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Na fábrica

Fez-se uma fila que se estendia de um lado a outro do corredor que dava acesso à sala do diretor da fábrica, Sr. Hernandes. Vinte e dois funcionários esperavam ansiosos alguma informação sobre o motivo dessa convocação inesperada. Dentro da diretoria estava Luciano, supervisor-geral; Valesca, funcionária da fábrica; José, o faxineiro e o próprio diretor.
A reunião já durava trinta minutos. Por todo o corredor os boatos eram unânimes: finalmente descobriram o romance entre Valesca e Luciano. Teriam encontrado os dois no galpão de limpeza, ou aos beijos em um dos elevadores. O amor proibido era talvez a base do relacionamento. Ele era um homem sério, de poucas palavras, tinha esposa e dois filhos. Ela morava sozinha, não o amava, era inteligente o suficiente para não o amar, queria deixar de ser uma simples empregada que tinge os tecidos fabricados para ser uma secretária, usar terninho e salto alto. Porém o romance crescia. Pouco a pouco estavam mais próximos, entregando-se mais, como conseqüência, estavam menos cuidadosos em esconder o affair.
Ouvia-se o choro da moça dentro da diretoria, ela parecia desesperada. O supervisor saiu da sala juntamente com José. Os dois tinham o semblante fechado, preocupado. Luciano se dirigiu aos empregados e comunicou o falecimento do vice-diretor, Adalberto. A inquietação de todos fez o diretor aparecer trazendo Valesca que ainda tinha os olhos inchados e soluçava muito. Hernandes explicou aos funcionários que o vice-diretor fora assassinado essa tarde. A decepção no rosto dos funcionários era visível. Os comentários sobre o relacionamento de Valesca e Luciano abafaram a morte de Adalberto.
- A partir de agora, todos devem permanecer na fábrica. A polícia foi chamada e se prestará a ouvir os depoimentos de cada um.
Ninguém concordou com as ordens dadas, passava das oito horas da noite. O expediente terminava às sete e meia.
- É melhor não contrariar e acabar perdendo o emprego – disse Luciano. Os empregados foram aconselhados pelo supervisor e acabaram cedendo.
Os policiais chegaram em quinze minutos. Iniciou-se o longo interrogatório. As principais suspeitas caíram sobre Luciano, com a morte de Adalberto, ele seria o novo vice-diretor. Mas em seu depoimento o supervisor apontou um álibi, passara a tarde inteira com o diretor Hernandes conferindo o funcionamento da máquina de tear recém-adquirida.
O depoimento de Valesca foi o mais demorado. De acordo com o que disse a moça, ela havia encontrado Adalberto morto quando foi tingir os tecidos que estavam prontos. Entrou na sala de cozimento das tintas e viu o cadáver sobre a escrivaninha. Jazia com uma faca cravada no pescoço. O defunto segurava a arma que o matou como se tivesse tentando retirá-la com a energia que lhe restou após se defender do assassino.
Luciano ouvia tudo que a moça dizia. Mais tarde, quando os policiais terminaram o interrogatório, ele segurou os braços de Valesca com toda força. Perguntou se ela realmente não era culpada, se não fez aquilo para ele subir de cargo na fábrica e deixar de ser um supervisor. O amor proibido dos dois estava indo longe demais. A moça respondeu que não, que jamais teria coragem de matar alguém. Luciano sabia que era mentira. Sabia também que ela seria capaz de mentir muitas outras vezes.

Barba Uonderias
Enviado por Barba Uonderias em 08/11/2007
Código do texto: T729421

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Barba Uonderias
Fortaleza - Ceará - Brasil
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Barba Uonderias