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Dança

"O Observatório Gemini anunciou esta semana que conseguiu captar os movimentos de um balé galáctico a 300 milhões de anos-luz da Terra. As imagens mostram as galáxias integrantes do grupo conhecido como Quinteto de Stephan sendo dilaceradas no contato gerado pelas interações gravitacionais que ocorrem há milhões de anos. De acordo com a Agência FAPESP, arcos de gases e poeira representam as interações e movimentos das galáxias. Essa espécie de dança deforma as estruturas dos componentes do quinteto, ao mesmo tempo em que produz um espetáculo que lembra uma explosão de fogos de artifício."

***


O silêncio eterno destes espaços infinitos me apavora. Isso é Pascal, notório filósofo francês.

Tanta opressão maravilhosa! Coisas infinitamente acontecendo e eu, pobre de mim, preocupada com o balé intragaláctico daqui do meu peito. Mas vejam: não há nada que não ocorra lá em cima que não se repita aqui embaixo, é a lei das eternas correspondências e, portanto, não devo me sentir culpada.

Ele abriu a porta com aquele ar de quem não está. Mal me olhou. Ocupou-se por três minutos em examinar os bolsos, a poeira da estante, as maçãs na fruteira e o Neruda sobre a mesa. Mas Neruda, qual o quê. Passou por mim enquanto eu o seguia com olhos infantis, acompanhando cada movimento, cada vazio que se desenhava por obra e graça da ausência dele, que não estava, realmente não estava. Levantei-me da cama desfeita e passei por ele no caminho da sala, mantendo o rosto firmemente voltado para baixo, não sei o que fui procurar mas certamente era algo que não existia na sala, ou no banheiro, ou na cozinha. Sentei-me no sofá e ele passou mais uma vez por mim e tornou a sair. Acendi um cigarro e dediquei toda minha atenção a tentar formar círculos perfeitos de fumaça. Porta batendo, ele entrando, atravessando a fumaça tênue e desaparecendo no corredor feito um cometa, enquanto o silêncio adormecia na minha garganta, mão enluvada sufocando-me, quente e tensa.

Enquanto isso, no altíssimo dos céus, tanta quietude. Trezentos milhões de anos-luz.

Apaguei o cigarro, levantei-me e por um momento não soube para que lado seguir. Decidi voltar para o quarto e, ao dobrar a esquina do corredor, cruzei com ele mais uma vez. Estranhíssimo que nos empenhássemos em dançar sem a menor consciência, dança esta que nos deformava em nossas estruturas, transformando algo em outra coisa. Mesmo ele estando ausente, não podia deixar de rodeá-lo feito lua, de tentar tocá-lo em seu íntimo para acabar com aquilo que se afigurava como um fantasma de estrela a nos separar de modo categórico. Eu agora era uma lua pensante que tentava engendrar um movimento que fosse definitivo para cessar aquela dança informal que prenunciava hecatombes silenciosas dentro de mim e porque não? Dentro dele também.

Tornei a sentar-me na beirada da cama.

Ele entra no quarto. Está tão lindo, tão forte. Também, por um momento, pareceu não saber o que fazer ou para onde seguir, mesmo que eu adivinhasse que ele soubesse perfeitamente que só havia um caminho, um único passo possível na seqüência. Pousou os olhos em todos os cantos do quarto, até que não houvesse mais nenhum canto além de mim na beirada da cama, eu a última das coisas e a primeira das coisas, a causa de todas as coisas, ele bem sentia. E por saber tanto sobre ele, estiquei lentamente minha mão direita e quase o toquei. Quase.

Meu gesto ficou desmaiado no ar. O espaço. Meus dedos tremeram um pouco. Anos-luz. Ele me segurou pelo pulso e nesse instante o silêncio evadiu-se manso, porque ele me ergueu (eu me ergui), puxou-me contra ele (fui ao encontro dele, tão forte), cingiu-me com um braço (enrodilhei-me como um gato) e me fez satélite definitivo, eu tão gravitando ao redor dele, tão denso este corpo e por isso tão atraente. Sou um satélite e ele me atira à cama (atiro-me de costas), jogando-se em seguida sobre mim (eu o puxo pelos ombros) e buscando-me, as mãos, a sofreguidão, tudo é calor e choque e nenhuma palavra.

Olho pela janela entreaberta e avisto o céu azul marinho e meia dúzia de estrelinhas faiscantes, certamente mortas, com toda certeza chocaram-se durante um estranhíssimo balé, provavelmente surdo e cego e oh.

(O silêncio eterno destes espaços infinitos me apavora. Isso é Pascal, notório filósofo francês.)
Marpessa
Enviado por Marpessa em 28/10/2007
Código do texto: T713391

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Sobre a autora
Marpessa
Santo André - São Paulo - Brasil
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