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O Curumim Que Queria Saber

          Era uma vez um curumim que queria saber.
          Queria saber dos animais, dos insetos, das plantas e, principalmente, dos homens.
          O curumim era filho de um cacique da tribo tamoio e vivia com seus irmãos índios na aldeia de Uruçumirim.
          De sua aldeia o curumim avistara, no primeiro dia do mês de março do ano de 1565, as embarcações que haviam entrado pela baía de Guanabara. Das embarcações saiu uma gente de pele estranha. Eram brancos como as nuvens do céu em dia de sol.
         Aqueles homens estranhos armaram tendas e construíram uma casa de palha entre os morros Cara de Cão e Pão de Açúcar. Ali, Estácio de Sá, o chefe da expedição, fundou o Arraial de São Sebastião do Rio de Janeiro, homenageando com este nome o El-Rei D. Sebastião de Portugal.
         O curumim não entendia o que acontecia em sua terra, mas queria saber. Não tinha idéia de onde viera povo tão diferente do seu, mas queria saber.
         - Carioca é invasor. Invasor carioca é. – respondeu o cacique.
         O curumim sabia que carioca, na língua de seu povo, queria dizer “casa de branco”. Assim entendeu que o branco era invasor. Mas o curumim queria ver os cariocas de perto porque continuava querendo saber.
         - Cariocas habitam Arraial do Cara de Cão. E lugar de tamoio é em Uruçumirim. – respondeu novamente o cacique.
         Proibido de se aproximar da Urca, onde os morros Cara de Cão e Pão de Açúcar protegiam a casa dos cariocas, o curumim procurou o pajé.
         O pajé presenteou o curumim com uma semente de urucum, de onde os índios tamoios retiravam o óleo para o preparo de seus alimentos e o corante para pintarem o corpo inteiro de vermelho em épocas de guerra.

         Mas a semente de urucum que o curumim ganhara não era uma semente comum. Era uma semente encantada através de pajelança e cantoria.
         - Quando curumim comer da semente encantada, vai saber além do saber. – disse o pajé.
         - E o que é saber além do saber? – perguntou o curumim.
         - É saber o futuro! – respondeu o pajé.
         O curumim então comeu a semente encantada e seus olhos se abriram para o saber além do saber. Para onde quer que fosse era acompanhado pelos espíritos da floresta. Bastava olhar e perguntar.
         Feliz porque já podia saber tudo o que queria saber, o curumim resolveu visitar a Mãe-D’água, que morava na Lagoa da Carioca.
         Para os índios tamoios a Lagoa da Carioca era sagrada. Suas águas de límpida e fresca linfa possuíam a qualidade milagrosa de dar beleza às mulheres e voz aos poetas e cantores. Era uma lagoa enfeitiçada pela Mãe-D’água, uma sereia que vivia em seu leito. Por isso os cariocas que se aproximavam da lagoa em busca de água eram rapidamente expulsos pelos tamoios.
         O curumim chegou à lagoa numa canoa, mas não encontrou a Mãe-D’água. Remou para lá e para cá. Nem sinal da bela sereia de cabelos longos ou de seu canto mágico. Só se ouvia o vento triste pairando sobre a Lagoa da Carioca.
         O curumim olhou para o fundo da lagoa e perguntou, pois desejava saber:
         - Mãe-D’água... Onde está você?  
         Como que por encanto o curumim não estava mais em sua canoa e a lagoa havia desaparecido. O pequeno índio estava no meio de um grande largo asfaltado, cercado de cariocas que iam e vinham sem dar-lhe a menor atenção. O engraçado é que havia cariocas de todas as cores e tamanhos, bem diferentes dos homens brancos que ele já havia conhecido.


         O curumim prosseguiu olhando e perguntando, pois, mais do que nunca, desejava saber.
E o vento triste que continuava pairando, desta vez sobre o pó do asfalto, tudo passou a lhe responder...
         O vento soprava e dizia que o curumim havia feito uma viagem no tempo para saber além do saber. Estavam, naquele momento, no século vinte e um. E o lugar que o curumim conhecera como Arraial de São Sebastião, transformara-se na cidade do Rio de Janeiro.
         O curumim ficou triste ao saber que a Lagoa da Carioca, onde seus irmãos tamoios se banhavam alegremente, havia sido aterrada e em seu lugar surgira o Largo da Carioca. No alto do morro que cercava a lagoa, agora existiam o Convento e a Igreja de Santo Antônio.
         A Mãe-D’água expulsa de sua morada jamais fora vista novamente por ali. Certamente ela ficara entristecida ao ver a natureza que tanto amava ser destruída pelo homem branco em busca do progresso.
         O curumim derramou uma lágrima e continuou andando por ali. Procurou os mangues e pântanos onde seu pai lhe ensinara a pescar caranguejos, mas nada encontrou além do asfalto.
         O vento continuou soprando e dizia ao curumim que as estranhas construções gigantes feitas de pedra que o indiozinho via eram prédios onde os cariocas trabalhavam e moravam. Era como se fossem as ocas que ele já conhecia. E os monstros assustadores que faziam barulho e soltavam fumaça eram carros, utilizados pelos cariocas para se locomoverem.
         - Pois curumim prefere andar a pé ou de canoa. – afirmou o indiozinho, admirado.
         A Lagoa do Desterro transformara-se no bairro de Santa Tereza e a Lagoa do Boqueirão transformara-se num grande Passeio Público, localizado na Rua do Passeio. A Lagoa da Pavuna, antes repleta de pássaros de todas as cores e espécies, também havia sido aterrada e em seu lugar fora construído o Largo do Rosário.


         O curumim pensou nos pássaros. Antes os via por toda parte e agora não conseguia avistar sequer um deles. Então desejou voar como os pássaros e fugir do vento triste.
Auxiliado pelo encanto da semente de urucum, o curumim alçou um vôo sobre as asas de um grande pássaro colorido como o arco-íris, iniciando um passeio alado pela cidade do Rio de Janeiro.
         O curumim viu a Ilha de Paranapuã, hoje Ilha do Governador. Viu também a praia de Capocaituba, conhecida agora como a praia da Urca.
         Pela primeira vez, desde que iniciara aquela fabulosa viagem ao futuro, o curumim sentiu-se feliz ao ver que os morros Cara de Cão, Pão de Açúcar e o espigão da Urca continuavam como os havia conhecido. Estranhou apenas os bondinhos que agora ligavam o morro da Urca ao Pão de Açúcar.
         No morro do Corcovado havia um grande homem de braços abertos e todo feito de pedra. O curumim achou que aquele homem deveria ser o cacique do povo carioca. O pássaro colorido piou achando engraçado o pensamento do curumim, que não queria mais saber além do saber. Agora ele queria apenas ver.
        O pantanal de Botafogo também havia sido aterrado e transformara-se numa enseada. A Enseada de Botafogo.
        O Vale das Laranjeiras deixara de ser um pântano e a Lagoa de Sacopenapã, agora conhecida como Lagoa Rodrigo de Freitas, estava menor, mais escura e com muitos peixes mortos em sua superfície. A poluição da lagoa fez com que o curumim novamente fosse tomado pela tristeza.

        O curumim estava convencido a não querer mais saber além do saber. Não queria mais chorar. Não queria mais saber que no futuro a terra dos tamoios não seria mais a mesma. Desejou voltar à praia de Sapucaitoba, onde ficava a aldeia de Uruçumirim.
        A magia da semente de urucum novamente realizou o desejo do curumim, mas a praia de Sapucaitoba não existia mais. Ela também havia sido aterrada e se transformado na atual praia do Flamengo. Até a Casa de Pedra, erguida por Martim Afonso de Souza logo após a fundação do Arraial de São Sebastião, desaparecera. Em seu lugar erguera-se a Igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro.
        O curumim chorou e suas lágrimas encharcaram a terra dos tamoios.
        Então o pajé, que o acompanhava em espírito, teve pena do curumim e lhe deu de beber um chá de ervas. O chá fez o pequeno índio expelir pela boca a semente de urucum encantada, livrando-o, enfim, do feitiço de saber além do saber. Era como se tivesse acordado de um sonho.
        De volta à aldeia de Uruçumirim e novamente ao lado de seu povo, o curumim aprendeu que o saber é maravilhoso. Porém, também aprendeu que tudo tem o seu tempo certo para acontecer e que pode ser muito perigoso querer saber o que ainda não se pode saber.


                                                FIM
Marcos Rogério
Enviado por Marcos Rogério em 28/10/2007
Código do texto: T713004

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Sobre o autor
Marcos Rogério
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 46 anos
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