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Ventos de Setembro

     Foi com os ventos de setembro que nosso pai resolveu ir embora. Não se despediu de ninguém, nem beijou nossa mãe, como costumava fazer toda manhã antes de seguir para a lavoura. Partiu sem olhar para trás, numa tarde de domingo, em que o vento vergava até os troncos das aroeiras, rosnando implacável entre as vigas do telhado. A praga. Por causa dela, as espigas não brotaram e a fome repoltreou-se em nossa mesa com seus talheres cintilantes de miséria. Destruída a plantação, nosso pai não suportou a dor extrema que esmigalhava seu peito e lhe humilhava por não conseguir trazer comida para casa. Então decidiu. E nós nunca mais tivemos notícia dele.
- Seca as lágrimas, mãe. O pai não volta.
Por muito tempo, ela acreditou que o marido retornaria, trazido pela mão do vento, como um menino que se desencontrou dos pais num parque. Agora, nossa mãe passava o dia todo sentada na velha varanda roída pelos cupins, a descortinar com seus olhos nublados de sangue a estrada infinita que se estendia da nossa porta ao resto do mundo. Quantas vezes ela não sonhou vê-lo chegando, coberto pela poeira dos caminhos, com um ramalhete de flores nos braços e um pedido de perdão nos lábios. Quantas vezes não sentiu o perfume rústico da sua pele que ficara impregnado nas roupas do armário e, ao voltar-se para trás, encontrava apenas as sombras geladas das saudades. Então, mais do que nunca, agarrava-se à medalhinha de Nossa Senhora, que o esposo lhe dera de presente no dia em que a pedira em casamento. Como poderia esquecer. Os dois caminhavam de mãos dadas pela praia deserta, numa tarde fria de julho, que o tempo soprou para os campos impenetráveis das lembranças queridas. As ondas estavam bravas e vinham ariscas para morder os pés deles, que iam deixando duas trilhas profundas na areia molhada. A certa altura, nosso pai estacou, admirando o oceano imenso, como se divisasse o próprio futuro refletido naquelas águas cor de uva. O vento ofegava nos cabelos compridos de nossa mãe, colando-lhe o vestido azul às curvas do corpo. Ele tomou-lhe as mãos delicadas, fitou-lhe os olhos floridos de rosas e perguntou:
- Casa comigo?
Nossa mãe respondeu com um sorriso que era todo consentimento. Em seguida, ele tirou do bolso de sua calça a medalhinha de Nossa Senhora e entregou para a amada, dizendo:
- Quero que guarde com você esta relíquia. Fora de minha avó, que recebera de presente de meu avô, na noite em que passaram a lua-de-mel.
Desde então, ela jamais a tirara do pescoço nem mesmo para tomar banho. Mais do que uma simples medalhinha, era o símbolo de toda a sua dedicação pelo marido. Quando ele partiu, levado pelos ventos de setembro, nossa mãe apegou-se ainda mais à santa, implorando a ela, todos os dias, a graça de um milagre. Mas o milagre não viria nunca.
- Seca as lágrimas, mãe. O pai não volta. Ele levou embora até a enxada.
Ela, porém, nada respondia. Na certa, lembrava-se da filha, que seguira atrás de seu destino no lombo de um cavalo com um moço cigano. Eles haviam chegado na vila com suas tendas e colares e anéis luzidios, que suas mulheres usavam em todos os dedos. A princípio, ninguém falava com os ciganos, pois tínhamos medo que eles pudessem levar embora alguma de nossas crianças. Desde pequeno, eu ouvia esta história pela boca dos mais velhos que, no fundo, nutriam uma inveja inconfessável daquele estilo de vida livre, sem compromissos, sem impostos, sem horários, sem os grilhões que nos aferram a um suposto contrato social, o qual somos obrigados a cumprir desde o nosso nascimento. Com o passar do tempo, eles foram ganhando a confiança da gente desconfiada de nossa aldeia. Faziam biscates aqui e ali, trocavam quinquilharias com as pessoas, mercadejavam o seu tanto. Assim fizeram por quase um ano. Quando já estavam para ganhar estrada, minha irmã caiu de amores por um deles. Era um moço bonito, sorriso selvagem, rosto moreno e másculo, ombros largos. A menina já não parava mais em casa, escrava de seu coração. Numa noite em que jantávamos os quatro, ela disse com todas as letras. Iria embora com os ciganos. Nossa mãe deixou cair a colher e seus olhos viraram duas pedras de gelo. Ninguém disse palavra. Nosso pai continuou a tomar a sopa com os olhos secos e duros que a vida lhe dera. Ao cabo de alguns minutos, ela afirmou que partiria na manhã seguinte. Em toda minha vida, jamais ouvi um silêncio tão doloroso como aqueles breves instantes. Nosso pai suportou calado a sua dor, mas era como se estivessem lhe enfiando um caco de vidro nas costas. Quando acabou de comer, levantou-se da mesa e disse sem encarar minha irmã:
- Vá, mas não volte, pois já não é mais minha filha.
Nossa mãe chorou por tempo grande, seu destino eram as lágrimas. Agora chorava pelo marido que partira com os ventos de setembro. Tudo que lhe restava era o conforto da minha companhia para amparar a sua imensa tristeza:
- Seca as lágrimas, mãe. Agora somos só nós dois.
Mas ao cabo do primeiro ano, eu já não suportava mais aquela vida. Aos poucos, uma idéia mesquinha e cruel foi se apoderando do meu cérebro, de maneira que eu não pensava mais em outra coisa. Um dia, juntei minhas coisas e lhe disse:
- Mãe, vou procurar o pai.
No fundo, era uma desculpa para eu também ir embora, sem arrastar comigo a culpa por abandoná-la sozinha naquele inferno. Mas o pretexto padecia de tanta fragilidade, que enganava apenas a mim mesmo. Ela sabia que a verdade era outra. Quando nos vimos pela vez derradeira, era como se sua alma já não estivesse mais dentro do próprio corpo. Seus olhos estavam gastos de tanto chorar, de maneira que nos despedimos secos de lágrimas. Nossa mãe deu-me sua medalhinha de Nossa Senhora e sussurrou com seu pedacinho de voz, que agora parecia ecoar dos domínios da morte:
- Vá...
E eu fui. Fui embora, deixando-a para sempre com os seus ventos, com as suas lágrimas, com a sua angústia, com a sua gigantesca, infinita solidão.
José Antonio Martino
Enviado por José Antonio Martino em 28/10/2007
Código do texto: T713576
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Sobre o autor
José Antonio Martino
Atibaia - São Paulo - Brasil, 49 anos
46 textos (3000 leituras)
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José Antonio Martino