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Como pinturas destorcidas no fundo do aquário

Atenuado, desatento e perplexo, fixava meu olho direito, o que enxergava melhor, no ponto claro e quente no meio do céu, intrigava-me com a graça da brisa dobrando minhas pálpebras, forçando a visão contra o vento com o rosto largado de fora da janela, brindava a esperança de sempre ver o que queria, talvez nem sempre o que buscava, mas via sempre o que me comovia, palpava a chance de me surpreender a cada novo galope do burro afasto, olhando só para tão belo e gratuito céu fechava meus olhos e continuava a ver o que via antes de olhos abertos, graças ao ponto quente e claro no meio do céu, que coincidentemente eu conheço como sol, o reflexo borrado de um pingente de gema, uma mancha de cadeados de igreja, ursos de pelúcia à farturas e manchas que eram apenas manchas, sem distinção ou talvez falta de imaginação da minha parte.
Anteontem, não deu, sequer, um alecrim, nem mesmo um trevo de quatro, deu somente uma raia, gigantesca e soberana, talhava o céu como uma nata no leite, impedia-me até de sonhar de tão nefasta e nostálgica que era, avermelhada e portadora de maus presságios, vinha acompanhada de um batalhão de raios tortuosos que se espalhavam pelo terno solo bucólico, feria-me os olhos pensar que seria assim o anteontem todo.
Por sorte, o ontem foi bem mais gracioso, me deu de presente uma catastrófica coleção de nuvens intermitentes, que despertava cada qual um sentimento mais estranho, temia a hora em que uma delas me mataria, pois eram tão belas e perfeitas que só mesmo a mente humana seria capaz de distinguir a real forma de tal beleza, construía naquele momento meu aquário suspenso, e imergia nele as esculturas mentais que aquelas audaciosas nuvens me propiciavam, mergulhava meu tempo em meio a essa paixão proibida, mas como sempre, o passar das horas se despedia das minhas amigas e elas iam embora, sobrando apenas a esperança de outro dia...
Hoje, no entanto, ainda não olhei para o céu, acho melhor esperar ele olhar para mim, pois já dei a este céu tanta atenção que tenho medo que ele pense que estou aos seus pés, pobre dele se não olhar, perderá não apenas um admirador, mas também alguém que despeja obras primas nos seus lençóis aprumados.
Vifrett
Enviado por Vifrett em 05/11/2007
Código do texto: T723918
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Sobre o autor
Vifrett
Formiga - Minas Gerais - Brasil, 29 anos
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