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Casa dos espelhos

Não me espantei quando me vi estendida sobre um colchão branco, no chão de uma sala que não conhecia, ao lado de alguém que nunca vira antes. Cartas e vivas, ali estávamos; era um estar-sendo solto e franco, ânsia de vida, a falta de arestas do círculo. Estendida sobre o colchão, abri o livro e mostrei a ele alguma passagem significativa, da qual agora não me recordo, mas o que realmente importa é que estávamos deitados lado a lado, eu de barriga para baixo, meus pés balançando enquanto Lou Reed cantava.

Eu havia tirado as botas e pairava sobre nós um calor confortável como uma luz, um instante de poeira fina que assentava em absoluto silêncio sobre os móveis, naquela hora vespertina acolhedora e cheia de certezas. Não havia espaços vazios. Era bom estar ali, traçando um caminho de artista que, com sua mão segura, segue o que lhe dita a inspiração. Eu a musa, ele o observador, o quadro nascendo manso, sem outras possibilidades: antes, era um momento impossível, destes que germinam fechados. Nós, criaturas pictográficas, não pensávamos em fuga porque não havia essa alternativa.

(Havia também o espelho, ou aquilo a que chamamos em silêncio de espelho. E quando digo que chamamos, não quer dizer que nomeamos algo como “espelho”; chamamos porque sabíamos, acima de tudo, que era necessário haver um espelho para que a realidade fosse explicada. O espelho, então, constituía parte integrante desse todo que desenhávamos com cuidado e ao mesmo tempo descuidadamente, como seguindo um roteiro interior que conhecíamos, estranho isso, de muito e muito tempo, sabendo ser improvável e paranormal que soubéssemos mas ainda assim. Poderia também ser cidade, chave, mariposa ou caleidoscópio, e tudo estaria perfeitamente explicado da mesma forma. Mas era espelho.)

Estranha sincronia aquela que me fez apoiar-me sobre o braço esquerdo enquanto era cingida pelo braço esquerdo dele. Estranha porque pela primeira vez senti que não havia contra-razões, que tudo era razão e plausível, até mesmo aquele braço longo cingindo-me pela cintura com uma naturalidade que poderia ser considerada ousadia, não fosse a ausência de contra-razões. Como não havia espaços vazios, percebi subitamente que o nosso estar ali era um conjunto de nãos enviesados, de ausências e faltas que sob outras circunstâncias, quem sabe, produziriam um mal-estar nítido e fatal. Em cada negativa, no entanto, ocultava-se uma dezena de afirmações, como a sombra de uma árvore que esconde uma trilha de formigas.

Nesta altura eu havia descoberto os olhos dele, e a única coisa a fazer quando se está diante de uns olhos que são o exato oposto dos seus é olhá-los e fixá-los, espantar-se com mais aquele paralelismo espelhado misterioso que não vem em caixas ou latas ou embrulhos de supermercado. Aquela construção inversamente proporcional, tão correta em quantidade, nas doses perfeitas dos matizes, aquilo assustador e no entanto possível porque estava ali, firme, incontestável. Aquilo que por existir quase altera a configuração dos meus olhos, que quiseram subitamente avermelhar-se e acabariam transformando-se em algo diferente do que viam. Os tons castanhos enfeitados de verde, os tons verdes enfeitados de castanho. Associações fáceis, avelãs no inverno, esquecidas em um canto de floresta, recobertas de musgo; ou a grama tostando no verão inclemente de um jardim sem chuvas.

(A constatação da existência do espelho se fez de forma silenciosa, como não poderia deixar de ser. Eu, se tivesse maior ciência das coisas e se conhecesse melhor os homens, diria que a idéia do espelho nascera ao mesmo tempo para mim e para ele, porque não posso duvidar da sincronia. Quando a natureza acerta não há o que discutir, e por isso pensei que talvez o surgimento do espelho entre nossas relações tivesse acontecido não apenas porque necessário, mas também de forma simultânea. Não havia porque duvidar, aqueles olhos ao contrário diziam tudo o que era preciso dizer sobre a indefectível existência do espelho. De todo modo, simultânea ou não, a idéia de espelho ultrapassava ali as raízes do tempo para deitar-se como um gato velho e invisível sobre nós.)

Um quarto de hora depois (cabe aqui uma explicação: não queria saber das horas, mas me parece desejável agora dar uma dimensão exata em minutos, e um quarto de hora, todos sabem, são quinze e apenas quinze), pois um quarto de hora depois (depois do quê?, quererão saber, ao que respondo “depois é modo de dizer”), e dentro desse espaço de um quarto de hora, alteramos nossas posições sobre o colchão diversas vezes. Isso para explicar o motivo de, um quarto de hora depois, eu estar sentada e ele quase isso; não sei dizer se nos tocávamos (parece-me certo que sim, mas daquele jeito fantasmagórico que delineia todas as certezas ainda não concretizadas); nos olhávamos e não me recordo do que dizíamos naquele instante, como os que sofrem acidentes ou traumas e ao acordarem rodeados de parentes num hospital não sabem dizer o que aconteceu, e só disso consigo me lembrar: uns olhos crescendo junto ao meu rosto e um sorriso irretocável que se estendeu sobre mim como um pássaro (e aqui não cabe explicação alguma).

Sob a luz que nos cobria inteiramente, peguei-me pensando. O que ocorria, então, era uma mescla interessante entre a mente e o corpo, o pensamento e os sentidos. Eu racionalizava o que parecia ser apenas vital como o ar, o sol, a luz. Em linhas simultâneas, traçava histórias esquizofrênicas, e até mesmo pensei estar ficando louca quando me vi sobrepondo meu corpo sobre o dele, abstraindo-me da carne para entrar no território do mágico, do inefável. Estive a um passo de lhe dizer uma centena de coisas, mas no mesmo instante entendia que nada havia para ser dito. Eu mesma tratei de me censurar: não pense, não pense. Éramos então sombras estranhas porque pálidas, porque nítidas, envolvidas na estranha tarefa de dar continuidade e legitimidade ao espelho.

(Nos movíamos perfeitamente sincronizados e isso só pode ser atribuído à existência do espelho, este elemento perturbador a nos guiar os gestos e também as palavras. Brincávamos de “ser igual” sem nem mesmo termos manifestado o desejo de brincar assim, mas era desse modo que as coisas sucediam sobre o colchão branco. Se não fosse o espelho seríamos desajeitados e cegos como bebês, mas ali demonstrávamos em cada instante e em cada suspiro os melhores reflexos. Este balé perdurou por algumas horas, e disso só sei porque o céu foi escurecendo e subitamente era noite alta.)

Não havia muitas brechas. O pensamento começava a se insinuar, envolvido em racionalidade, rápido como um tiro, mas no entanto eu tratava de sufocá-lo e, como estávamos sob os auspícios do espelho, penso que com ele também ocorria essa fuga desesperada do pensar. Eu assistia ao seu sorriso-pássaro e me enlevava com as palavras impensadas, frágeis, flutuantes, deixando-me à deriva nas lembranças. Como era possível? Carne, pássaro, olhos, livro, metrô, telefone, eu me respondia, e ele me respondia com um silêncios simples e densos. Telefone: descobertas e paralelismos a nos guiar por esse fio de fatos, essa estranhíssima condição montada e disposta de tal forma que nos fora vedada a porta de saída. Desmanchava-me em encantamentos, como boa mulher que sou, procurando uma posição metafísica confortável naquela estrada que era um fiapo a se estender sobre um abismo.

(Uma das características mais estranhas dos espelhos é o fato de que, quando dispostos um diante do outro, eles passam a se refletir até o limite de suas entranhas. Não é fácil para o observador delimitar com exatidão onde morre o horizonte de um espelho, mas uma coisa fica sempre evidente: há um horizonte mais palpável do que o final de um arco-íris, isso sim um espetáculo interminável nas suas extremidades que não existem. Um espelho diante do outro se perde ao longe, que também é dentro, e por ser dentro deve ter um fim, que diabos. Essa perda é fria e pressupõe ausência.)

Mesmo afastando os pensamentos com muita energia, sabíamos que chegaria a hora em que tudo se desmancharia em poeira e lembrança. Do lado de fora das janelas e dos dias de folga havia uma vida bem complicada e cheia das inevitáveis distorções. Não tínhamos uma ilha para fugir, e por isso a sombra a nos espiar, uma velha de rosto duro e grandes óculos de aro marrom. Talvez por isso tenhamos, no dia seguinte e depois de tanta coisa que fizemos na tentativa de prolongar o instante fatal, montado uma cena tão bela quanto tristonha. Envoltos pela penumbra do final da tarde, o quarto azulado e eu sentada no colo dele, imóvel, aprisionada num abraço daqueles que não terminam e durante os quais tudo o que se deseja é murchar até atingir o tamanho de uma formiga, para caber num bolso de casaco. Nossas dores eram somadas e não desapareciam: afundavam-se como flechas de veneno e lágrimas.
Marpessa
Enviado por Marpessa em 06/11/2007
Código do texto: T726298

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Sobre a autora
Marpessa
Santo André - São Paulo - Brasil
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