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Voyeur

Manhã

Pressionando as pálpebras firmemente, mergulho a face no desconhecido. Do Caos, vejo a criação. Vejo o Edem. Vejo o barro. Vejo o pecado. Vejo o sangue... Aspiro o som nasalado do vento, como que emitido por grandes tubos de um órgão solene. É o hálito de Deus que recende a chuva, a terra molhada e ao sal dos oceanos. Suspenso no universo, com um meio sorriso nos lábios, sinto as cócegas das estrelas, coço as costas de Plutão e bebo o leite da via Láctea. E da escuridão profunda me vem a imagem de uma cidadela: uma pequena colcha de retalhos com costuras tremeluzentes. Cheio de falhas e faíscas é o centro dela visto daqui. Abaixo de uma lua em forma de arco de unha cortada a gotejar argenta luz em meio a turbulentas nuvens, como rolos negros de fumo de alcatrão, circunscritos, contudo, com filigranas de prata, vi as abóbadas das árvores apresentando-se atapetadas de orvalho... Os telhados imperfeitos abrigando as gentes - vi até os olhos azuis da pequena Allegra. Lá estava ela, friorenta com os braçinhos cruzados contra sua bonequinha de pano ao lado da janelinha verde, vestindo um peignoir vinho enfeitado com miçangas cor-de-rosa; suas bochechas róseas a cintilar suas lágrimas de pavor, enquanto seus irmãos, à luz das trêmulas velas, exibiam suas serenas carinhas imergindo da brancura perfumada dos lençóis, dormindo placidamente e tendo suas mãozinhas entrecruzadas sobre seus peitos como quem aguarda pacientemente a chegada da aurora que, lentamente vinha tomando de assalto as ruas, as cidades, o continente, revelando os segredos, desnudando os crimes cometidos na calada da noite, estapeando o rosto da humanidade e revelando a previsibilidade de seus atos.

À medida que Apolônio singrava pelas vielas, tossindo e pigarreando; enquanto dirimia a chama fosca dos lampiões envoltos na azulada e aveludada névoa matutina, esta se dissipava, e assim se tornava possível ver seus pés descalços. Um deles, visivelmente bichado, tendo espessas escamas, como cascas de mogno, cobrindo seus poros e, abaixo dele, abaixo das rodas do tílburi, dos prédios públicos, da igreja da matriz, das ruas de barro, dos cascos dos cavalos que indolentes puxam seus plaustros à luz do dia, dormia a terra que, erguendo seus joelhos e ombros em seu interminável sono, sonhava ser céu.

Na ponta da Travessa Sem Saída que, naquela época, ainda dava costas para um regato mal cheiroso, Apolônio constatou que, naquele momento... Não havia nada de muito importante para se pensar, pois é bem verdade que há uma época na vida que os homens, mais do que nunca, se sentem meros autômatos, vãos pensadores, massas vazias perambulando num espaço infinito, indefinido; é nessa época que também cai sobre eles o peso da inércia, a culpa por nada de significativo fazer pela humanidade. Acender e apagar as luzes todos os dias. Pensar nas pequenas-grandes questões, não mais. Galgar a terra a cada dia se enraizando como micro pústulas (ou seriam sanguessugas?) no enrugado e milenar úbere azul.

Apolônio simplesmente seguiu seu caminho navegando no céu de nuvens refletido nas poças d’água, e então os tordos trucilaram quase que no mesmo instante que Dna. Hulda abriu uma frestinha da porta fazendo soar os guizos. Sim, era natal. Para ela, particularmente, tratava-se de uma época de tristes lembranças... A guerra, os estrondos do canhoneiro, as suas conseqüentes vitimas - que agora jazem em paz nos confortáveis papeis repletos de arabescos das paredes amareladas das salas - e todas essas coisas que essa gente velha carrega com tremenda e insistente veladura e que todas as manhãs, quando acordam assombrados e palpitantes, passam a impressão que não acabaram, que ainda estão vivas. A sensação de que brevemente estaria ela ocupando um espaço da parede de alguém não a assustava, pois sabia que ninguém a considerava a tal ponto. Nunca dirigia uma palavra a uma vizinha, se fazia indiferente ao choro dos bebês do bairro, mas, mesmo assim, não expressava altivez ou petulância. Era apenas irrelevante. Ficava estranhamente feliz ao imaginar que, diferentemente de todos, não serviria de tralha histórica até que seu nome virasse fuligem ao dobrar dos séculos, que não daria lágrimas a ninguém, bastava as que derramava todas as manhãs. Para ela, as manhãs eram destinadas aos cultos sagrados aos mortos, pois emaranhados ao marulhar monótono das águas do regato, escoavam pelos átrios de sua memória, o som do amor, o gosto da tristeza e o cheiro do pranto de outrora. E ela nem percebeu quando a matriz badalou as onze e o feijão queimou. Findou sua diligência apenas ao ouvir o sineiro da bicicleta do carteiro tinir, e afoitamente foi ter com ele a fim de saber se havia algo para ela, talvez uma posta-restante do front... Mas nada. Não havia nada. Decepcionada, no meio da rua, ergueu os braços para o céu e os suspendeu violentamente em seguida; permaneceu curvada até que, com os olhos cansados, para sua surpresa, avistou um homem na porta da casa abandonada. Estava sentado nos degraus maquilados com a pátina do tempo que já vira tantas chuvas de verão e umidades de invernos que lhe deixaram como herança os tons variegados de musgo e negro. O homem era uma visão incomum para aquela rua quase despovoada, mais incomum ainda era seu aspecto: mãos longas e manchadas pendidas sobre os magros joelhos, rosto comprido, escalavrado, tingido em cores difusas, vestido em linho bege, chapéu, cigarro de palha na boca aceso a todo vapor como a fornalha de um transatlântico. Não se movia; a luminosidade que vinha de dentro da casa hora dava-lhe uma face jovial, hora envelhecida; não se sabia se era pobre ou rico, não se sabia nem para onde tinha seu olhar voltado visto que usava óculos escuros. “Quem seria esse homem?”, pensou Dna. Hulda, envergonhada e temerosa, hesitando em acenar, atitude tal que não ornaria com seu recato. Não o fez. Já voltando lentamente seus olhos para a casa de Dna. Veridiana, que ficava à direita da casa abandonada, de relance, viu, através da janela de vidros globulosos, que em sua cozinha o calendário indicava a data de Onze de Dezembro de Mil Novecentos e Dezenove, data que não fazia a mínima diferença para ela, mas era de suma importância para Celso, filho de Dna. Veridiana que, na ocasião, ganharia um violoncelo do pai em celebração ao seu sexto aniversário!


Tarde

“É uma pena que Allegra, com seus óculos de aros de tartaruga, já não esteja mais entre nós para nos contar aquelas pitorescas estórias sobre paragens longínquas, castelos romanescos e heróis destemidos”, dizia Prof. Otto em pensamento segurando alguns livros que haviam acabado de chegar da capital, ao mesmo tempo em que sorvia o restante de um café já frio, servido em uma xícara de bordas carcomidas e com gravuras chinesas, lá no bar do Seu Hector; a xícara era de estranha graciosidade: nela era possível observar cules vestidos em azul em meio a infinitos arrozais que ondulavam ao impulso da aragem como um denso e irrequieto oceano verdolengo. Mais ao fundo, das entranhas das montanhas de cumes decepados pelos cúmulos nimbos tão baixos como se apresentavam naquela hora quiçá matinal, vinha um nobre manchu vestido em preto, pousando tal como espectro faustoso e temido, flutuando sobre as águas caudalosas; e, conforme os mares se abriam, entrevia-se um lacaio escanifrado e suado galgando com seus pés descalços a terra molhada e viçosa da estradinha que serpenteava aquela planície: carregava o nobre circunspeto em um jinriquixá. Havia uma pequena vida acontecendo ali, e ninguém se dava conta... Mas o café era caro, suas ações despencavam em Wall Street. E isso preocupava!

É verdade. Como fazia falta a graciosa Allegra com seu rostinho sardento! Sua voz, tão suave, se entrelaçava à brisa vespertina, eriçava as cortinas, perdia-se nos cachos de Virginia e depois ia ecoar lá nos fundões do mundo, ou do outro lado da rua... Tanto faz, tocando a nuca de Celsinho que teimava no violoncelo: “do, re, mi... Não, é mi bemol!” E, mesmo assim, ainda o menino de face alaranjada sorria faceiro. O que suecos faziam nesse lugar tão sem propósito? Não sei, mas Dna. Alice dizia que eles fugiam do frio.

“Pietro, menino traquinas, sempre com aqueles olhos proeminentes de um azul cobalto atentava mais para as pálidas mãos de Allegra onde pousava aquele velho volume. Tão bruto na aparência, tão suave na essência. Era assim: continente e conteúdo. A boca da triste moça parecia ter parado no tempo. Restava-me a impressão de que, a qualquer hora do dia ou da noite, lá estaria ela em sua cadeira Windsor (que o pai trouxe da Inglaterra de navio!) pronta para contar a próxima aventura ou romance. Na maioria das vezes, ela esboçava palavras que não alcançavam meu rude conhecimento de criança, mas que, por algo que sabe se lá como os homens devem chamar, me causava fascínio. Pena que se fora tão cedo. Era tudo como um sutil adágio apenas perceptível aos anjos. Tudo tão deliciosamente naïf, como toda infância o é. Talvez seja por isso que ainda gosto tanto daquela imagens encontradas nos calendários da farmácia ou daqui do bar”, dizia professor Otto para si mesmo enquanto limpava os resquícios de açúcar de confeiteiro que ficara nos cantos dos lábios e embaixo do bigodinho extremamente fino e uniforme.

As imagens da infância já iam naturalmente se apagando como se estivessem derretendo ante o sol ardente daquela tarde primaveril, um sol que se derramava todo sobre a Travessa Sem Saída. De repente, um gato dourado e peludo por ali passava, rolando envolto na poeira como fragmento desprendido do Astro-rei. Preguiçosamente esticou-se, arqueou a corcova, roçou-se nas azaléias e, com os olhos semicerrados, deitou-se na soleira da casa onde vivera Dna. Hulda, agora habitada por Dna. Maria Amália, a artista plástica; o gato tinha como plano de fundo um São José de azulejos pintado em azul com um pincel grotesco, mas que ainda sim preservava um certo olhar piedoso e egrégio que parecia derramar certo sentimento de proteção e, por que não?, candura. O bichinho adormeceu sobre seu próprio pelo macio e cálido; parecia estar inebriado no intenso (e quase insuportável) olor exalado pelas goiabeiras.

O professor pagou e seguiu caminhando pela rua com seu andar canhestro, típico desses homens que se entregaram aos livros ao invés de se entregarem à vida. Tinha os pés abarrotados de passado, as mãos trêmulas de presente e os olhos cegos de futuro, foi quando ele viu, pela primeira vez, sentado nos degraus da entrada da casa abandonada, a estranha figura do homem desconhecido. “Quem seria esse homem?”. O homem estava parado, vestia as mesmas roupas, tinha a mesma cara vista por Dna. Hulda; olhava para o infinito através de seus óculos escuros. E naquelas lentes redondas se refletiam o horizonte e tudo que por ele passava. Tal silêncio e gravidade pressupunham temor, inevitavelmente. O professor, sempre interessado em um papo com os moradores do bairro, foi, a passos temerosos, se aproximando do homem – dizem as más línguas que Otto, inclusive, tencionava candidatar-se à vereança e, por esse mesmo motivo, sempre se apresentava tão simpático e falante, chegando a beirar, por vezes, o ridículo. Porém, quando Seu Hector gritou: “Doutor, o senhor está esquecendo esse aqui”, o professor voltou-se bruscamente para o estabelecimento. – Um fusca amarelo passou em alta velocidade, levantando uma imensa nuvem de pó. Dentro dele, quatro negros com olhos ressabiados de azeviche – “O que foi, Hector?”. “O livro, doutor. Tá esquecendo!”. Otto dirigiu-se até o bar maldizendo sabe-se lá o que ao mesmo tempo em que uma cambada de gralhas se apinhava na beira do regato em tremenda algazarra, por vezes chegavam até a trocar bicadas entre si. E, ao observar as mãos ensebadas do pobre homem que marcavam a capa verde e lustrosa, não conseguiu esconder a cara de nojo. Ao pegar o grosso volume com as pontas dos dedos da mão esquerda, inevitavelmente deixou-o cair no chão de azulejos. E o livro ficou lá, estatelado, bem na página onde constava o seguinte verso:

“To see the world in grain of sand
and Heaven in a wild flower.
Just hold infinity in the palm of your hand
And Eternity in an hour.”

O recibo de entrega foi flanando lentamente sobre o solo até que uma rajada de vento o soprou aos céus, passou pela careca de Hector, titilou os dedos pequenos de Professor Otto, ameaçou pousar no chapéu de palha em formato de balde de carvão de Virginia. Mas não! Foi lentamente rendendo-se ao solo... Até beija-lo com delicadeza, indicando orgulhosamente, com uma letra quase ilegível: “encomenda entregue em Vinte e Um de Setembro de Mil Novecentos e Sessenta e Oito”.


Noite

Se tal cena fosse pintada por Dna. Maria Amália, precisamente na época em que ela ainda não havia se rendido ao já ultrapassado cubismo, os incautos certamente diriam que se tratava de um retrato de alguma viela da Úmbria, da Toscana ou até mesmo da Calábria, visto que a fumacinha com aroma de camomila que saía da janela da enferma Dna. Virginia, agora viúva de Prof. Otto, poderia ser, sim, tranqüilamente confundida com o negro-fumo do inquieto Etna. A água-forte faria correr rios de tinta para os críticos de plantão. Uma versão feminina e contemporânea de El Greco poderia ter despontado! Aquelas cores intensas, algumas até metálicas, o pincel grosso, a rusticidade do traço. Imagem mística, levemente borrada, tortuosa, porém fria, que até mesmo ao retratar a paz e o recato de um anoitecer como esse, no meio do nada, não deixaria de ser tenebrosa, dolorida, soturna. Acreditem, não haveria exagero de artista: aquela rua que, naquela noite, mais se parecia com um rio por onde escorria o luar, realmente parecia ter formas imprecisas. Não se sabia bem ao certo onde acabava o pavimento de paralelepípedos e onde começava a perna do cachorro pulguento que nadava pela calçada encoberta de neblina e fumaça. Não se sabia o que era nuvem ou fumaça de jantar, nem onde, de fato, estava a lua. Fragmentada em mil gotas de formas estelares?

Imagino como seria retratada a delicadeza dos dedos de Dna. Virginia, abrindo lentamente a cortina de renda branca. Na outra mão, o missal, claro. Pobre mulher, parecia tão assustada ao ouvir o crujar de um mocho-diabo: “uûh... uûh... uûh”. Pietro não ouviu. Deitou-se sob os alvos lençóis, apagou as luzes e, fugazmente se lembrou dos lampiões que ficavam acesos durante a noite quando era criança. Em seguida, lembrou-se do irmão, Otto, que dormia a seu lado, e que agora dormia na sala... Num retrato da parede. As lembranças logo lhe trouxeram sono. Entrecruzou as mãos sobre o peito não mais como quem espera pacientemente pela aurora, mas, sim, impacientemente pela derradeira e eterna noite.

Madrugada

Celso, agora imóvel numa cama, fechou os olhos e ouviu, após tanto tempo de angustiosa abstinência sonora, a redentora suíte em sol maior para Violoncelo. Foi crescen... Crescen... Crescendo. O som provinha não de um cello. Mas da boca de Allegra. Esplendorosa. Fulgurante. E ele berrou com todas as forças da alma no mesmo momento que se descortinaram os céus com todas suas rochosas nuvens. Pedras d’ouro. As doze portas com milhares de pedras preciosas incrustadas foram, finalmente, abertas. E aquela suíte então tomou o timbre de mil anjos com suas trombetas douradas. Alaúdes. Flautins. Tímpanos. Virginais. Violas da gamba. E harpas com cordas de tripas de cordeiros Eia!

Mas ninguém, além de Celso, ouviu.

Logo vieram os agentes funerários que, de pronto, desfizeram o sorriso estampado em seu rosto, bem como limparam o trono glorioso de urina que a excitação lhe concedera.

O vento soprou forte. Uma. Duas. Três vezes. Desta altura, a rua tinha agora um aspecto monástico. Ao invés de árvores atapetadas de orvalho: árvores de cimento prenhes de luz. Eram como São Franciscos, com seus halos, que se curvavam ao pé da rua em deferência à procissão de silêncio que por ali passava. E o homem desconhecido a encarava. Estava igualzinho, no mesmo lugar; talvez nem seja preciso dizer, mas ainda mantinha o cigarro de palha aceso na boca. Não me parecia humano. Parecia-me mais um salgueiro desgalhado postado na soleira da casa abandonada, que não tinha outra função senão impedir a entrada de gatunos ou de quem quer que seja que a tanto intentasse. Nada além disso.

Já há cerca de trezentos metros do chão, percebi que a colcha de retalhos com costuras tremeluzentes nem era mais tão uniforme como outrora. Fechei os olhos e ouvi o badalar grave da matriz acima das nuvens. Era chegado o dia. Presenteei a lua com uma nova metáfora: feito copa de boda era ela que, pouco a pouco, perdia seu significado de lumiar, pois era inundada por sangue negro; e a Terra, agora, parecia em chamas. Vi os sete cavalos de vento, um de cada cor, rumando para baixo a violento trotar. E anjos a ralhar uns com os outros se desprendiam das barbas negras do universo, lançavam-se perfurando o som, as almas e o fedor dos ministros; ah, azougues de bocas abertas e dentes de prata, sedentos de mar... Famintos de homens!

O cigarro de palha, então, apagou.
Otto M
Enviado por Otto M em 13/10/2007
Reeditado em 30/05/2010
Código do texto: T692991
Classificação de conteúdo: seguro

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