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FOLHAS CAÍDAS


                 
Sentado junto à ribeira que atravessa o bosque, deixo-me embalar pelo canto ritmado da água cristalina a galgar pedras e taludes, no seu sinuoso e atribulado percurso em busca de um rio onde se possa acolher.
 Deliciado, recosto-me no tronco largo e enrugado de uma árvore centenária agora amarelecida pelo Outono, e que, tal como todas as suas companheiras do bosque se vai deixando despir progressivamente pelo sopro brando e delicado do vento, mais fresco a cada hora que passa. O murmúrio da corrente e o canto, agora melancólico, da passarada a procurar um abrigo, que o arvoredo semi-despido torna cada vez mais difícil de encontrar, relaxa-me a mente e convida-me à reflexão. Sinto-me bem, aliás sinto um prazer inexplicável em cultivar a solidão e a melancolia. Deixo-me então embalar pelos meus pensamentos enquanto me deixo, simultaneamente, envolver pela tranquilidade daquele entardecer suave e dolente. Olho com atenção toda a beleza que me rodeia e acabo por me fixar no chão atapetado, em vários tons, por milhares de folhas castanhas e amarelas que o cobrem completamente, e constituem um quadro fascinante.
O encanto do momento leva-me à meditação, facilitada pela pacatez do lugar e pelo festival de beleza que me rodeia. Sem razão aparente começo a centrar a minha atenção em cada uma das folhas tombadas ali a meus pés. Curiosamente, elas parecem metamorfosear-se, e em cada uma delas tenho a sensação de descortinar uma cara, um objecto, um desejo, um sonho. Por exemplo, aquela ali tem mesmo a cara da Anita, ( a Anita foi o meu primeiro amor, mas a quem eu, nos meus incipientes doze anos nunca fui capaz de dizer o que sentia por ela. Julgo mesmo que, nessa época, nem eu sabia bem o que era.). Aquela folha mais além parece-se tanto com a Teresa, a outra a seguir é de certeza a Fernanda; e a Lena, a Cristina, a Luísa também ali estão, um pouco mais adiante. Instintivamente levantei os pés, com receio de as pisar. Olha lá atrás, é a Raquel, (sempre gostou de mim, mas eu, lamentavelmente, nunca fui capaz de lhe retribuir afecto, o que ainda hoje lamento sinceramente). E a Marta também cá está, lá bem ao fundo, (essa foi umas das nunca me ligou nenhuma). Estão todas aí caídas e espalhadas pelo chão. Embelezando-o.
Mas há mais. Aquela folha ali, mais pequenina, parece envergar um “traje de luces”, tal eu sonhei na meninice. Aquela outra parece mesmo um oficial da Marinha, (sim, esse foi outro dos meus sonhos), E aquela mais além com um ar intelectual tem mesmo ar de escritor, (por curiosidade depois de um professor do liceu ter profetizado que esse poderia vir ser o meu futuro, também comecei a sonhar com isso. Pura idiotice). Mas muitas mais folhas estão caídas por aí e que, se eu as fixasse com um pouco mais de atenção, reconheceria facilmente.
Estão ali, caídos no chão, pisados por todos aqueles que ali têm passado, os meus amores falhados, os sonhos que nunca concretizei e os planos que nunca consegui, (ou não quis?) realizar. Aquele chão que piso neste momento, afinal não está coberto de folhas que o Outono derrubou, está sim coberto dos meus falhanços, das minhas frustrações e dos meus desaires, consequência da fraqueza, da falta de coragem e de vontade que me impediu de lutar pelos meus objectivos. Agora é tarde, às árvores o Outono despe-as de folhas, aos homens despoja-os dos sonhos. Resta o sussurrar das águas da ribeira, o cantar dolente dos pássaros, a paleta de cores que me rodeia e um entardecer fresco mas calmo a envolver as árvores nuas.
A fresquidão que, progressivamente vai aumentando à medida que o sol cai no horizonte, diz-me que está na hora de regressar a casa. É o que faço. Levanto-me, olho o chão uma vez mais, e com um joelho em terra apanho uma folha que levo lentamente aos lábios. Apanho uma outra e repito o gesto. Eram a Anita e a Raquel. Volto a pousá-las cuidadosamente no solo e parto em direcção a casa. Voltei-me para trás para mirar uma vez mais aquela árvore que me deu sombra e à qual me recostei. Olho-a com carinho e reparo que nos seus ramos quase despidos existem ainda uma boa meia dúzia de folhas bem verdes e bem seguras. Essas não caíram ainda. A minha árvore ainda tem algumas folhas. Mais reconfortado, levanto a gola do casaco, e volto rapidamente para casa.

Guilherme Duarte
Enviado por Guilherme Duarte em 24/09/2007
Código do texto: T665897

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Sobre o autor
Guilherme Duarte
Portugal, 75 anos
7 textos (250 leituras)
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Guilherme Duarte