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Coitada da Lena

No apartamento da Virna

A porta bateu com força, ela encolheu os ombros e fechando os olhos tapou os ouvidos. Depois de dois minutos, sentada na beira da cama na posição de quem não quer ver nem ouvir nada, tirou as mãos dos ouvidos, relaxou os ombros e abrindo os olhos pensou: “acabou”. Foi para a sala e trancou a porta de entrada, passou a corrente e encostando a testa deu dois socos na madeira e chorou um pouco, um pouco demais para seu gosto, não é mulher de chorar sobre o leite derramado, não é mulher de chorar por homem nenhum, ah... imagina!...ainda mais pelo Edu. Foi para o banheiro tomar um banho para em seguida cair na cama e dormir sozinha depois de dez anos dormindo com o Edu. Já era tarde e não queria perder a hora no dia seguinte, nada de olheiras tampouco olhos inchados de mulher que passou a noite acordada, fritando na cama, chorando por um amor acabado, ah... imagina!... a Virna sofrendo por amor? Termina o banho e fechando a torneira faz o movimento automático com a mão para pegar a toalha e a mão pega o vazio, e se pergunta: “cadê a toalha?”. Como de costume ela chama por ele: ”Edu”... e logo em seguida se lembra que ele foi embora batendo a porta, e o som de sua voz fica no ar... Eduuuu... e percorre todo o apartamento num eco infinito, a procura do seu destino, batendo nas paredes, ricocheteando no piso e no teto, se chocando nos vidros das janelas, nas portas dos armários, em baixo da cama, em cima da cama, a procura dos ouvidos do Edu. Mas agora ele está longe e não pode ouvi-la, não pode mais buscar uma toalha para ela. Antes de se deitar pensa em ligar para Lena, mas desiste pensando que vai acordá-la, sempre dorme cedo a Lena, sente pena dela, sempre sozinha, sua melhor amiga, sempre pronta para ouvi-la, sempre com uma palavra amiga, acolhedora, boa ouvinte... um tanto ingênua a Lena, um pouco infantil, como se fosse uma irmã mais nova, pensando nisso resolve não contar para ela o acontecido. A Lena não iria entender, não casou, sequer tem um namorado. Resolveu então deitar e dormir, e com um bocejo pensou: “coitada da Lena”.

No apartamento da Lena

A campainha toca. Pelo olho mágico ela vê a figura do Edu passando as mãos pelos cabelos e olhando para os lados aflito. Ela dá um suspiro e abre a porta, ele vai para a sala e coloca a mala no chão. Ela olha para a mala e pergunta o que aconteceu, ele começa a chorar e diz entre soluços: “acabou”. Ela olha para ele e não sabe o que faz, se o manda de volta para o lugar de onde veio, se o consola, ou se beija a sua boca, como na verdade é o que sente vontade de fazer, beijar a boca do Edu, uma boca que nunca foi sua, sempre foi da Virna, a sua melhor amiga. Desde o tempo da faculdade que o Edu sempre foi da Virna, e agora ele está no seu apartamento chorando porque não tem mais os beijos da Virna. Ele pede a ela que deixe que passe a noite ali, só essa noite. Lena concorda e o acomoda no sofá, aonde ele se deita e se cala sem olhar para ela que vai para o quarto e fecha a porta. Antes de deitar pensa em ligar para Virna e contar que o Edu está com ela, ou melhor, no seu apartamento, deitado no sofá da sala, certamente pensando na Virna, mas não liga, não deita, não dorme, anda de um lado pro outro imaginando o que poderia ter acontecido entre eles, sempre foram tão unidos, tão companheiros, tão apaixonados. Fica pensando na Virna que deve estar sozinha pensando no Edu. Resolveu então deitar e tentar dormir, e com um bocejo pensou: “coitada da Virna”.

No sofá do Edu

A janela está aberta e corre um ventinho da madrugada que não ameniza o calor que ele sente, deitado naquele sofá de couro branco, com uma manta que pinica sua pele, suas pernas, seus braços, suas costas suadas. Ele vai até a cozinha beber água, olha pelo corredor para a porta do quarto da Lena, está fechada e com certeza ela dorme, não vê problema nenhum em andar pela sala só de cueca, a Lena não vai acordar, não é mulher de sair do quarto, no meio da madrugada, sabendo que o marido, ou ex-marido, da melhor amiga dorme na sala, ah... imagina!... a Lena não faria isso nunca! Vai para a janela e olha a rua deserta, pensa na Virna, sua namorada de sempre, sua amiga, companheira, sua mulher da vida toda, mas agora acabou. Recostado no sofá, ele pensa numa maneira de sair dessa e voltar para a Virna, voltar a viver com a mulher que sempre amou e lembra que a Lena nunca amou ninguém, nunca casou, sequer tem um namorado e com um bocejo pensou: ”coitada da Lena”. Mas antes que caísse no sono, sente as mãos macias no pescoço, descendo suavemente pelo seu tórax, e num repente ele a toma nos braços, ela joga a perna direita sobre ele, montando em seu ventre e com as mãos no seu rosto começa a beijá-lo com quem não beija há dez anos.

Enquanto isso Virna frita na cama e bate no travesseiro gritando: “Volta Edu...volta”...
Cristina Nunes
Enviado por Cristina Nunes em 15/11/2005
Código do texto: T71955

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Sobre a autora
Cristina Nunes
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 59 anos
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