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O Corajoso Dylan.


Ah... como tive medo. Tive tanto medo. Mas foi justamente o medo, que me levou a matar aquele homem. Era uma madrugada quieta, os vizinhos haviam, como acontece em todo final de ano, viajado para passar suas férias com seus familiares distantes, ou mesmo conhecer alguma praia, enfim... Eu fiquei sozinho, em minha casa, com meus pensamentos, e meu cachorro, Dylan. Ouvia Bob Dylan em meu mp3 – costume que tenho dês de que morava com meus pais, e precisava dormir ouvindo musica alta após uma bebedeira. -. Estava bêbado, confesso. Apenas observava a tv, passava Charles Bronson na tela, com seu pequeno revolver, descontando sua frustração em “punks hollywoodianos”, que mais pareciam uma corja de estupradores alucinados. Confesso que achava tudo aquilo interessante, ainda mais com Bob como trilha sonora enquanto Bronson enfiava tiros em seus inimigos declarados. “Homem frio pra caralho esse personagem...” pensava. Ouvi um som estranho vindo da rua, mais parecia meu portão. Dylan, meu vira-lata,  ergueu a cabeça, e sinceramente, confiava em meu Dylan. O coração acelerou, com medo do que seria, até poderia dizer que minha bebedeira havia acabado, mas quando resolvi levantar, percebi que o mundo girava, e logo, que o álcool corria feliz por minhas veias. Cambaleei um pouco. Foi quando ouvi passos de alguém correndo e um sussurrou inteligível. Dylan correu para a porta latindo como todo bom mestiço, e eu, ao contrario dele, corri para a cozinha. “Que seja um amigo bêbado” falava a mim mesmo como um mantra para sentir-me calmo. Ilusão. Nada ocorreu, os latidos ded Dylan apenas me desesperava. Peguei uma faca, a maior e mais aguda que encontrei. Me lembro de tremer. Respirei fundo, segurei com força, enquanto pensava que talvez, dando-lhe tudo o que queria, talvez fosse poupado, mas essa idéia me parecia mais absurda e surreal do que a de enfrentar um ladrão e sair vivo. Preferi ficar com a faca. Ouvi pesadas contra a porta, ela balançava, balançava, mas resistia forte e firme, no entanto, suponho que por tanto desespero quanto eu, o bandido atirou contra ela, o que assustou Dylan, e o fez correr para o banheiro – ele sempre temeu trovões, imagine tiros. –. E ainda com a faca em mãos, temi, Ah! E como temia tudo aquilo, até mesmo gritei e pensei em chorar, enquanto meus olhos desesperadamente procuravam por um esconderijo. Foi quando vi Bronson, com seu pequeno resolver escuro, matando a todos. A porta se abriu. Dylan correu do banheiro na direção do bandido, que sem pensar duas vezes o alvejou. Ainda lembro de seu ultimo grito, tão triste. Havia fechado meus olhos naquele instante. Mas não havia desistido, pois, era ele, Dylan, meu pequeno e estranho cão que havia dado a vida por mim, para que me mantivesse vivo. E lhe garanto, antes, pouco daria valor a vida de meu cachorro se não fosse a causa de sua morte, que não foi um tiro, mas sim a fidelidade a minha pessoa. “Cão filha da puta!” disse o desgraçado, e em seguida, ele disse  algo que talvez, tenha feito de Dylan um herói. Resmungou que suas balas haviam acabado. Como algo aliviou em meu peito, suspirei como uma moça diante daquilo. Ele havia me notado, sabia de minha existência. Estávamos um diante do outro instante depois, eu gritei, confesso. Ele pulou para cima de mim. Foi quando me lembrei de meu vira-latas Dylan. Ele já havia me golpeado nesse instante, mas não havia sido suficiente para me derrubar, estranhamente senti ódio, talvez fosse meu lado selvagem. Aquele lado que carregamos dentro de nós ate hoje, que herdamos de nossos compadres primatas. Cravei a aguda faca de cozinha mais de sete vezes naquele desgraçado, podia sentir seu sangue quente  jorrar sobre minhas mãos tremulas. Quanto medo senti após vê-lo morto.

               Mas meu grande erro não foi mata-lo, sei disso. O erro foi em chamar a policia. Hoje estou preso, condenado a dez anos numa desgraça de prisão, que a cada dia desses dez anos, arranca um pequeno pedaço de minha alma, e tudo por matar o viciado filho de juiz. No entanto, Dylan foi vingado, e ainda que digam que minha vida acabara por um vira-lata, sei que no fundo, eu salvei um raro e fiel amigo, Meu vira-lata Dylan. O que me levou a cadeia não foi Dylan, mas o maldito viciado ser filho de Juiz.



Zé Rizzotto
Enviado por Zé Rizzotto em 04/11/2007
Código do texto: T722585
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Sobre o autor
Zé Rizzotto
Cuiabá - Mato Grosso - Brasil, 30 anos
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Zé Rizzotto