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A fenda

      ...eis que um dia, tocando o céu da boca, vazou a própria alma! A explosão de açucares e licores extasiou-o por horas. Ficou perplexo, pasmo, imóvel. Se estivesse em outras histórias o acontecimento seria chamado “êxtase dos santos”. Elevou-se!
      Deu-se em pleno dia, hora de almoço, em país estrangeiro. Desavisado ele manejava a comida de um lado a outro na boca. A turnê de alimentos era mecânica. Sempre fora. Não lembrava o que havia comido ontem, só tinha memória para os pratos infantis, os que são servidos lá pelos dez anos de idade.
      Fazia frio, tinha a chuva fina, rostos pálidos, roupas que nunca conheceram matizes além do cinza-marron-preto e a hora marcada para retornar para a sala em Manhattan. Tudo foi como em sete meses de serviço na empreiteira, menos o buraco em sua boca.
      Mastigava, engolia... Balé de monotonia e tristeza. Sabia-se triste, mas não podia narrar em que dia exato a tristeza apoderou-se de seu ânimo. Ele não se lembrava! Justificava como sendo resultado da ausência de determinada química cerebral. Estava na moda ser infeliz por falta de “inas”. Mas com sinceridade, achava-se triste desde sempre, com ou sem moda. Tinha tudo o que dá respaldo a felicidade. Estava com quarenta, era belo, havia uma mulher intensa, uma filha saudável, os pais ainda eram vivos. Sabe-se também que ele nunca parava para pensar nisso. Pensava em estudo, carros, gostava de ir a jogos, vestir-se bem... Porém, a beleza mesmo, a essencial beleza das coisas todas, ele nem de longe sonhava o que fosse.
      Neste dia, quando a alma escapou-lhe, apenas mastigava e engolia. De repente, quando passou a língua pelo céu da boca, sentiu que havia um pequeno buraco, ao insistir no contato o orifício foi se alargando até ficar do tamanho de 5 centavos. Imediatamente parecia que uma válvula tivesse sido aberta, um jorro invisível de sabores e volumes era despejado pelo restaurante tomando todo o ambiente. Ele sentia que um vigor extraordinário tomava seus olhos. Sabe-se que as pessoas ficaram instigadas com o fenômeno, mas não reconheceram naquilo qualquer importância e permaneceram vivendo suas vidas na forma e conteúdo que já haviam estabelecido. Um garçom pensou no evento por uns dois dias, mas depois esqueceu.
      O homem, impossibilitado de esquecer, sorria como uma criança! Foi ser feliz, na velocidade de um foguete.

betina moraes
Enviado por betina moraes em 21/09/2007
Reeditado em 21/09/2007
Código do texto: T662599

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Sobre a autora
betina moraes
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 48 anos
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betina moraes