quando o surdo voltou a marcar o ritmo. Agora choravam eu e o cavaco. Nunca soube ao certo porque Glória deixara a casa de meus avós, mas dizem que o velho Salú era visto freqüentemente carregando as compras da feira. Naquela noite, sozinho no quarto, rendi uma última homenagem a ela. Com Glória se foram as melhores férias e minha única virgindade. Morria ali um pedaço de mim, no mesmo dia em que meu avô morria pela última vez.
ARLEI NASCIMENTO
Enviado por ARLEI NASCIMENTO em 17/09/2007
Reeditado em 23/10/2009
Código do texto: T656326
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Sobre o autor
ARLEI NASCIMENTO
São Paulo - São Paulo - Brasil, 45 anos
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ARLEI NASCIMENTO