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O Corretor de almas.

Aurélio era um cara pacato. Vivia no subúrbio, era frívolo, porém, escrevia romances bem pobres. Tinha um único sonho: ter aquilo que um dia perdera, ou seja, o muito de dinheiro que seu pai deixara de herança.
                 O cara pacato trabalhava em uma loja católica, era devoto de são Lucas Tadeu, operava a máquina fotocopiadora, vulgarmente apelidada de xerox, ganhava pouco às vezes fazia uns bicos e nas horas de folga atacava  de Office boy e assim ganhava a vida.
                  Entretanto numa noite quente resolveu abrir as janelas de seu apartamento velho e úmido, sentou na cadeira e apoiou-se para terminar de escrever sua última novela, estava empolgado, pois achava que agora tinha conseguido organizar uma bela trama e sonhava em editá-la e publicá-la.
                   Sentiu um ar denso chegando em suas costas, à iluminação precária de seu apartamento não mostrou a sombra do ser um tanto quanto pernóstico cuja presença repousava suas nádegas na janela, fumando um charuto, com asas empoeiradas, trajava uma calça jeans rasgada, cabelos longos mal tratados, no rosto alojava uma barba acinzentada e rala e uma blusa com os seguintes dizeres: “Deus é fiel!”.
                     - E aí Aurélio. Tudo bem? – anunciou o homem, com um arroto.
                     O cara pacato depois do susto encarou-o. Apesar de não estar entendendo. Nessas horas, sempre se atende o pedido, portanto, Aurélio levantou puxou uma cadeira para o estranho.
                      - Tudo... Por favor. – Disse ressabiado e apontou a cadeira.
                      - Esse sanduíche da esquina deve ser proibido pela vigilância sanitária! Nossa, sabia que eu tenho problema de gases?
                      - Eu também... – Aurélio apenas concordou com a cabeça, dirigiu-se ao frigobar e pegou uma cerveja, sorveu-a afoitamente.
                      - Se tiver mais uma, poderia me oferecer?
                       - Claro... Mas antes, que tal você se anunciar. – propôs Aurélio pegando mais uma cerveja.
                      - Ué! Não me conhece? Olhe de perfil!- ajeitou-se na cadeira. – Ora sou eu! São Lucas! Tarde, mas cheguei... – Levantou-se rindo e pegou da mão de Aurélio a cerveja.
                      - O Tadeu?
                       - Não... Eu sou uma forma genérica. Este aí é mais elegante, ganha muito mais e tem uma agência de propaganda que investe muito nele.
                       - Ah! Sim... E então?
                       São Lucas andou pelo cômodo ateve-se a ler uma das novelas de Aurélio que estava pelo chão. Enquanto este bebia a cerveja e sentava-se na beirada da cama e olhava para fora com uma enorme interrogação na cabeça.
                        - Nossa, que mau gosto. É seu este romance?- comentou irônico.
                        - Sim, é meu.
                        - Mas você vai melhorar...
                        Os dois entreolharam-se, beberam mais algumas cervejas em silêncio. São Lucas levantou: “– aonde vou dormir? – bocejando”. Aurélio apontou para cama e retirou-se para a sala, bebeu mais uma cerveja. Abriu a porta do quarto olhou de novo para o santo sorveu mais um gole da cerveja e voltou o olhar para o santo e finalmente decidiu deitar-se no sofá.


                       Amanheceu o cheiro de ovo, do café, e de queijo invadiu as narinas de Aurélio que levantou e se deparou com o Santo o qual cozinhava alegremente, e se virou para o cara pacato.
                        - Vamos tomar um café reforçado.- Sorridente o Santo estendeu a cadeira.
                        - Tudo bem... Agora me diga quem é você? E o que faz?
                        - Não... Você já me conhece. Posso te dizer o que faço. Sou corretor de almas.
                         - Sei. – intrigado queimou-se com o café, passou manteiga no pão.
                       Pegou a toalha e foi para o banheiro, tentou relaxar com um banho frio. Seus pensamentos tentavam organizar-se por alguns minutos. Chegou a relaxar um pouco, afinal não é todo o dia que um santo senta em sua janela. Aurélio lembrou-se que já fora devoto de são Lucas Tadeu, mas ele não era Tadeu e sim um genérico. Quando saiu do Box deu de cara com o santo que sentado na privada lia o jornal tranqüilamente.
                          - Que absurdo! Vocês humanos perderam literalmente a humanidade, veja. – mostrou uma foto de um assalto em conseqüência a morte de um dos assaltantes, com naturalidade.
                        Arrumou-se e chamou o elevador, o santo veio atrás. Como sombra.
                         - Vai trabalhar também? – interrogou Aurélio.
                         - Sim. – concordou com a cabeça e puxando a porta do elevador.
                         Mais uma vez os dois entreolharam-se, o santo sempre sorridente. Aquela situação ainda mal explicada embaralhava a mente de Aurélio, porém como já disse, estamos acostumados a situações como essa deixar seguir.
                         - Corretor, né?
                         - Sim. De almas! – reiterou o santo.
                         - E qual é a alma da vez?
                         - A sua ora bolas! Porque achas que estou aqui....
                        O elevador chegou ao térreo o santo abriu a porta, Aurélio com falta de ar saiu apressadamente e balançando a cabeça do tipo, “ não estou acreditando” saiu pelas ruas deixando o anjo para trás, que apertava o passo.
                           - Você chegou tarde, não achas?
                            - Eu sei, eu já lhe disse isso. Mas sempre há um jeito.
                         E os dois continuavam aos passos largos e apressados, sendo o anjo um pouco gordo forçando os passos.
                           - Agora é tarde seu anjo tolo! Eu perdi meu pai, minha herança esta nas mãos de uma mulher golpista e eu estou pobre! E sem fé. – Desabafou aos berros.
                           - É não fale comigo assim. Sabe...
                           - Porque, o santo aí tem poderes especiais?
                           - Não, que isso! Não sou um anjo do cinema. É porque eu só apareço para o meu devoto, e no caso é só você no momento.
                           As pessoas olhavam Aurélio de cima em baixo, com ar de reprovação. Uns riam sem parar, inclusive o santo. Que na imagem de Aurélio fazia cara do anjo do tipo ‘eu tentei te avisar mas não consegui’, para aliviar a situação virou-se para os curiosos:”nunca viram alguém estressado não! normal ué”saiu em disparada para pegar o ônibus no ponto da esquina. E o santo, “espere! Estou fora de forma.”
                            Dali a livraria católica em que trabalha era uns cinqüenta minutos, Aurélio sentou e o santo ficou de pé ofegante e suado escorava-se naqueles ferros de apoio.
                            - Pô, você poderia deixar eu sentar. Estou velho sabia.- reclamou o santo
                            Aurélio encarou-o furiosamente se tivesse uma arma o santo iria voltar para o céu naquele instante, o santo recolheu-se e emudecido acalmou-se e observou os demais, havia uma velha com uma criança imunda, alguns homens apressados e os demais iguais a Aurélio com sono e irritados.
                             Aurélio levantou puxou a cordinha do ônibus desceu e caminhou para a livraria, o santo desajeitado tentou acompanhar o seu mais novo devoto. Aurélio não deu bom dia a ninguém, e logo pegou alguns papéis ligou a máquina e começou a reproduzir.
                              - Larga de ser mal educado e cumprimenta seus amigos de serviço, devoto meu não pode fugir da educação divina! – ao pé do ouvido o santo chamou-lhe a atenção.
                              Aurélio ignorou e continuou seu serviço. Reproduziram algumas fotografias, documentos, matérias escolares.
                              - Legal. Isso que você faz? Poxa... Se eu fosse daqui meu sonho seria comandar uma máquina dessa, sabe lá em cima num tem uns aparatos destes. – com ar de reivindicação o santo disse, puxando um charuto.
                                Na hora em que Aurélio ia sair para lanchar uma loira maravilhosa adentrou a livraria. Pernas torneadas, lábios carnudos e um par de seios fartos que poderiam alimentar todos os bebes africanos. Aurélio voltou e atendeu a moça, só que ele era feio, porém educado. O santo ficou inquieto, aproximou-se examinou cada centímetro daquele pecado carnal sentindo seu cheiro de perversão.
                                A moça virou-se e agachou-se para buscar um papel. O Santo, que de santo não tinha praticamente nada não resistiu.
                                - Gostosa! Maravilha. Que bela bunda!
                                A loira ergueu-se espantada, e bofeteou Aurélio, este atônito e sem entender encarando o santo raivosamente caiu de bunda no chão derrubando a prateleira de lapiseiras e apontadores.
                                  - Seu grosso! Abusado! – bracejava a moça que saiu da livraria aos prantos, porém no fundo ela adorava receber estas cantadas senão não havia graça de gastar o dinheiro de seu marido velho na academia e oferecer aos que podiam provar o problema que Aurélio era feio e pobre.
                                  O santo ria que seu abdome já doía. O dono do recinto era um velho que usava óculos, surpreso com o comportamento de Aurélio expulsou-o da loja demitindo-o por justa causa deixando cair seus óculos no chão, o santo ainda sob efeito da situação que causara pisou nos óculos, enfurecendo o dono ameaçando Aurélio de pagar com seu salário os óculos, fazendo-o que o pobre pacato seja o responsável.
                                   Não trocaram uma palavra sequer até chegar em casa. Aurélio foi tomar um banho, e o santo cansado fora deitar na cama. A porta se abriu, uma morena com cabelos lisos e um rosto angelical trajando um vestido vermelho a passos leve foi ao quarto de Aurélio, era Jéssica sua namorada fazia uma semana que não se viam.
                                    Com toques aconchegantes, acariciando suas pernas simultaneamente tirando o vestido, “O meu amor, que saudades.” O santo imerso no sono nem sequer sabia o que estava acontecendo. Mas incessantemente Jéssica acariciava-o, por debaixo das cobertas sentiu as asas, mas nem ligou... Quando o virou para beijá-lo a surpresa. O anjo fazendo um bico abriu os olhos e tomou um safanão no rosto, enquanto ela vestia-se e chorando saia correndo para sala.
                                 Ao escutar do banheiro aquela gritaria, Aurélio saiu apressadamente abriu a porta e avistou sua namorada chorando e indignada tentando discar para um táxi pelo celular.
                                - O que houve meu amor? – Perguntou Aurélio com espuma nos cabelos, com a toalha em mãos.
                                - Cachorro! Aliais... Gay! Podia esperar tudo, mas menos com um homem. – E saiu pelos corredores chorando e esperneando para que todos ouvissem.
                                 - Homem não!São Judas!- corrigiu o santo com o olho inchado.
                                 Aurélio e Jéssica seguirão pelo corredor aos berros. Quando foi tentar segurar pelo braços sua toalha caiu, Jéssica o empurrou e entrou no elevador. Na mesma hora um casal de idosos chegavam ao deparar-se com aquele jovem nu diante sua porta, o senhor puxou sua bengala e começou a espantá-lo de volta para casa. Aurélio foi desculpando até chegar em casa.
                                 O santo estava estirado no sofá com um pedaço de carne no rosto.
                                 - Some da minha frente! Anda... – ordenou Aurélio.
                                 - Calma. Primeiro ponha a toalha, não sou obrigado a ver isto! Ai, que mãos que ela têm... – reclamou o santo.
                                 - Você acabou com a minha vida. Primeiro veio na hora errada, meu pai morreu, perdi a herança, fiquei pobre. Depois, meu porteiro acha que sou louco, não tenho mais emprego fiquei mais pobre do que sou!Disse que minhas novelas são horríveis! Agora perco minha namorada... Você passou dos limites! Quem você pensa que é! Seu corretor de merda! Vai pro quinto dos infernos! – Desabafou Aurélio, ajeitando-se com a toalha.
                                - Tudo bem, menos ir para o inferno! Olha o respeito. Eu te salvei. Seu mal agradecido, vocês humanos sempre nós tratam assim.
                                - Seu louco, anda some! – Aurélio empurrou-o para fora da casa, o santo olhou para os lados e viu a imagem de São Lucas na lixeira o que deixou-profundamente magoado.
                                  - Olha eu sou um corretor de almas, um negociador... Eu negociei seu passado com seu futuro. Entende agora, não pode fazer isso!
                                  - Porra, além de santo é louco! O meu santo é o Lucas Tadeu! E não você seu bêbado, pervertido e louco!
                                  - Seu santo fica na lixeira? Você o aguarda assim? Talvez seja para ele vir limpar este seu pardieiro... – O santo saiu triste pelos corredores acendendo um charuto.
                                   O casal de idosos ficou perplexo, após a nudez explicita o homem nu gritava só com um santo imaginário.
                                    - você já procurou um psicanalista meu filho?- Disse um dos velhinhos.
                                  A vida dos santos corretores não é mole. Após a criação deste cargo os santos genéricos trabalham iguais escravos, recebem pouco e são pessimamente tratados por seus adoradores. O santo caminhou pelas ruas vazias, alçou vôo com suas asas empoeiradas e encardidas para o alto de um prédio e chamou por Deus, “ Essa mania de acharem que somos superiores é perigoso. Por isso somos corretores, negociamos o que eles querem mas precisam perder o que tem, para ter aquilo que sonham. Porém Deus nem todos acreditam em nós, genéricos. Santos baratos. Eles não querem saber se pensamos neles, se acreditamos neles, creditamos a beleza das coisas em prol de suas ganâncias e olha só o mundo como está! Cuidado senhor, tu também pode ser um ser genérico e barato.”
                                Na manhã seguinte a campainha fora tocada nervosamente. Aurélio levantou-se, lavou o rosto amassado, pensou em mil coisas e foi atender. Abriu a porta, na sua frente uma figura de terno e gravata e em umas das mãos uma mala marrom e noutra um papel. Era precisamente oito da manhã.
                                - “Bom dia senhor, eu gostaria de comprar suas novelas. Por favor, assine aqui.”- Disse o rapaz apontando uma caneta e um contrato elaborado por uma grande companhia de livros.
                                 
PINDORAMA
Enviado por PINDORAMA em 20/11/2005
Código do texto: T73896
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Sobre o autor
PINDORAMA
Três Rios - Rio de Janeiro - Brasil, 31 anos
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