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O caso das coxinhas (Uma noite animada no recanto da insensatez insatisfeita)

1. Dorian & Doneco

Doneco: Que tal colocar uns cogumelos nesse pão?
Dorian: É melhor não, esse pão já tá aí por um bom tempo. Acho que ele já entrou naquela fase de imitação de pedra.
Doneco: Estou morrendo de fome! Bem que eu gostaria de ser casado.  Chegar em casa e ter um jantar quentinho me esperando. E ai dela se não tiver! Ha, Ha, Ha.
Dorian: “Se não tiver”. Quem é você? Um desses tipos que bate em mulher?
Doneco: Claro que não. Eu só quis fazer uma piada. Dizem que rir engana a fome.
Dorian: E o que seria de Picasso se tivesse decidido se tornar músico.
Doneco: Como disse?
Dorian: Cada um na sua. Fazer piadas não é o seu forte. Você nunca foi engraçado.
Doneco: Não tão engraçado quanto essa sua cara feia! Ha, ha, ha. Nada?
Dorian: Nada. Que tal se concentrar nas coisas que você sabe fazer?
Doneco: Hum... E que tal uma pizza?
Dorian: Eu já disse que não estou com fome.
Doneco: Mas eu pago!
Dorian: Nesse caso a coisa muda completamente de figura. Minha metade pode ser de lombinho canadense?
Doneco: Sabe do que mais? Eu não tenho um puto no bolso.
Dorian: Um o que?
Doneco: Dinheiro. Estou mais liso que bundinha de neném. Ha, ha, ha. Nada ainda?
Dorian: Nada. Deixa pra lá. Eu não estou com fome mesmo. Vou pra casa, talvez tenha sobrado macarrão com brócolis do almoço.
Doneco: Maldito Dorian, por que eu fui sair da casa da minha mãe?
Dorian: O que está feito não pode ser desfeito. Que tal colocar alguns cogumelos nesse pão?
Doneco: E não foi você quem disse que esse pão já tá entrando na fase de imitação de rochas?
Dorian: Pedras. Mas quem tem fome é você, eu não tenho nenhuma. Divirta-se com seu jantar.
Doneco: Dorian, você é um cara muito estranho.
Dorian: Ha, ha, ha. Agora você foi engraçado!

2. Acapulco


Demorou um bom tempo até que finalmente Doneco resolveu sair para comer. Ele vestia sua inseparável jaqueta de couro, mesmo fazendo um calor intolerável.
Depois de uma rápida viagem por uma ruela fracamente iluminada, Doneco entrou no bar Acapulco.
Não era um ambiente dos melhores. Uma decoração sem vida e uma iluminação moderada trabalhavam perfeitamente para criar um ambiente de uma taberna medieval.
Doneco sentou-se no balcão, ainda pensando em como ia fazer para que o dono do bar lhe vendesse fiado novamente.
- Boa noite Peixoto! – disse – Faz tempo que não te vejo, não?
- Minha nossa! Por isso que o céu está da cor do sangue. O fim do mundo se aproxima!
- Como é que é?
- Achava que nunca mais ia ver a sua cara novamente.
- Ora Peixoto, nós temos um compromisso que eu vou honrar até o dia da minha morte.
- Espero que você me pague bem antes disso. Quem sabe, agora?
- Ha, ha, ha. Claro, claro. Você é muito engraçado... Ei! Quem é esse cara? – disse Doneco apontando aleatoriamente para alguém no fundo do bar, tentando desesperadamente mudar o rumo da conversa.
- Ah! É o Mozart, nosso novo pianista. Achei que assim traria um pouco de classe pro ambiente.
- Sei... Sei... Uma jogada ousada. Sabe Peixoto, eu fiquei sabendo que você inventou um tal rodízio de coxinha. É isso mesmo?
- Sim, sim. Dez reais e você pode comer coxinha até formar um rombo no seu estomago.
- Que maravilha! – disse Doneco esfregando as mãos - Eu sempre soube que você era um gênio! Eu gostaria de me aventurar nesse paraíso!
- Tenho certeza que sim. E sabe, nada me faria mais feliz em servi-lo...
- Ótimo! – Doneco olhava para Peixoto com um estranho brilho nos olhos.
- ... Mas só depois que você pagar essa sua conta que já tem cinco páginas!
- Ah Peixoto! Que grande ingrato você é. O que são dez reais a mais na pequena fortuna que já é minha conta?
- Você tem muita cara de pau mesmo! Eu não trabalho pra sustentar vagabundo.
- E eu não estou pedindo que faça isso. Pra isso serve a conta, não? Eu to juntando um montão pra pagar tudo no fim do ano!
- Ha, ha, ha. Você tem mesmo um humor peculiar.
- Me quebra mais essa. Estou morrendo de fome.
- Claro, Claro... Vamos fazer o seguinte. Eu perdôo a sua dívida e te dou mais um rodízio de coxinha, mas aí você vai ter que me dar essa sua jaqueta.
- Mas que inferno! Isso não se faz, meu caro Peixoto. Eu não me separo dessa jaqueta por nada.
- Muito bem, então fica aí com fome.
Doneco ficou em silêncio por alguns minutos refletindo a proposta. Refez em sua mente todos os bons momentos que passou com sua jaqueta. Não eram muitos, já que não fazia nem dois dias que ele a tinha achado. Logo se decidiu pelo rodízio.
- Tudo bem, eu te dou a jaqueta. Mas você vai esquecer minha dívida, me servir esse tal de rodeio e mais duas garrafas de coca-cola.
- Fechado!
Peixoto sorriu e vestiu sua nova jaqueta por cima do avental. Com toda a felicidade do mundo se retirou para a cozinha. Lá, apanhou uma coxinha, que já estava por ali desde de manhã, e enfiou no microondas. Depois de matar o tempo lendo um artigo sobre eliminação de ratos no ambiente doméstico, borrifou com um spray um punhado de óleo sobre a iguaria.
- Aqui está! Uma coxinha frita na hora! Nem deu tempo do óleo escorrer – disse Peixoto já voltando para o balcão.
- Maravilha – disse Doneco já arrancando metade da coxinha com uma mordida – E tá quentinha!
Peixoto voltou pra cozinha assobiando uma estranha canção.
- Ei cara – disse um homem batendo nos ombros de Doneco. Era um homem estranho, com óculos fundo de garrafa e cabelo despenteado – Se eu fosse você não comia isso não.
- I corque mão? – tentou falar Doneco lutando para engolir o enorme pedaço da coxinha que estava mastigando.
- Pra começar, você sabe quem é aquele ali?
- Zei zim! – disse Doneco engolindo a coxinha ajudado por um copo de coca-cola – É o Mozart, o pianista local.
- É claro! E por que ele não está tocando nada?
- É o horário de almoço?
- Mas são dez horas da noite!
- Horário de jantar?
- E você está vendo algum piano por aqui?
- Hum... Não! Como um pianista faz sem um piano?
- É porque ele não é nenhum pianista.
- Ah certo! E o que o tal homem tem com a minha coxinha?
- Ele é um químico! – disse o homem como se fizesse a revelação do ano.
- Não foi essa a minha pergunta.
- Você não entende? O dono desse lugar contratou esse químico pra produzir um novo tipo de farinha pra massa dessas coxinhas. Quando essa massa entra em contato com a água ela dobra o seu tamanho. Assim você come umas duas coxinhas e se enche logo. Por dez reis isso é um assalto!
- Eu estou – continuou o homem depois de se certificar de que Doneco não tinha nenhuma observação a fazer – esperando o momento certo pra desmascarar essa quadrilha das coxinhas!
- Você vai me desculpar, mas isso é difícil de acreditar.
- Eu posso provar tudo! – disse o homem tomando a coxinha das mãos de Doneco e a jogando no chão. Sem fazer a menor cerimônia ele pega a garrafa de coca-cola e despeja todo o seu conteúdo em cima da coxinha.
Os dois ficam observando aquela gororoba no chão com expectativa. Mas nada acontece. Nesse exato momento Peixoto volta da cozinha.
- Mas o que será que deu errado? – disse o homem com os óculos de fundo de garrafa.
- Do que isso se trata? – disse Peixoto colocando uma outra coxinha sobre o balcão. O homem de óculos pega a garrafa de coca-cola que Peixoto tinha acabado de abrir e despeja todo o conteúdo sobre a coxinha de Doneco.
Os três permanecem calados olhando para a coxinha submersa em coca-cola. Durante alguns segundos ninguém se atreveu a dizer uma palavra.
- Espere um pouco! – disse o homem de óculos – Esse aqui não é o bar Caolho Feliz?
- Não, o Caolho Feliz é logo ali do lado, aqui é o Acapulco.
- Ah! Então me desculpem, entrei no bar errado.
O homem pegou seu chapéu que estava em cima do balcão e saiu tranqüilamente do bar.
- Mas que diabos! – disse Doneco depois de um longo período de silêncio.
- Quem era esse?
- Não faço a menor idéia. Mas tudo bem, não tem problema nenhum! Continue me trazendo mais coxinhas, por favor!
- Era exatamente sobre isso que eu queria lhe falar. Acabaram-se as coxinhas, essas duas foram as últimas. Sinto muito – disse Peixoto batendo no ombro de Doneco e se afastando para atender um outro cliente.
Doneco permaneceu parado, seu corpo tremia de raiva. Sua barriga roncava de fome. De repente, uma lágrima lhe escorreu pelo rosto enquanto do outro lado do bar alguém começava uma música animada em um piano.
Thom Ficman
Enviado por Thom Ficman em 07/11/2005
Reeditado em 05/01/2007
Código do texto: T68211
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Sobre o autor
Thom Ficman
Belém - Pará - Brasil
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