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PRETTY

PRETTY

Bem que eu não queria, mas ele me escolheu, naquele dia eu não estava me sentindo bem. Não estava disposta, com uma grande vontade de largar tudo, esquecer, fazer de conta que a minha vida até ali tinha sido um sonho, melhor, um pesadelo. Desde pequena uma vida de pouca sorte, pouca sorte é bom demais, nenhuma sorte se aplica melhor ao meu caso. Um pai bruto, ignorante, a mãe infeliz, só viveu, enquanto viveu, pra botar filho no mundo, satisfazer a ganância sexual do homem.
Quantas noites passei acordada ouvindo os rangidos da cama, até descobrir porque aquilo acontecia, quando um dia levantei curiosa de madrugada e vi os dois lá, deitados, ela de pernas abertas com os joelhos dobrados, com o rosto virado para o lado e de olhos fechados e ele lá, entre as pernas dela, dando solavancos, sem as calças e as cuecas.Hoje eu compreendo que talvez fosse o único prazer que eles tinham, pensando melhor acho que ela já não tinha mais prazer, a julgar pelo desempenho que eu vi.
Depois que minha mãe amanheceu morta no fim de alguns dias tossindo muito, o que me fazia ficar acordada a noite toda ouvindo aquela agonia trazendo a mensagem da morte, que perspectiva tinha eu senão sair de casa para fugir dos olhares do meu pai para o meu corpo que tentava se esconder sob o vestido fino. E depois que eu o vi uma noite à beira da minha cama, quando eu acordei de repente, com aquele olhar que eu jamais vou esquecer, de cobiça pelo meu corpo quase todo exposto pelos meus movimentos durante o sono, se manipulando.
Acho que se não fugisse de casa logo pela manhã eu iria ser desgraçada pelo meu próprio pai. Ainda bem que eu só tenho mais dois irmãos que foram logo despachados para a casa de uma tia, irmã dele, segundo eu soube depois, interessada no paradeiro dos dois.
Mulher da vida, foi meu único recurso, é impressionante como isso é fácil, uma garota na idade que eu tinha logo arruma um lugar pra ficar, “alguém que cuide dela”. No meu caso, menina da vida ou adolescente da vida, melhor se aplica, nada parecido com aquilo que a gente vê na televisão, garota de programa, Quem dera! Tantos homens que usaram o meu corpo, uns bobões que só queriam satisfazer suas necessidades sexuais, às vezes nem por necessidade, mas para ter uma mulher diferente, sair da rotina, turismo sexual, uma aventura. Melhor que alugar um DVD de filme pornô, faz ao vivo e com sensações, consomem a mulher como se fosse mercadoria. Cada tipo asqueroso. Às vezes eu até fechava os olhos como fazia a minha mãe, enquanto a boca fedida, álcool, vida amarga, sei lá, me lambia e chupava. Os seios não, jamais permiti. Eu ficava torcendo pra acabar logo o martírio, pra que eles gozassem logo e tirassem aqueles dedos sujos e mal educados, às vezes difíceis de controlar, do meu corpo pra  ir  correndo  me   lavar   e  deixar  escoar  pelo  ralo,  junto  com minhas  lágrimas,  aqueles
Resíduos, lembranças nojentas, e ficar aguardando o próximo, na esperança que não houvesse outro. Quando vinha a menstruação, natureza abençoada, era uma festa, os cinco dias mais felizes da minha vida, era o meu consolo.
Mas eu senti que aquele era diferente dos outros no momento em que ele entrou no quarto comigo. Logo que eu fechei a porta e já estava começando a desabotoar a blusa como de costume, para acabar logo com aquilo, quando ele me perguntou se ele poderia fazer  por mim. Eu não entendi nada, mas disse que se ele quisesse poderia. Então ele fez, lentamente, cada peça ia deslizando pelo meu corpo que também ia sendo acariciado e se amontoando aos meus pés, Uma experiência incrível, nunca tinha sentindo uma sensação tão boa. Torcia para que ele demorasse mais e mais pra prolongar aquele sonho, para que não terminasse. Estava com os olhos fechados, mas daquela vez em estado de graça e ele tirou o meu corpo arrepiado e teso de dentro do monte formado pela minhas roupas no chão, a calcinha ainda veio pendurada na ponta do meu pé e ficou a meio caminho entre o resto das roupas e a porta do banheiro que foi, pra minha surpresa, para onde ele me levou. Eu não tinha percebido que ele também estava nu, nem sei como ele tirou suas roupas, acho que foi ao mesmo tempo que as minhas, eu estava de olhos fechados.
Eu não estava entendendo nada, pela primeira vez um homem estava me tratando como uma mulher, me fazendo sentir como uma mulher, ainda que bastante jovem, me dedicando toda a atenção e me banhando com carinho, me lavando da sujeira de todos os outros homens que passaram pela minha cama e me usaram e sujaram o meu corpo e a minha alma.
Eu acho que ele me queria limpa, para ele, me transformar em outra, provavelmente deveria saber o que era a vida de uma mulher como eu. Entusiasmada, também lavei o corpo dele e pude ver, enquanto o estava ensaboando, que o prazer que ele estava me dando estava sendo bem correspondido.
Quando ele me levou para a cama eu só queria ser sua mulher, me entregar. Eu sabia que pela primeira vez ia fazer amor e queria saber como era. Eu fui egoísta e me agarrei àquela chance, podia ser a única de receber amor, queria que ele me amasse, me possuísse, toda, por inteiro, o meu corpo era dele, eu era dele. Tinha a certeza que ele ia saber usá-lo para me conquistar definitivamente, me dando o prazer que nunca tive e me entreguei e me embriaguei com aquela sensação. Eu conheci o prazer do amor, e eu amei, amei, amei, amei e cada pedacinho do meu corpo, vibrou e todo o meu ser renasceu.
Quando acordamos pela manhã o sol já estava queimando os nossos corpos nus enroscados. Parece que inconscientemente eu o estava prendendo, abraçada a ele para que não fosse embora. Eu acordei assustada e olhei para aquele homem que pra mim era lindo, o meu primeiro homem, o meu único homem. Eu o beijei e nos beijamos. Ele me disse: eu vim te libertar, não tenha medo, venha comigo, você quer? Eu disse que sim. Pusemos as roupas e fomos embora e estamos juntos até hoje, sempre nos amando como daquela primeira vez quando eu nasci.
Meu nome é Pretty, é assim que ele me chama.
Mario Rezende
Enviado por Mario Rezende em 26/10/2007
Reeditado em 27/12/2009
Código do texto: T710503

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Sobre o autor
Mario Rezende
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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Mario Rezende