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APENAS BETH

APENAS BETH


Atenção senhores passageiros! Ônibus de prefixo 13101965 com destino a Cabo frio com saída prevista às vinte horas está estacionado na plataforma D1.
Cheguei ao local de embarque, estavam entrando no ônibus os dois últimos passageiros. Depois de conferir o meu bilhete, o motorista tomou o seu lugar e fechou a porta. Logo em seguida o veículo começou a se movimentar.
O acento junto à janela, fazendo par com que o correspondia ao número anotado na minha passagem já estava ocupado. Melhor assim, poderia me acomodar sem ter que levantar no meio da viagem para deixar passar um passageiro. Quando fui depositar minha mochila no bagageiro, justamente sobre o banco no qual ia me sentar, aproveitei para examinar a minha parceira de banco (isso mesmo era uma garota). Com base na perspectiva do olhar em diagonal, num ângulo de aproximadamente quarenta e cinco, graus, apesar da pouca luminosidade no salão do ônibus, a parte relativa ao aspecto fisiológico frontal com o esqueleto em L, na visão de quem olha a partir do lado direito, eu aprovei sem fazer restrições, muito pelo contrário, antevi uma viagem bastante agradável e escorreguei para o meu acento. Ainda bem, porque não estava com mínima disposição de viajar duas horas sentado ao lado de homem, melhor ainda, não era gorda nem velha. Uma gatinha, para alegria dos meus neurônios, que não precisariam ficar na defensiva, dava pra jogar solto e tentar o ataque pra chegar ao gol, se fosse o caso. A mensagem foi bem recebida pela população escrotal, que ficou excitada pela expectativa de cumprir o seu dever.
 Fazendo um aparte, essa disputa que envolve os spts para chegar ao óvulo, significa uma coisa muito importante na nossa vida, que quase ninguém percebe. A fecundação é a primeira disputa que o homem ganha, acho que é por isso que está sempre tentando ser o primeiro, o melhor, etc.
Nada pior do que sentar ao lado de criança mal-educada que fica chutando a nossa perna, homem roncando com bafo de bebida ou de cigarro. Tem gente muito gorda que quando senta no banco do ônibus fica parecendo uma empada transbordando da forminha.
Quando eu sentei, percebi que seria uma viagem bem agradável, por conta da olhada que ela me deu. Sabe aquele olhar que você se sente analisado, acompanhado de um sorrisinho que indica aprovação e autorização para atracar? Pois é! Foi um desses que ela me deu. Não deu outra, os braços se encontraram no encosto do braço e não demorou os meus dedos estavam roçando na perninha dela. Pra dizer a verdade, não duvido que fosse a perna dela roçando nos meus dedos. O fato é que para a mão inteira escorregar não demorou muito, o que provocou uma virada do rosto dela pro meu lado. Foi quando eu pude perceber que ela tem os olhos claros e a boca mais sensual que a natureza pode ter dado pra alguém, melhor ainda, foi achar naquele rostinho lindo um sorrisinho maroto. Quando dei por mim já estava engalfinhado com a gata sem ao menos saber o nome dela, tudo aconteceu naturalmente, nós nos entregamos como se fossemos namorados e acho que foi tudo por conta desse tal de ferormônio.
Depois de uns quinze minutos nos quais estivemos nos conhecendo pelo contato labial, contato bucal, melhor dizendo. Hum! Que boquinha deliciosa! Sabe? Assim, fresquinha, um sabor indefinido, próprio dela, gostinho de Beth. É isso mesmo, Beth! Meu nome é Beth! E o seu? Foi assim que ela se apresentou depois do beijo com aqueles olhos azuis, lindos, grudados nos meus castanhos, abobalhados.
Agora me veio à mente aquela noite, não bastassem as bocas gulosas, aproveitando o escurinho do ônibus e a sonolência dos outros passageiros, fizemos análise anatômica recíproca mediante o uso das mãos (carícias pelo corpo) que resultou, evidentemente em botões abertos, calcinha e cueca molhados e uma vontade louca de continuar. Distraídos, absorvidos, atraídos, consumidos, empenhados em não terminar o idílio, naquela altura bem-querido, nem percebemos que já tinha passado de Araruama, ou melhor, eu nem percebi, ela nem sabia qual era o meu destino, já estávamos chegando a São Pedro D’ Aldeia. Teria que inventar uma desculpa pra minha namorada, ainda bem que ela não sabia a hora em que eu ia chegar. Deixa pra lá, depois você volta. Agora você tem que ir até Cabo Frio comigo pra terminar o que começamos. Ou você pretende me deixar na mão? Foi o argumento que ela utilizou, naquela altura incontestável. Apesar de que deixá-la naquela hora era a última coisa que eu pretendia naquele momento.
E foi lá, na Praia do Forte, no alto da duna que eu acabei de conhecer a Beth, ou melhor, o corpo dela, na verdade é só o que sei a respeito dela: o corpo e a voz. Nunca mais a vi.
Às vezes até penso que seria bom encontrá-la em outra viagem, só pra fazer uma manutenção.



Mario Rezende
Enviado por Mario Rezende em 01/11/2007
Reeditado em 13/02/2008
Código do texto: T718708

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Sobre o autor
Mario Rezende
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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