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1976 *

Assim olhava: meio de lado, um pouco atravessado, sem interesse notório, mesmo assim, direto como flecha rumo ao alvo.

Seu nome era Gabriel. Anjo no nome e malvado no ser.

Seu grande sonho: simplesmente ver o mar. Para quem sabe o seu nome salvar.

A Terra em que vivia já não lhe dava sustento existencial, nem espiritual.

Pena não saber voar - pensava - pena não saber ler: não precisaria ter asas!!!
Mesmo assim tinha coragem: combustível para poucos.

Incrível... Naquela manhã acordara mais cedo do que de costume. A chuva fina no rosto, o frio no peito nu, não o incomodava como antes. Ao longe o horizonte parecia mais seu, como nunca parecera algum dia no passado...
De repente, sua amada faz carícias em sua pele áspera. Seu nome?

- Ilusão!!!

Tocava a si mesmo e isto o magoava.

A nobreza traz consigo muitas imperfeições. Gabriel não era nobre. Tinha outros defeitos: a ignorância, o pior deles. Não por não saber ler. Mas por não querer compreender as possibilidades que a vida nos dá para compensar o que não temos.
Por ter pena de si mesmo: acalmou-se num canto. Um copo de vinho, bebida de todos, de Jesus a Judas. Decidiu: iria partir...

A coragem: isto tinha de sobra! Resolveu que iria caminhar para o mar. Ficara sabendo que rumo ao sul, em sete dias, lá molharia seus pés, provaria o sal.

No primeiro dia: entusiasmo o impulsionava. O vento no rosto lhe dava a benção da mãe que perderá no nascimento. Caminhou com os pés descalços para sujá-los. Pois... Ah! Iria lavá-los no mar.

No segundo dia: vergonha. Não sabia onde estava e sentia sede. Perdido, analfabeto, corajoso ... Descobriu que tinha outro adjetivo: era sortudo! Encontrou uma flor "Flor de Mandacaru", flor abençoada. Choveria ao anoitecer? Não sabia o significado e nem o nome daquela flor. Mas pressentia o bem naquela planta.
Choveu...
Saciou sua sede e assim dormiu um sono tranqüilo. O sono dos saciados!

Terceiro dia: esperança.

E o quarto dia: estupidez. Encontrou um sábio. Como saberia que era um "s-á-b-i-o"? Aquele velho tinha belas vestimentas e olhar confiante. Definitivamente, para Gabriel, não era um mestre humilde, a principal característica dos "sábios".
O velho sábio considerava a humildade "ouro de tolo" dos fracos.
Gabriel, acostumado a ser humilde durante toda a sua vida, sempre fora assim, adestrado como um animal submisso: inferior.
Deu às costas para o velho, antes um tapa na face enrugada pelo tempo!
Não sabia Gabriel que aquele "mestre" não dava a outra face. Três punhaladas pelas costas, eis seu ensinamento cruel. Era o punhal da razão: cravejado de arame farpado.
Adormeceu Gabriel, em sono profundo. O sono dos mortos!

Quinto dia: o mar continuava lá a esperar...
Sua alma agora caminhava por si.
Três dias faltavam ao encontro de seu desejo em vida.
Voava lentamente, observava do alto seu corpo: uma cor da morte, carne sem calor, pele sem emoção. Aquele vento levava seus desejos para sempre consigo.

Sexto dia: silêncio. Antecede ao grande dia rumo àquele destino traçado ao partir. Agora bem pouco, vinte e quatro horas vagando rumo ao mar. Nenhuma palavra. Nenhum novo pensamento. Somente lembranças de toda sua vida até aquelas três punhaladas fatais...

Sétimo dia: à beira do seu sonho em vida, o vento traz seu espírito. Não, não, não pense você! Que o vento trouxe sua alma. Gabriel tornou-se parte do vento. Ele agora era o vento do Mar do Sul.

E toda manhã ele tenta se molhar - sentir gosto de sal - no mar...

Mas agora é vento! Não há o que fazer, não há como voltar atrás.
E por isto ele venta forte, porque coragem, isto sim, Gabriel tem!


(*) O título não diz nada.
     A época/ano em que este fato aconteceu ou acontecerá?
     Pode ter sido no século XVI.
     Ou quem sabe em 2008. Quem sabe irá acontecer em 2037.
     Ou na verdade foi em 1976?
     O tempo verbal aqui não tem vez.
     Gabriel foi ou será sempre vento da lamentação!!!
     Não deixe de realizar seus desejos. Só a coragem não basta.
     Tem-se que ter ação e conhecimento:
     de si mesmo e do mundo a sua volta!
     
     E o "Mar do Sul"!!!?
     - É o lugar onde moram nossos desejos mais sinceros.
jgo
Enviado por jgo em 25/10/2007
Reeditado em 07/08/2008
Código do texto: T709494

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Sobre o autor
jgo
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil
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