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MEMÓRIA E VIDA

As ondas do mar haviam interrompido seu sono, era apenas isso o que ele sabia, ou podia entender do belo cenário que o rodeava. E aquela lanterna em sua mão? E aquelas pessoas, de grandes olhos aflitos, mas ao mesmo tempo aliviados, o que falavam? Parecia chinês, ou seria japonês? Quem seriam? Sua cabeça abrigava numerosos pontos de interrogação gigantes. Decidiu correr dali, e para sua surpresa viu que as pessoas corriam desesperadas atrás dele. Começou então a sorrir, pelo menos se divertia.
Depois de um tempo viu-se obrigado a seguir aquelas pessoas, talvez o levassem a um lugar familiar, que fizesse algum sentido no meio de todo aquele ambiente desconhecido. Parava, apertava a testa, e tinha flash de memória: em close via cabelos loiros balançando. De quem seriam? Por que balançavam? Por que não conseguia ver nem entender nada do restante? Daquela forma era como se só visse os cabelos loiros voando.
Tornou então a se preparar para seguir o destino escolhido por seus “novos conhecidos”. Eles o levaram para uma pequena casa que ficava ao lado de um restaurante de frutos do mar, quase deserto; podia sentir o cheiro forte do que se costumava comer ali. Deitaram-no em uma cama e de repente um grande sono parecia tomá-lo, ao mesmo tempo em que a vista escurecia.
Acordou e surpreendentemente não viu mais ninguém daquele grupo de desconhecidos, mas da portinhola de uma casinha, vinha um diálogo muito interessante, aproximou-se e podia ver que uma moça discutia calmamente com um rapaz. Carinhosamente dizia:
— Marcos, não adianta... Não posso te enganar... Eu te adoro, mas não te amo, se pudesse escolher te amaria, juro, mas não te amo. Sofro demais por isso também.
Marcos então, quase sem conseguir falar, dizia:
— Regina, eu sei Regina... Você não é a primeira a me dizer isso. Também não é a primeira vez que sinto o que estou sentindo agora. Você não tem culpa, não se martirize. Eu vou encontrar uma maneira de sair disso.
Regina então, chorando, o abraçava, e em seguida corria, saindo dali, deixando-o.
Marcos, parado, parecia tentar contar quantos grãos formavam aquela areia quase branca que se juntava com aqueles pingos que não eram de chuva.
Alguém parecia chamá-lo.
Marcos só conseguia identificar aquele homem parado perto da porta.
E ele lhe dizia:
— Não desista, ou pelo menos, se desistir, não mude drasticamente sua vida por isso, seja forte.


Marcos então o indagava dizendo:
— Por que você me diz isso? Quem é você?
Aquele rosto em sua frente abria um sorriso de quem agora finalmente parecia saber quem era. E dele vinha a resposta:
— Vocês me ajudaram, mesmo sem saber... eu não sabia quem era, nem por que estava ali, mas ouvindo a história de vocês rapidamente me vi em você.
— Como assim? — interrompeu Marcos
— Certo dia, eu também amei desesperadamente uma pessoa, que também não conseguia corresponder aos meus sentimentos. Não era a primeira vez que isso me acontecia, já havia sofrido anteriormente, mas especificamente daquela vez, parecia diferente. Isso porque eu não encontrava outra solução além de interromper totalmente o contato. Tentei como pude continuar falando com ela, mas assim o meu amor só aumentava e isso tornava tudo cada vez mais doloroso e insuportável. Eu era provido de bens materiais, se pudesse os trocaria por um grande e verdadeiro amor que me correspondesse. Assim, decidi atravessar o mundo e mudar completamente minha vida. Puro engano, pois acabei me afastando daqueles que formavam a grande base que me sustentava: minha família e meus amigos.
Então, impaciente, Marcos lhe interrompia pela segunda vez:
— Sim, mas como e por que você perdeu sua memória?
— Ok, vou lhe explicar, é a parte mais dolorosa, mas vamos lá... Recebi a notícia do casamento da mulher que eu amava. Desesperado e agora sem contato com ninguém que me confortasse, acabei pensando em atentar contra minha vida. Peguei uma lanterna e saí pela madrugada, quando julgava que a praia estivesse realmente deserta. Procurava pensar bastante no assunto que me torturava até finalmente ter a coragem necessária. Meus pensamentos foram interrompidos por um casal de nativos que pareciam estar muito à vontade. Até mais do que o necessário. Eles me chamaram para que eu os seguisse, e me levaram a uma casa parecida com esta, onde me fizeram tomar uma espécie de chá. Nesse momento meus pensamentos torturantes voltaram, decidi então sair correndo dali; não queria que me vissem chorando. Depois disso, quando retomei os sentidos estava deitado na areia com uma lanterna na mão. Posso então lhe dizer o seguinte: não sei o que continha aquela espécie de bebida, mas ela salvou minha vida e me fez perceber o quanto teria perdido se tivesse conseguido meu intento: a família que amo, meus verdadeiros amigos, e também o que surpreendentemente mais me faria falta: o direito de amar novamente.
Frank Santos
Enviado por Frank Santos em 20/09/2007
Código do texto: T661273
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Sobre o autor
Frank Santos
Recife - Pernambuco - Brasil, 40 anos
60 textos (1687 leituras)
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Frank Santos