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Donos de Parte-dum-Cão ou The Share-dog-ownership

Adão e Eva vivam no paraíso de um loft em Central Park Avenue. Ele era um "self-made-man", e ela uma "safe-made-of-costela-de-Adão". Como rezam as histórias, ambos eram felizes e comiam perdizes. Neste paraíso, só faltava os risos de uma criança. Mas, como Deus não quis, Adão e Eva também não quiseram, e viviam um para o outro. Um dia, Eva suspirava mais que o habitual, e Adão, com medo de perguntar a razão de tanto suspiro, enterrou o seu nariz aquilino dentro do Wall Street Journal.

- Adão, sabes do que sinto tanta, mas tanta falta?

Adão dobrou o jornal em quatro, pousou-o ao lado da maçã, e fingiu-se interessado nos suspiros de Eva.

- Do quê, darlingue?

- De uma companhia. Não que a tua não me agrade, não! mas gostava tanto de ter uma coisinha fofa ao nosso lado, a quem pudéssemos dar carinho e atenção, passea-la em Central Park, dar-lhe banhinho...

- Mas, darlingue, sabes que não podemos ter filhos, e se os tivéssemos lá se acabava o nosso paraíso.

- Não estava a falar em filhos, meu love, mas de um cãozinho. Não seria a perfeição?

- Um quê?!

- Um cãozinho, o melhor amigo do homem.

Mas Adão quando construiu o paraíso não tinha pensado em cães. Que história era aquela? Será que Eva estava a falar a sério e queria mudar o curso da história? Eles viviam no paraíso e não na Arca de Noé.

- Isso está fora de questão! Um cão? Perdeste o juízo, Eva.

- Mas se até a amiga de Carry Bradshaw, a Charlotte, tem um! Eu também quero um, ora bolas, diz Eva enquanto bate com o punho na mesa do pequeno-almoço.

Adão começou a perder a calma, a maçã começou num sobe-e-desce na garganta que era um Deus nos acuda, e as do rosto avermelharam de raiva. Mas que raios de modos eram aqueles? Ele não estava habituado a que Eva levantasse a voz, e menos que batesse com o punho na mesa. A isso só ele tinha direito.

-    Não, Eva. Nem penses nisso.

-    Mas é só um cão. Please, meu love!

-    Não insistas! Já te disse que não! Chiça, que a mulher é chata!

-    Mas ó Adão, com um cãozinho seriamos uma perfect family. Porque é que tens que ser tão radical, pergunta Eva já num tom mais ameno.

-     Porque não quero sair à meia-noite para passear o lulu da Madame por Central Park, nem suportar pêlos de animal nos meus tapetes persas, nem maus cheiros, ou que ele me roa as pantufas e o New York Times. E quando quisermos ir de férias? E os gastos do veterinário? Tu estás é doida. Trocar a nossa vida tão ordenadamente pacata, por uma vida de doidos com um rafeiro atrás? Deixa-te disso. E diz-me, quem é que iria passear com ele, se trabalhamos o dia inteiro ?

-         Mas estás sempre a queixar-te que os nossos fins-de-semana são sempre iguais...

-         Mas nunca te disse que queria ter vida de cão, pois não?

A conversa acabou, ali, na vida de cão. Eva não se deixou abater, e prometeu a si mesma que arranjaria uma maneira de o convencer.

Um dia, graças a Deus, Eva chegou com a solução debaixo do braço: o New York Times. Sentou-se à mesa, pegou numa maçã e mordiscou-a. Enquanto isso Adão bebia o seu café, descansadamente. Olhou para ele com olhinhos meigos e outras graças de mulher para manterem os Adães vivos no Paraíso da Terra, e disse:

-         Tenho a solução para os nossos fins-de-semana…

-         O que é que têm os nossos fins-de-semana, darlingue?

-         Lembras-te que me disseste que são sempre iguais?

-         Sim, e... ? Organizaste uma escapadela?! É isso! Que malandra!

-         Não é nada disso! Já podemos ter o nosso cãozinho.

-         Pronto! Já me deste cabo do pequeno-almoço. Outra vez a mesma lengalenga, mulher?

-         Espera, tem calma. Dizias que não querias passear à meia-noite, nem ter gastos de veterinário, e muito menos teres as férias empecilhadas por causa de um cão, não foi?

-         Hum... e qual é a tua solução milagrosa? Um cão de peluche? E desatou a rir.

-         Não sejas irónico, Adão. Nem parece teu. Não, a solução chama-se FlexPetz.

-         O quê? Não me digas que é esse nome que queres dar ao bicho?

-         Caramba, porque não podemos falar a sério? FlexPetz é uma agência que aluga cães, dependendo das nossas disponibilidades. Eles são flexíveis, por isso Flex. Não os cães, claro. Bem, os cães também, penso. Ou seja, todos somos flexíveis.

-         Explica-me lá isso tintim pour tintim.

-         Com esta agência já podemos ter o melhor amigo do homem sem os empecilhos diários que tu te queixavas. Olha, imagina que o próximo fim-de-semana queremos ir passear por Central Park. Reservamos um cão e é a agência que o traz a casa, com a cestinha dele, a tigelinha para comer e beber, a trela, e até nos trazem a comida! Podemos até escolher o tamanho, a raça e a cor! E até mesmo escolher o dia que melhor nos convém.


Eva estendeu o jornal a Adão e colocou o dedinho indicador em cima da fotografia de Nixon.

-         Não é um amor, o Nixon?

-         Não foi esse que esteve implicado no escândalo Watergate?

-         Estou-te a falar de Nixon, que é da raça pinscher, não do presidente que era um bocadinho maior. Não desconverses, por favor.

-         Tá bem, continua lá. Mas sabes que detesto cães de algibeira.

-         Então o que é que tu achas de Jackpot? E colocou o dedinho indicador em cima da fotografia de Jackpot.

-         Posso fazer outra gracinha? Esses teus olhos dizem-me que não...

-         Este é um labrador Rietriever, talvez seja mais indicado para passear pelo parque, ou para dissuadir algum ladrão, e pôr em evidência o teu lado macho, claro.

-         Muito bem. Já acabaste? Agora diz-me, e quanto é que isso vai-me custar?

-         Não é assim tão caro, meu love. Diz aqui que a cota anual é de $99.95, depois a mensalidade é de $49.95 e temos que ter uma hora de um curso de formação para Donos de Parte-dum-Cão que custa $150.00. Depois, a cada aluguel eles facturam-nos entre $24.95 e $39.95 por dia. Penso que o fim-de-semana seja mais caro. O único é que temos que lhes garantir que alugamos um cãozinho ao menos duas vezes por mês.

-         E se alugássemos o vídeo 101 Dálmatas, não seria mais barato?

-         Se tu não gostares do Jackpot, podemos alugar um outro. Vá lá, amor, eu deixo-te escolher.

-         À noite logo se vê...

-         E isso quer dizer o quê?

-         Que nem-sim-nem-sopas! Passas-me o suplemento da Bolsa?

Enquanto lia as catástofres da Bolsa e a crise do dolar em relação ao euro, Adão deu um salto e disse:

-    Eva, deste-me uma grande ideia. E se criássemos o FlexKidz? Iamos ao Tchad de férias e trazíamos de lá umas quantas crianças. O que é que tu achas? Olha, em vez de FlexKidz, podia ser A Arca de Zoé. Que tal? Inventamos um novo conceito.

-    Acho que de momento um cachorrinho é só o que nos falta. Já pensaste nas noites de insónias? E nos biberões? E no orçamento para as fraldas? E as idas ao pediatra? E quem é que ira passear com a criança se trabalhamos o dia inteiro? Não! Lá se acabava o nosso paraíso.

Cristina Pires
Enviado por Cristina Pires em 30/10/2007
Reeditado em 30/10/2007
Código do texto: T716435

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Sobre a autora
Cristina Pires
França, 51 anos
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Cristina Pires