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AQUELE HOMEM

Aquele homem

Lembro-me de vê-lo todos os dias, com seu ar cansado, idéias vagas e imprecisas, algo sonhador e melancólico, sem o ver realmente. Será que algum dia parei para enxerga-lo de perto, senti-lo humano, com virtudes, defeitos e aquele enorme emaranhado de dúvidas, preconceitos, complexos, neuroses, enfim, tudo o que nos torna gente de fato? Não me recordo. Também não consigo ter a lembrança se em algum momento encontrei em sua fisionomia e vida comuns, sem maior expressividade, algum traço que eu realmente admirasse. Sei apenas que gostava dele, de suas histórias, de alguns fatos ocorridos em sua trajetória sobre esse vale de lágrimas, mas eram sempre coisas breves que permitiam avaliar sua personalidade apagada de um prisma parcial, nunca profundo ou conclusivo, sob pena de eu cometer um equivoco.
Acho que eu o queria cavaleiro andante, general ou astronauta, emergindo dos meus sonhos infantis como um paladino que traz empunhado o galardão da glória, do heroísmo. Um ser grandioso, que fosse noticia, não apenas leitor de jornais.
Mas, covarde que sou, não quis entender que é preciso uma coragem monumental para julgarmos, com justiça, um homem a quem admiramos quando criança (sem a necessária perspicácia), rejeitamos na adolescência (não me diga que a sua foi maravilhosa?) e que conseguimos (aleluia!) entender na vida adulta. Esse indivíduo, pálido, assim como suas idéias e ideais, fraco, indefeso diante de um mundo que ele não compreendia ou não aceitava, poderia ter sido qualquer outra coisa (pequena) na vida. Ao invés disso, era meu pai. O bom e velho pai que me acalentava, compreendia e via em mim, certamente, o que eu não via nele: inteligência, dinamismo, um futuro promissor. O mais engraçado é que, mesmo nas minhas piores mancadas, lá estava ele dizendo que aquilo não era nada, que tudo iria dar certo ou então que não havia sido culpa minha se as coisas não tinham corrido bem (Bobagem! Geralmente eu enfiava os pés pelas mãos e não se parecia em nada com o gênio que ele acreditava que eu fosse).
Foi preciso que eu passasse pela angústia e a delícia de ser pai para finalmente vê-lo na perspectiva certa. Hoje, quando embalo nos braços a pequena criança que é meu filho (vejo nos seus olhos aquela admiração meio patética que eu já tive um dia), me pego pensando que pais e filhos passam por diferentes ciclos mas seguem, com poucas exceções, as mesmas trilhas. Penso também que, apesar dessa semelhança, não conseguem conceber mundos e vidas e idéias de forma a se tornarem próximos no tempo certo.
Creio, porém, que aquele velho apagado e quase abstrato é o melhor conselheiro e amigo para um pai recém-inaugurado, com direito a babador e falta de jeito. Mesmo sem uma armadura cintilante e uma espada guerreira.
É preciso ser filho para ser critico demais com o homem a quem devemos o ato de ser. É preciso ser pai para ser indulgente demais com aquele a quem geramos. É preciso, ainda, ser humano para cometer atos assim e agradecer ao tempo por se arrepender pelos erros cometidos.
Talvez eu sentisse pelo velho de cabelos brancos apenas aquele amor furioso que o filho sente pelo pai que é um perdedor. Talvez eu sinta pelo meu filho apenas aquele amor sentimental que me faz enxergar numa simples criança, sem maiores qualidades, um futuro presidente, jogador de futebol, artista de cinema, cantor, escritor ou seja lá o que for que eu não consegui ser. Temo, também, que esse moleque ainda me veja sem me ver realmente. Ou recorde-se de minha pessoa como alguém com ar cansado, idéias vagas e imprecisas, sonhador e melancólico. Pelo menos até que possa me ver na dimensão justa, entre fraca e dolorosa, mas amiga e acolhedora. Sem sonhar, apenas (con)viver.
Elias dos Santos
Enviado por Elias dos Santos em 19/11/2005
Código do texto: T73711
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Sobre o autor
Elias dos Santos
Campo Grande - Mato Grosso do Sul - Brasil, 46 anos
5 textos (13965 leituras)
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