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Liberté, égalité... infidélité!

Tanto andam agora preocupados em definir o conto que não sei bem se o que vou contar é conto ou não, sei que é verdade. Faço minhas as palavras de Mário de Andrade. Ora, como ele também dizia, Conto é tudo aquilo que chamamos conto. Aqui vai um.

Eugénia Flores esperava-me na esplanada do Café du Centre no Molard. Atirei com o telemóvel, as chaves e um « Estou atrasadíssima » para cima da mesa ao mesmo tempo que arrastava a cadeira para trás. Sem posturas de Madame, deixei cair o corpo, e sentei-me.

- Traiu-me, o filho da puta !
- Não conseguia desenvencilhar-me de um cliente. Arre que era chato !
- Já lhe pus as malas à porta.
- O que é que estás a beber ? Acho que vou pedir o mesmo. Hoje, finalmente, tive um raio de inspiração para um conto, ou uma crónica. Bem, só tenho o título. Depois logo vejo o que faço com ele.
- C21H22N2O2
- O quê ?!
- É o que eu vou-lhe enfiar goela abaixo. Ai vou, vou.
- A quem ? Eugénia, estás bem ?

Deu uma gargalhada estrondosa, histérica, estalada, e disse-me que melhor não poderia estar. Pedi um Kir Royal – voltei aos meus ares de Madame – enquanto a observava. Era impressão minha, ou estava a ser cínica ? Vestida de negro, óculos negros, um chignon despenteado, que é o que está na moda, e os dedos tamboriladores. Estava nervosa. Há muito que conhecia Eugénia. Não era de nervosuras, e muito menos de gargalhadas quasi histéricas. Tinha, sempre, uma calma irritante.

- O Daniel tem uma amante. E não é de hoje !
- O Daniel tem o quê ?
- Uma nova cerzideira e as malas à porta . Se tivesses prestado atenção ao que te disse quando chegaste...
- Desculpa, mas tentava absolver o meu atraso. É por isso que estás furiosa.
- Furiosa por ele ter uma amante ? Não, não, e não ! Furiosa estou com ela, que não lhe ensinou algo mais que o prefácio do Kama-Sutra. A esse ponto já nós tínhamos chegado. Aliás, durante estes anos todos não passámos daí.
- Tens razão. Já não se fazem amantes como antigamente...

Agora, era eu que estava a ser cínica. Porque diabos Eugénia estava furiosa com a amante do marido, e não com o próprio, ou o Papa, o Bush, o Sarkozy, ou até mesmo com o mundo inteiro ? Conhecia o charme de Daniel, como conhecia o seu entusiasmo exasperante em derramar charme em qualquer burra de saias. Aquilo já nem era entusiasmo antes-que-a-vinha-morra, mas entusiasno. Sempre pensei que Eugénia desconhecesse as quedas do marido, mas concluo que ela, como diria Carpinejar, fazia fiado com os olhos. E eu, naquele momento, pagava para não ver a desolação de Eugénia.

- Então não lhe puseste as malas à porta porque ele te traiu ?
- Não. Afinal qual foi a tua inspiração ?
- Liberté, égalité... infidélité ! Desculpa, se soubesse da infidelidade do Daniel nem teria tocado no assunto.
- Quem falou em infidelidade ? Queres outro Kir ? Eu vou pedir um Orgasmo.
- Sim... e que seja Royal !!

 

 

Cristina Pires
Enviado por Cristina Pires em 22/09/2007
Código do texto: T663556

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Sobre a autora
Cristina Pires
França, 51 anos
87 textos (6780 leituras)
1 áudios (37 audições)
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Cristina Pires