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História de uma ex-cética

*releitura
   
   Ana, desde muito, denominava-se uma completa cética. Qualquer espécie de crença, para ela, não passava de uma maneira infantil de deturpar a realidade. Apenas era capaz de crer naquilo que via e, de preferência, tocava e cheirava. O real deveria estar perfeitamente delimitado num contexto espaço-tempo. Já o sobrenatural, dizia, não passava de criação de mentes humanas fracas e impotentes. Ela, entretanto, considerava-se uma forte. Definitivamente não precisava desse tipo de escape.
   As lembranças que possuía das vezes em que acreditara em algo sempre terminavam com ela quebrando a cara: descobriu que Papai Noel não existe, que as mágicas que se vê no circo não passam de truques baratos, que estrelas cadentes não realizam desejos e, aliás, nem sequer são estrelas de fato... Todas as suas crenças iam sendo derrubadas, uma a uma ruíam pelo chão.
Foi, porém, por golpe ainda mais duro que todos os seus dogmas foram destroçados. Sua mãe, que sofria de grave doença, estava ficando a cada dia mais debilitada. Ana tinha muito medo de perdê-la, e, certa noite, lhe fez um pedido inesperado:
   -Mamãe, por favor, não morra!
   -Oh, querida! Não chore assim! Eu nunca vou daixar de estar a seu lado.
   -Como sabe?
   -Eu não já lhe contei sobre Deus?
   -Sim.
   -E o que eu lhe disse sobre ele?
   -Disse que era como o amor.
   -Isso significa que se você me ama e eu te amo, e se Deus é amor, nada neste mundo será capaz de nos separar. Ou existe algo mais poderoso que Deus?
   -Não_ respondeu, agora mais tranquilizada.
   A mãe, então, enxugou as lágrimas da menina e cantou-lhe uma bela canção, a mesma que costumava cantar-lhe todas as noites. Chegada a hora de Ana ir para a cama, sua mãe lhe disse sorrindo:
   -Não esqueça de falar com Deus antes de dormir. Ele ama muito as crianças e sempre atende seus pedidos.
   Ana também sorriu e, depois, dirigiu-se para seu quarto. Lá, ajoelhada ante um desenho de deus pintado por ela própria, fechou os olhos e pôs-se a conversar com aquele ente, o qual tanto a confortava e que apenas com sua imaginação era capaz de alcançar. Fez desta oração uma prática diária, sem a qual seria incapaz de pegar no sono, por mais que os olhos lhe pesassem. Sentia-se cada vez mais próxima de seu deus, olhava para aquele desenho e reconhecia ali mais que meros traços desproporcionais em uma folha de papel borrada; aquele era, antes, seu amigo íntimo, seu maior confidente.
   Certa noite, após a mãe ter sofrido séria piora, Ana correu para o quarto, ajoelhou-se perante o desenho e pôs-se a lançar fervorosas preces. Nunca rezara tanto nem com tal ímpeto. Os joelhos doíam, a coluna incomodava, o sono tentava vencê-la a qualquer custo... Mas nada, nem o mais forte de todos os tremores, seria capaz de arrancá-la dali. Rezou durante horas, pois sabia que nada mais lhe era permitido. Porém, não se sentia impotente. Ao contrário: tinha a mais íntima certeza de possuir, aquele seu ato, maior poder que qualquer remédio ou tratamento. Ao findar a súplica, dirigiu-se rapidamente ao aposento onde estava a mãe. E que surpresa não teve ao perceber que já estava morta!

***
   Nunca dor tão profunda se havia instalado naquele pequeno coração. Mas não era só dor o que a inundava... Era raiva. Sentia-se traída. Convenceu-se de que deus não existia, correu para o quarto, desesperada, e rasgou aquele desenho, desfazendo-se de qualquer fé, de qualquer crença. De agora em diante seria apenas ela.
   Muitas vezes tentavam convencê-la:
    -Não diga isto, Ana! Renegar a Deus é o pior dos pecados! Assim lhe serão fechadas todas as portas do céu.
Ela não constestava, pois sabia que jamais penetraria tais muralhas, mas não deixava de revidar em pensamento:
   -Estúpidos, não percebem que não há céu algum? Em pensar que eu mesma acreditei um dia nesta estupidez…
   Descobriu que existem inúmeros deuses no mundo e cada um deles é servido com a mesma fé incondicional, a mesma certeza com que um dia servira a seu deus, deus este apenas igual a tantos outros espalhados por aí. E como era pretensiosa aquela antiga fé em sua onipotência.... Que competência possuía ela para pregar tal verdade? Logo ela, que se tivesse nascido na China provavelmente estaria seguindo os ensinamentos de Siddhartha, e se vivesse na Índia pode ser que estivesse, naquele exato momento, entoando mantras a Shiva… Ana nem imaginava, mas a sua história não parava por ali.
***
   Foi em uma manhã de setembro que aconteceu. Ana, como sempre pontual, dirigia-se ao metrô, o qual a conduziria a mais uma manhã de serviço. Caminhava decidida e apressadamente entre os transeuntes, sem desviar o olhar de seu destino para o que quer que fosse. O tempo por aquelas bandas era uma preciosidade, e não se podia dar-se ao luxo de perder um segundo que fosse. E, no caso de Ana, não era apenas uma luta contra o relógio. Era mais: Era uma luta contra si mesma, contra o universo, o qual, a cada instante de ócio e solidão,  se fazia sentir em seu enorme peso. Ela precisava encher-se de algo, o que quer que fosse, para suportar o fardo que era existir.
    Mas, em certo ponto do caminho, eis que começa a distinguir uma música distante. Aquela melodia provocou-lhe sentimentos estranhos, parecia muito familiar. Procurou a origem de tal som, a fim de aproximar-se para ouvir melhor. Logo avistou, um pouco mais a frente, uma menina, sentada em um pequeno banco de madeira, a soprar uma flauta doce. Chegou mais perto e, finalmente, lembrou-se de onde conhecia aquela música. Era a mesma música que sua mãe sempre lhe cantava. Há quanto tempo não a ouvia...
   Ficou ali, em pé, perdida em meio a uma avalanche de lembranças. Sua mãe, sua infância, tudo voltava a sua mente como em um filme. As lágrimas escorriam por seu rosto quando, de repente, lembrou do trabalho. Aflita, baixou a cabeça em direção ao pulso esquerdo, percebendo que estava atrasada para o metrô. Ao levantar a cabeça novamente, deu mais uma olhada em direção à menina, notando que esta lhe sorria. Retribuiu o sorriso timidamente:
   -Tome estas moedas, você toca muito bem.
   - Obrigado, moça, mas suas moedas não me terão nenhuma utilidade.
   Ana não entendeu bem, ficou até meio desconcertada ante a recusa, mas não tinha mais tempo a perder ali. Se despediu e tornou a andar, agora ainda mais depressa.
***
   Desceu do metrô com quinze minutos de atraso. Pensava em alguma desculpa cabível para dar ao chefe enquanto andava em direção ao trabalho. Avistava cada vez mais de perto aquele enorme edifício de 110 andares onde tantas vidas se aglomeravam. Uma das grandes maravilhas edificadas pela lógica humana. Gostava de apreciá-lo, pois, sabe-se lá o  porquê, aquilo lhe passava certa segurança. Era, analogamente, como os grandes monumentos das antigas civilizações. Os antigos, entretanto, eram motivados pela fé, e pela fé realizavam muitas coisas. Mas o que impele o homem moderno é uma força talvez tão forte quanto, é a eterna busca pelo progresso, a corrida pelo avanço que só pode se dar através do emprego cada vez mais aperfeiçoado de sua inteligência. Por isso mesmo ali só havia espaço para o império de um deus: o deus dos negócios.
   Eis, então, que, subitamente, um barulho de turbina começa a surgir, tornando-se cada vez mais alto. Todos, inclusive Ana, olham para o céu, percebendo um avião que se aproxima perigosamente da superfície. O desespero é grande quando ele finalmente colide com um prédio. Justamente o prédio onde Ana deveria estar.
   Pessoas gritam por todos os lados, o dia torna-se noite de tanta fumaça e poeira, a respiração fica cada vez mais comprimida… O desespero é geral, a perplexidade diante da tragédia se estampa em cada rosto desamparado. O que teria acontecido ali? Como assim tão de repente as coisas podem sair completamente do seu rumo mais exato, crer-se- ia, até, inalterável?
   Ana demora algum tempo para digerir tudo e, quando se dá conta do ocorrido, nota também que só estava ali, viva, observando pasma aquele enorme edifício em chamas por conta de alguns curtos minutos. Voltou ainda por muitos dias, no mesmo horário, ao local onde tinha escutado a menina da flauta, mas nunca tornaria a encontrá-la.
   Ela jamais saberia de fato o que acontecera naquele dia. Não poderia dizer se foi Deus, se foi um anjo, se foi sua mãe... Nem se atrevia a tentar explicar, pois já lhe fora suficientemente provado o quão vãs eram tais tentativas. Apenas uma coisa podia dizer com toda certeza: ela nunca mais teria dúvidas de que o mundo não termina aonde finda nossa duvidosa razão.
Eleanorrigby
Enviado por Eleanorrigby em 25/09/2007
Reeditado em 01/05/2012
Código do texto: T668017

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Sobre a autora
Eleanorrigby
São Luís - Maranhão - Brasil, 29 anos
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