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Os seios da colegial

Chegaram. Era num bairro belíssimo. O pai tocou o interfone. Pouco tempo depois uma jovem saiu para atendê-los. O médico a olhou fria e meticulosamente: parecia analisar uma doente terminal altamente contagiante. "Seria a amiga de Alice?" perguntou-se, torcendo para uma resposta negativa. Era uma moça gorda, a empregada da casa.
- Entrem! A Ágata tá no jardim... fiquem à vontade!
"Ufa!", respirou aliviado.
Seguiram a gorda. Antes de se chegar na enorme casa, via-se um gigantesco jardim. Júlio observava cada detalhe: viu grandiosas palmeiras, vasos rústicos de cerâmica, uma piscina que era um verdadeiro oásis, um quiosque também de estilo rústico e a cobertura em sapé, abrigando uma enorme churrasqueira. Parou diante de uma estátua fabulosa, réplica de David, de Michelangelo - isso o frustou, porque no seu jardim não havia uma grandiosidade igual, mas prometeu a si mesmo que compraria uma, maior, mais artística. Tinha dinheiro para isso, não tinha? Então? Era Júlio César, esqueceu?
A amiga de Alice estava em um balanço, abaixo de algumas árvores, no fim do imenso e quase infinito jardim. Os três em fila. Ele avistou uma gruta: frustou-se novamente. Percebeu que a sua casa era bem inferior àquela, perdia em tudo, na grandiosidade do jardim, estátuas, plantas, piscina; e ele que um dia chegou a pensar que não havia casa que superasse a sua naquela cidade, enganara-se. Mas era Júlio César, ora, podia comprar aquela se quisesse... Podia tudo.
- Mudou de motorista, Alice? - perguntou Ágata quando viu eles se aproximando, soltando um sorriso logo depois. E foi aquele sorriso de colegial que fez o visitante parar de cobiçar o lugar.
A primeira impressão não foi a de uma mulher, para ele tratava-se apenas de uma garotinha, mais uma coleguinha da filha. Mas ao aproximar-se em definitivo - tudo seria definitivo a partir daquele momento - , viu o quanto a colegial era qualquer coisa de perdição. Qualquer coisa seria injustiça, ela era muito mais que isso... Lembrou-se de uma réplica fiel sua, titulada: O balanço, de Fragonard. Notou, porém,  que sua pintura tinha bem mais roupa que Ágata. "Está digna de um assédio...ou coisa pior...", pensou rapidamente."O mundo tão belo e ele preso numa clínica", concluiu.
A filha apresentou os dois. O doutor mal conseguia disfaçar o olhar curioso, sedento. A moça de pernas à mostra, um dos pés engessado.
- É... prazer! - disse ele meio desajeitado.
Tanto tempo longe da civilização, só podia dá nisso, pensou, sorrimdo em pensamento, tinha essa mania de sorrir interiormente.
O olhar agora desviava-se para os seios da moça, que emergiam devido à blusa muito pequena. Fixou-se ali, atônito, alheio a quase tudo. Ela estava à vontade, sem sutiã, a blusa meio transparente, quase detalhando os mamilos róseos, que o olhavam, convidando-o para um desastre. Suava.
Tudo era mais belo naquela casa...
- Viemos sequestrá-la! - exclamou Alice, toda sorridente.
O homem, sem saber por que, riu também.
- Aqui estou eu! Aproveitem! - complementou a outra.
E de novo ele sorriu sem saber do motivo.
- Não sabia que teu pai fosse tão jovem...
- É, ele ainda quebra um galho! - brincou Alice.
O médico ia rir novamente, mas ao notar qualquer coisa a seu respeito, ficou meio sem jeito:
- Obrigado pela parte que me toca - disse, encolhido, tentando ser simpático. Mas no fundo sentia-se um adolescente com a cara cheia de espinhas, fugindo sempre para as curvas da colegial.
- Eu dizia que nao imaginava que o senhor fosse tão jovem... desculpa! senhor ou você?
- Você!
"Júlio César, O Garotão", titulou-se ironicamente.
- Também não pensei que a amiga da minha filhota fosse tão... - sentiu que sua frase podia caminhar para um adjetivo impensado, analisou, tomou cuidado e tentou ser o mais natural possível na última palavra antes do tal adjetivo, assim não causaria suspeitas...
- Tão? - inquiriu Ágata, curiosa.
- Horrorosa! - brincou Alice.
- Simpática.
- Ih, doutor Júlio, isso é porque não conhesse a peça...
- Alice! seu pai vai pensar mal de mim!
- Imagina... jamais.
- Então vieram me rapitar?
- Isso mesmo: ordem de Alicinha!
- Ok, será uma honra... mas tem um probleminha!
- Ih, lá vem ela, a frescurenta!
- Olha só: - mostrou o pé engessado - terão que me levar no colo... além do mais, peguei horror a muletas!
O homem tremeu. Era Júlio César, sim, era. Todavia, estava ao lado de um ser quase nu, diante do seu nariz, ou melhor, dos olhos atentos - atentíssimos! Tudo o que tinha que fazer era pegá-la no colo e levá-la para dentro de casa e pronto! Mas toda ação gera uma reação, e a sua não seria tão simples assim. Analisou a situação, viu que corria perigo, que era de carne e osso, mais precisamente, era bicho homem. Suou profundamente.
- Para a sua sorte, não tô acima do peso! - brincou a colegial ( a gorda riu sem jeito ).
Ele respirou. Sorriu sem graça. Tremeu. "Mundo, mundo, vasto mundo!", dizia um verso de Carlos Drummond de Andrade, e que lhe veio na cabeça sem saber por que. Até que criou coragem, trouxe-a para o colo - "Grito imperioso de brancura em mim!", outro verso que lhe veio na cabeça, mas de quem era mesmo? não lembrava. Dava dó tocá-la, as suas mãos velhas deslizando naquela pele de colegial, delicada, era um camaleão devorando uma flor, um lobo prestes a dar o bote, a tirar um pedaço, sentiu a respiração ofegante da moça, sim , ela não respirava, ofegava, notou que podia arranhá-la, quebrar alguma coisa dela. O chão girava. Atrapalhou-se, não sabia qual caminho seguir...
- Por aqui, doutor. - ajudou a gorda, deixando-o ainda mais envergonhado.
Pôs-se a seguir novamente a empregada. Sorriu sem motivo outra vez. Sorria porque não sabia fugir - se pudesse, correria como um bicho, um filhote desgarrado da mãe, fugindo enlouquecidamente de algum predador feroz. Levava a moça, firme. Passos milimetricamente iguais. E - desesperos dos desesperos! - seus olhos continuavam lhe traindo, em direção aos dois seios logo ali abaixo, tão pertos, tão perfeitos, os dois apontando para ele, encarando-o, sacudindo ao menor passo, era só aumentar a passada e os seios oscilavam, num delirante movimento de vaivém. "Se você olhar para baixo Deus pode te castigar, te transformar numa estátua de sal", pensou. Sentia-se todo abrasado, subiu-lhe um rigoroso fogo, que o consumia; andava, mas parecia não se mover, se movia, mas não sabia que rumo tomar. Se não olhava para baixo, mais se atormentava, mais sentia necessidade de admirar... E andava perdido em si, como em deserto.
Diminuiu os passos. Aumentou. Voltou a diminuí-los. Ia comandando o ritmo. De súbito, medo, medo de alguém perceber a libidinosa intensão de seus passos. Notou que a gorda olhava meio de lado, como se quisesse ler seus pensamentos, seus inpudicos pensamentos. Sentiu medo dos seus próprios movimentos, até de seus pensamentos. "Covarde!", titulou-se. Era. Tremia com a visão.
Nessa tortuosa caminhada, passou-lhe um cruel pensamento: se tivesse num sonho, é, num desses sonhos malucos que nada faz sentido, que tudo acontece, não pensaria duas vezes, jogaria a pobre moça no gramado, arrancaria a sua pouca roupa violentamente, em seguida a beijaria com fúria, sede, fome, como um cavalo no cio, um bicho descontrolado. Sorriu por dentro, já surpreso com seus pensamentos. "Não és bom nem és mau...és maquiavélico!", concluiu.
Após deixá-la em casa, sã e salva, ela trocou-se e seguiu de muletas para o carro. Partiram.

Ágata  ( trecho do conto "Martírio")
Samuel Silva Teixeira
Enviado por Samuel Silva Teixeira em 07/11/2007
Reeditado em 03/10/2011
Código do texto: T727537

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Sobre o autor
Samuel Silva Teixeira
São José do Rio Preto - São Paulo - Brasil
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Samuel Silva Teixeira