E MORREU A ESPERANÇA

Foi de manhã.

Abriram a porta. O pai foi comprar pão. Voltou revoltado. “Onde já se viu uma padaria fechada domingo de manhã?” A mãe decidiu-se por tapiocas então. A goma foi lavada várias vezes, estava roxa, motivo das perguntas do pai, que parou de ouvir a explicação quando percebeu que não entenderia nada daquilo.

O mais novo acordou contando o sonho, enquanto o café esfriava. Esqueceu-se de boa parte e se calou. Reclamou da cor das tapiocas, mas não tinha opção. Comeu-as. Os pais se vestiam para a missa. O mais velho chegara há pouco da noite de sábado e não era de atividades religiosas.

Foram os três à missa das crianças. O pai cumprimentando os vizinhos, a mãe aprumando a gola do mais novo e este chutando pedras e tampinhas. O padre era velho, voz cansada, tremia… e as crianças no jardim a matar insetos e correr umas das outras. Exceto uma, que resolvera cometer um pecado mais grave e recebeu a hóstia, mesmo sem ter cumprido o sacramento.

O mais velho já havia acordado quando o resto da família voltou. Passaram pela porta aberta e nem perceberam quem os recebia. A mãe reclamou do mais velho, “não é pra ficar andando de madrugada pelo mundo, não”. Ele desconversou perguntando pela rouxidão das tapiocas. O pai podava as plantas do quintal e o mais novo implicava com o gato, que bebia a água suja da vasilha.

Após o banho, o gato esparramou-se no chão da sala, admirando o jardim e balançando seu rabo, despreocupado, como os gatos devem ser.

Parecia um dia igual. E era. E foi. Menos para o mais novo, pois as crianças têm sempre outros olhos.

O gato levantou-se subitamente, juntou as patas dianteiras e pôs a cabeça entre elas. O mais novo percebeu a eletricidade no ar. Seguiu a linha do olhar felino, que dava na porta. Na porta, a esperança. A esperança órfã pelo inverno, assassino de seus pais. A esperança que sob a casca sobrevivera aos dias frios para nascer entre as flores e viajar de pulo em pulo, sentindo o vento em suas longas antenas, ouvindo as canções dos trovadores dedicadas às suas ninfas, como era ela agora, até chegar aquela manhã de verão, na porta daquela casa, sem sequer imaginar – sem ao menos a natureza tê-la permitido imaginar – que não chegaria ao outono de sua vida.

De uma investida, o gato abocanhou a esperança, depois largou a pobre no chão. Ela, se soubesse, rezaria e perguntaria a Deus naquele momento por que a assassinavam assim, tão sumariamente, tão sem razão. Não satisfeito e vendo a esperança remexendo-se no chão quente das 10 horas, cravou-lhe as garras. Era fato, a esperança estava morta. Finda, antes mesmo de poder enterrar seus ovos e perpetuar sua linhagem.

Agora, sem ter mais com o que se divertir, o bichano voltou ao seu posto, deitando-se no chão da sala, lambendo-se vagarosamente, sob o olhar pasmo e inquieto de uma criança que vira a esperança morrer.

Numa noitada irresponsável, o gato, fugindo de outro maior, morreu, vida após vida, quando emburacou-se nas ferragens de uma construção. Ele não sabia, coitado, que a esperança tinha a boca preta.