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NO CALOR DA NOITE

 
Que se lixe o romance. Por hoje basta!

Foi com este desabafo proferido em voz alta, apenas para mim, que desliguei o computador após longas hora de trabalho pouco menos que improfícuo, na tentativa de acrescentar mais algumas páginas ao romance que há muito estou a tentar terminar.

O relógio indicava que as 2 horas da madrugada já há muito haviam sido ultrapassadas. O corpo cansado, e a cabeça esvaída reclamavam cama, mas o calor intenso que ainda se fazia sentir convidava a desfrutar de alguns momentos reclinado na confortável cadeira de verga que tinha na varanda.

Assim fiz. Recostei-me preguiçosamente no cadeirão, fechei os olhos, e deixei-me acariciar pela brisa morna e suave, que mansamente me ia envolvendo o corpo e anestesiando a mente. Respirei fundo, e senti-me bem.

O céu, estrelado, estava iluminado pela luz fascinante de um luar prateado como só é possível admirar numa noite de lua cheia, em pleno mês de Agosto.
O aroma inebriante das flores do jardim, intensificado pelo ar quente da noite, entra-me pelas narinas e quase que me anestesia. È o corpo que se relaxa, e se abandona lascivamente, afundando-se cadeira abaixo, e são os sentidos que se estimulam e geram um parafernália de desejos mais ou menos inconfessáveis.

Lembrei-me então que, naquele momento, estava deitada na minha cama, uma mulher escultural e doce, que faz questão de me fazer companhia sempre que sonha que posso estar em crise de inspiração. Pega na mala e instala-se, de armas e bagagens, na minha casa sem aviso prévio, e sem admitir protestos. O mais interessante disto tudo é que eu cada vez estou a gostar mais dessas invasões da minha privacidade.

Só o facto de saber que tinha ali, bem perto de mim, essa mulher esplêndida, e esse ser humano admirável, transmitia-me uma agradável sensação de tranquilidade e confiança que eu nunca tivera o privilégio de sentir na minha vida, antes de a conhecer. Sentia-me um outro homem, mais ousado e mais atrevido, capaz de enfrentar o mundo, e realizar coisas tão complicadas como, por exemplo, escrever um romance.

Ao pensar nisso senti-me bem…muito bem. Abandonei-me ao torpor provocado pela brisa quente, e pelo brilho prateado da lua, que parecia sorrir para mim com bonomia. Deixei-me afundar, lascivamente, pelo cadeirão abaixo, retribui o sorriso e deixei-me adormecer…

O ladrar furioso de um dos cães da vizinhança sobressaltou-me e acabou por me acordar. A noite avançara já madrugada adentro, mas continuava cálida e odorosa. Levantei-me preguiçosamente, e meio ensonado cambaleei até ao quarto onde me esperava aquele anjo, que transformara a minha vida quase num paraíso. A janela escancarada deixava que o luar banhasse todo o quarto com a sua luz mansa e brilhante. Deitada em cima da cama, nua como gosta, a Raquel, é esse o seu nome, dormia com aquele ar sereno que só os justos conseguem deixar transparecer. A sua pele já de si muito branca resplandecia sobre os lençóis, deixando bem à vista aquele triangulo farto e negro que tanto me seduzia e que eu gostava de acariciar com deleite. Aproximei-me sorrateiramente e depositei levemente um beijo um pouco abaixo do umbigo. Senti, com prazer, as suas mãos pousarem-me mansamente na cabeça e, com enorme delicadeza, fazerem uma ligeira pressão para baixo. Gostei da sensação e deixei-me conduzir obedientemente. O calor que abafava o quarto de repente intensificou-se de tal forma que parecia que um mar de chamas o havia invadido. Ia começar ali uma longa e intensa noite de amor que iria mudar completamente o rumo da vida…

A mistura de aromas que se soltava do jardim e invadia o quarto através da janela escancarada, por onde entrava também uma leve brisa ainda morna, o som estridente e cadenciado do canto dos grilos, o ladrar da canzoada vizinha, e o perfume discreto com que a Raquel se aspergira levemente antes de se deitar, era uma autêntica provocação aos sentidos, que estimulados pela ambiência envolvente em breve se transformaram num vulcão incontrolável.
 O aroma suave e doce que tomara conta do quarto foi sendo lentamente substituído pelo odor da transpiração dos corpos enlaçados numa dança frenética e arrebatadora. O canto dos grilos e o ladrar da canzoada vizinha foram sendo, também eles, progressivamente abafados, primeiro pelo sussurro das palavras com que se iam fazendo juras de amor e se prometia uma entrega total e exclusiva, depois pelo aumento do ritmo da respiração cada vez mais pesada e ofegante, mais tarde por leves e doces gemidos, que por sua vez iam sendo substituídos por gritos de prazer que aumentavam de intensidade à medida que ia aumentando o frenesim dos corpos que se chocavam cada vez mais depressa e com mais força. Era já o delírio completo e descontrolado. Era o verdadeiro cântico da carne, uma sinfonia que em crescendo caminhava para um final triunfante e apoteótico. Compunha-se ali um autêntico hino ao amo, à posse e à entrega. Foi de facto uma noite mágica.



O sol já ia alto quando, meio estremunhado fui deixando que os olhos se abrissem lentamente até serem capazes de enfrentar a luminosidade intensa com que o sol invadia o quarto. Aos poucos fui tomando consciência do que se passara ali naquela noite, e naquela cama. O corpo, moído e cansado, fazia questão de mo recordar, mas apesar disso sentia simultaneamente uma sensação de leveza e de festa. Procurei a Raquel ali ao meu lado…mas o lugar dela estava vazio. Chamei-a, mas não respondeu. Inquietei-me, e inexplicavelmente, senti medo, medo de que ela se tivesse ido embora, assim como chegara. Sempre soube que, se eu continuasse a fazer-me desentendido quanto aos seus anseios, um dia ela sairia e não voltaria mais. Para falar verdade nunca até ali, me preocupara muito com os seus sentimentos, tal a certeza que tinha que ao primeiro estalar de dedos ela estaria ali deitada sobre a minha cama, pronta e disponível. Para quê então, preocupar-me com o resto? Mas até quando?

Vesti-me à pressa e corri para o jardim, na esperança de que ela ali estivesse. Não estava. Desorientado e inquieto voltei para o quarto. Ter-se-ia ido embora de vez…sem uma palavra. Seria que depois de me levar ao paraíso, me iria lançar no inferno? Ter-se-ia vingado assim da minha indiferença e da minha insensibilidade e indiferença? Voltaria?



- Olha amor, fui comprar umas coisinhas óptimas para o teu pequeno-almoço. Deves estar faminto. Queimaste muitas calorias esta noite, quero-te recuperado bem depressa.

Exultante, corri para ela, abracei-a fortemente contra mim e supliquei-lhe:

- Onde estiveste meu amor. Tive medo

- Medo Tu?. Mas medo de quê?

- Que te tivesses ido embora.

- E porque me iria eu embora? Alguma vez te abandonei?

- Não,  claro que não. Se alguém tem abandonado alguém, sou eu que não te tenho retribuído nem um pouco do muito que me tens dado.

- E por isso…

- Pensei que te tivesses fartado.

Largando uma sonora gargalhada ela respondeu feliz:

- Depois de uma noite como a que acabámos de usufruir. Grande pateta.

- Casa comigo Raquel.

-Finalmente! Estava a ver que nunca mais ouvia essas palavras da tua boca.

- Quer dizer que aceitas?

- Claro meu tonto. Não quero eu outra coisa.

Felizes, e loucos de alegria, voltámos para o quarto. Desta vez com o sol por

testemunha.



Guilherme Duarte
Enviado por Guilherme Duarte em 30/09/2007
Código do texto: T674402

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Sobre o autor
Guilherme Duarte
Portugal, 75 anos
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Guilherme Duarte