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O som de suas asas

Hoje eu estava pensando em você, quando vi dois sóis no crepúsculo. O mundo tornou-se um lugar bem mais solitário depois que você foi embora e eu fiquei. Sinto-me um estrangeiro aqui, um estranho. As coisas não são mais como antes. Eu vi pessoas se machucando para atingir outras. Conheci gente capaz de abandonar um coração mesmo sabendo que ainda estava viva dentro dele. E houve quem procurasse a morte do corpo e da alma por acreditar que só assim permaneceria vivo para sempre em um coração que já estava vazio. Coisas assim, que um dia eu sequer pude imaginar. Agora, o amor nasce da pele, e o toque é tudo.

Não há mais tempo. Serei devorado pelos meus próprios filhos, da mesma forma que devorei meu criador e o substituí por minha imagem e semelhança. E não deixarei lembranças. Seria apenas vaidade.

Eu estive lá, no primeiro lugar. Senti o magnetismo no ar. Senti o gosto de metal nas gotas de chuva. Eu ouvi as vozes sussurrando em meu ouvido. Uma raposa cruzou o olhar com o meu. Era você quem estava ali comigo. Era você. Era como você. Eu era como você, e eu me senti como você. Enquanto olhava para cima, com o olhar perdido em uma escuridão sem fim, eu ouvi sua voz. Eu acreditei. Eu sempre acredito. Mas depois eu esqueço.

Eu tive uma visão lá do espaço. Eu vi o planeta em chamas. Aquela esfera azul transformou-se em uma laranja podre, uma massa negra e vermelha. Havia a doença, e a doença estava em nossos filhos, e a doença era nossos filhos. Eles se escondiam atrás de muralhas para se proteger daqueles que lutavam para se proteger deles. Finalmente eles aprenderam a viver sem nações, mas as fronteiras estão vivas em cada muro, em cada porta que não se abre sem um pedido de identificação. Eles criaram um novo mundo dentro de suas máquinas de brincar de deus, mas até mesmo esse “admirável mundo novo” estava carregado de ódio e ambição, e também nele as pessoas matavam, morriam e renasciam incessantemente. O mundo que eles criaram não é em nada diferente do que aquele que foi criado para nós há tanto tempo que nem lembramos realmente por que.

Mas não podemos culpá-los. Não há ninguém para culpar quando todos somos tão iguais. Não fomos nós que fizemos tudo, mas nós também demos o primeiro passo. Fomos nós que os ensinamos como matar deus, como enganar o diabo e como escravizar os próprios pais. Eles são nossa imagem e semelhança.

Tais quais nossos deuses, os deuses deles também pedem provas de devoção, mas estes não pedem a décima parte para receber o todo. Estes exigem o todo por uma décima parte do prazer que era nosso por direito. E o prazer ainda é um crime. O prazer sempre foi um crime. Mas o crime compensa.

Não foi por outra coisa que Édipo arrancou os próprios olhos, foi por excesso. Eu também quis arrancar os meus, mas sou covarde ainda. Eles tudo querem e tudo têm. Assim sempre foi e assim sempre será. Esse é o costume. Tudo que nós queremos, nós conseguimos. E, em nosso íntimo, nós sempre desejamos isso.

Se eu arrancasse meus olhos, talvez conseguisse lembrar do som de suas asas. Tenho quase certeza que sim. Se eu arrancasse meus olhos, talvez não sentisse tanta culpa. Mas isso não apagaria o que eu já vi. Em meus sonhos, eu tenho visto novamente, todas as noites, como um samsara dentro do samsara.
Gerson Boaventura
Enviado por Gerson Boaventura em 02/10/2007
Código do texto: T677073

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Sobre o autor
Gerson Boaventura
Fortaleza - Ceará - Brasil, 35 anos
57 textos (3993 leituras)
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Gerson Boaventura