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No Calor da Brasa

Apesar de todos os esforços que foram gastos pra fazer Leopoldo sorrir, de nada adiantou, o quase defunto continuou trancafiado dentro do seu coração de marfim, pensando em coisas que só a mente deturpada de Leopoldo era capaz de imaginar, coisas das quais ele praticava a todo instante...
“O que há com essa gente, será que não percebem o quanto eu sou imerecido de agrado? Porque tentam ser o que não querem? Já não basta o sofrimento de viverem perto de mim.”
E continuava a martelar planos inexecutáveis contra todos os que o rodeavam...
“Tantos “ois”  e “olas” que me perde a conta tentar juntar os respectivos donos,  pra quê tanto desperdício de falsidade? Pra quê?”
A maldade exorbitava do rosto de Leô, apelido o qual ele detestava, assistia cada lance de alegria alheia como uma batalha de esgrima, com os seus olhos, vagos, percorria cada canto do cenário...
“Qual a real necessidade desses meus olhos se nada do que eu quero ver passa a minha frente? Atormenta-me pensar no futuro próximo, pois já faz parte dele a certeza de que isso nunca irá mudar, no entanto de hoje não passa, chega de futuro, já vive demais”
A frieza com que Leopoldo reagia aos comprimentos e elogios chegavam a intrigar a todos, que temiam o fato de que a qualquer momento um incêndio de lamentos se iniciaria...
“Sentem-se seus idiotas, vocês são bons demais para ficarem de pé, quero ver o tamanho da sua coragem, já que suas estaturas me superam e muito”
Subitamente Leopoldo abre um sorriso cínico, e impressiona a todas com suas palavras sinceras:
__Porque me olham estranho? Como esperam que eu reaja a tal fato tão catastrófico? Isso pra mim não passa de um velório, como puderam, trazer-me diante de mim tantos adultos e idosos e nenhuma criança com quem possa partilhar a alegria de completar dez anos? Só espero que quando minha idade dobrar não me tragam múmias para festejar comigo.
Falando isso Leopoldo chorou e abriu o único presente que havia recebido, e se surpreendeu ao ver que no pequeno pacote havia uma carta de uma criança...
“Vamos, leia! Conte-nos o que diz”
Leopoldo, tremulo, inicia a leitura da carta escrita com garrancho e descuido:
__”Em algum lugar e em algum dia.”—Dizia o cabeçalho—“Hoje eu saí para ver o céu, lembrei que era dia de festejar, era meu dia de festejar, quero tudo perfeito, quero tudo como eu sonhei, não me importo se chover, prefiro me molhar aqui do que acordar mais tarde e perder preciosos minutos desse meu dia, o que há de errado conosco? Não saio da sua mente?! Amigo.”
Leopoldo nada entendera do que havia lido, mas ao ler o nome que se encontrava no rodapé da carta chorou mais uma vez...
“Assinado aquele que nunca viveu mas que aprendeu a fingir”
Era justamente dele a carta, de Leopoldo, o único que sabia a verdade, o único que sabia que “Leopoldo” era imaginário...
Vifrett
Enviado por Vifrett em 06/11/2007
Código do texto: T725476
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Sobre o autor
Vifrett
Formiga - Minas Gerais - Brasil, 29 anos
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