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Olhe para a frente, Margarida



          Não, eu não sou desiludida. Sou realista. A vida quis assim e assim tenho que viver.Não sei se é carma, se é destino. Só sei que é, e não vejo como mudar. Tive meu período bom de vida, uma infância e uma adolescência feliz, pais amorosos. Depois, veio a guinada na vida. Mal eu iniciara o meu primeiro emprego como professora de um jardim de infância e começara meu curso superior de Pedagogia, meu pai perdeu o emprego. Em conseqüência da depressão, começou a beber. Um dia, voltando bêbado para casa, altas horas, foi atropelado. Morrer não morreu, mas também vivo não ficou. Um ser vegetal de quem tínhamos que tomar conta dia e noite. Revezávamos-nos, eu e ela. Conclui a duras penas o meu curso superior e logo que formei passei a fazer jornada dupla de trabalho.Minha mãe também fazia isso, tínhamos que nos desdobrar, as despesas eram muitas e nós o amávamos. Queríamos lhe dar o melhor. Logo que ela se aposentou, ele morreu. Não sofri, já tinha sofrido tudo o que tinha direito. Pensei: agora podemos viver nossas vidas, minha mãe e eu.Ainda sou jovem e ela também. Sem tantos gastos poderemos passear e quem sabe?,  talvez até eu encontre alguém para amar. Mas não deu tempo nem para começar. Estávamos planejando nossas primeiras férias quando percebi que ela estava ficando esquisita. Esquecida. Nem era tão velha e estava agindo como. Um dia, na véspera de nossa tão sonhada viagem,  saiu de casa para ir buscar as passagens na Agência de Viagem e não voltou. Nem foi lá. Desapareceu. A polícia a encontrou, três dias depois, assentada quietinha em um banco de uma praça distante. Não sabia quem era, nem onde morava.Mal de Alzheimer. Velhice precoce. Caduquice, sei lá. Dê se o nome que se queira dar, só sei que nunca mais foi a mesma. Éramos três, ficamos duas. E de repente só eu, cuidando de uma morta viva, morrendo em vida também.Até que ela também se foi e eu fiquei, completamente sozinha, sem nem mesmo um trabalho. Aposentadoria proporcional para ficar mais com ela. E agora estou eu aqui, tentando recompor os cacos de minha vida, sentada nesse divã, como se alguma coisa pudesse ser mudada, a esta altura dos acontecimentos..


Olhe para a frente Margarida. Olhe para o alto, para cima, para os lados, para qualquer lugar. Procure a vida Margarida. Não fique ensimesmada neste tempo que já passou. Procure alguma coisa, faça alguma coisa. Vá viajar, ver gente, lugares novos. Como se fosse fácil mudar a vida assim de repente. Olhar para os lados eu olho mas o que vejo se não as mesmas caras de sempre, as mesmas pessoas que já se acostumaram em não me ver.Eu olho e não há retorno, cada qual ensimesmado em sua vida. Buscar eu busco mas é tão sem saída porque não vejo a saída. Adeus, psicóloga, se é para gastar meu dinheiro assim, ouvindo o tempo todo, olhe para si mesma Margarida, o que vou fazer é parar de ir aí e realmente seguir o conselho, vou viajar, vou ser outra, encontrar uma vida nova, um mundo novo em qualquer lugar.

Para qualquer lugar, não faz a mínima diferença. Qualquer lugar não existe,senhora, tem que ser um lugar. Tudo bem, me dê uma passagem para um lugar, onde haja sol e haja praia e eu possa caminhar a beira mar com a cabeça levantada e os olhos abertos, mas que seja bem longe daqui, onde ninguém me conheça , onde nem eu mesma saiba quem eu sou e onde eu possa olhar para os lados, para frente e para cima, nunca para baixo. A senhora pode fazer isso aqui mesmo senhora, em todos os lugares isso pode ser feito, mas vou lhe dar uma passagem para um lugar maravilhoso onde todos os seus sonhos podem ser realizados. Como é que você sabe que todos os meus sonhos podem ser realizados se não sabe quais são os meus sonhos se nem eu mesmo sei.? Bem, a senhora tem que tentar...eis aqui a passagem.

E não é que deu certo? Em minha primeira caminhada pela praia eu o vi, um homem simpático, deve ter a minha idade, um pouco mais um pouco menos, e um jeito desacostumado de sorrir assim como eu, e ele caminhava também, ora atrás de mim, ora a frente, e quando estávamos no mesmo plano, ele sorria, esse sorriso torto assim como eu, e abaixava a cabeça e quando parei na barraquinha ele parou também e eu tomei uma água de coco e ele também e ele falou do dia como estava bonito, da cor do céu e do mar, tão iguais que se fundiam no horizonte, assim como os seus olhos, senhorita, senhorita...e eu respondi Eva e então ele riu e apertou a minha mão e ficamos ali sem jeito, ele falou, sou Adão e eu ri por dentro mas por fora fiz apenas um esgar, soltei lhe a mão e virei as costas, o primeiro que me surgiu, tão simpático e já de mentiras comigo, Adão, ora, imagine, ele é tão Adão quanto eu sou Eva.

E lá estava ele. O Adão de novo, no mesmo hotel que eu, sentado a mesa, já servido do jantar, vou passar reto, procurar uma mesa bem longe, mas todas estão ocupadas, meu Deus, agora vou ter que voltar, vou fingir que examino os meus sapatos enquanto ando de volta, ah,..o que? Não quer me dar o prazer de jantar comigo, estou sozinho e estou vendo que a senhorita não encontrou mesa vaga, se não for impertinência...Se não for incomodar-lhe Senhor Adão...só me incomodará se continuar a me chamar de Adão, Eva., e eu custei a perceber que ele falava comigo, e então ouvi a voz, olhe para a frente Margarida, e eu vi os olhos, os olhos brilhantes como mel, um mel escuro e então querendo não ser eu, querendo ser Eva eu me sentei e pedi uma cerveja e ele também e bebemos tantas que quando saímos já tínhamos rido e falado de tudo e de todos menos de nós, e ele me beijou quando chegamos a porta e nem tentou entrar, e eu agradeci a Deus por isso mas fiquei triste porque pensei, ele não gostou de meu beijo, beijo de lábios que nunca beijaram.E a noite toda eu não consegui dormir, repetindo todos os momentos que tinha vivido, querendo mais, muito mais...

E na manhã seguinte eu esperei ansiosa, fiquei a manhã toda esperando que ele aparecesse para o café, queria caminhar pela praia outra vez, mas não podia perdê-lo de vista, mas ele não veio, e eu tomei tanto café que não precisaria mais comer o resto do dia, experimentei todos os pães e bolos, comi as frutas exóticas, bebi todos os sucos e nem consegui sair sem voltar ao quarto, tinha que ir ao banheiro, e tenho que ir a cidade comprar batom, quem sabe um vestido novo, quem sabe? Burra, ele é casado, tem família e já se foi, pra que tantos sonhos, um homem desta idade não está mais sozinho, só você está sozinha, só você nunca amou ninguém na vida . Foi apenas um flerte e ele já se foi, nem disse seu nome verdadeiro, então duas batidas na porta e quando abri ele estava lá com um buquê de margaridas na mão, todo sem jeito, achei que essas flores pareciam com você ele disse, desde que a vi me lembrei das margaridas do jardim de minha mãe, e eu não soube o que falar, e ele entrou no quarto e ligou para a recepção pedindo uma jarra para colocar as flores, e enquanto esperávamos o jarro ele me beijou novamente e eu senti vontade de dizer que meu nome era Margarida mas não tive coragem, porque a Margarida só sabia olhar para o chão e eu não queria mais olhar para o chão.

E então nós passamos uma semana maravilhosa,eu Eva e ele Adão, e eu lhe dei a maçã tentadora e ele comeu a fruta do pecado então ele se foi, disse que era chegada a hora, gostaria de viver comigo o resto da vida, mas tinha um compromisso, um compromisso que absorvia todo o seu tempo, que não podia de modo nenhum ter outro compromisso na vida, obrigar alguém a dividir o seu fardo com ele, tinha sido só uma semana, uma semana de fuga, de busca de felicidade, e me beijou de novo e partiu sem que eu soubesse o seu nome, sem que ele soubesse o meu. Joguei no lixo as margaridas apodrecidas e voltei para casa no outro dia, mas jurei que nunca mais andaria pelas ruas olhando meus pés, estaria sempre atenta, olhando para todos os lados, porque eu tinha que encontrá-lo de novo, fosse como fosse, fosse qual fosse o seu fardo, eu o acharia, mesmo que não se chamasse Adão.

E eu  voltei para casa, entristecida, mas de cabeça erguida, olhos dançando para todos os lados, foi então, que ao abrir a porta de meu prédio, senti que de dentro alguém também a puxava e a força que fizemos juntos, porque a porta era emperrada, quase me derrubou e eu olhei para ele, o homem que puxou a porta e ele olhou pra mim e ao mesmo tempo exclamamos nossos nomes: Eva!!! Adão!!!

Bem, hoje ele já sabe que eu não sou Eva, sou Margarida, mas ele é mesmo Adão, professor aposentado, solteirão, mas por pouco tempo, agora que achou quem dividisse com ele os cuidados com o pai, doente há tantos anos que ele já perdeu a conta. Mal de Alzheimer.

E agora quando saímos juntos ele me diz, olha para a frente Margarida, vai acabar tropeçando, mas é tão difícil porque eu quase não consigo tirar os meus olhos dele, e então ele ri e segura com força o meu braço para que eu não caia quando tropeçar.
Maria Olimpia Alves de Melo
Enviado por Maria Olimpia Alves de Melo em 18/11/2007
Reeditado em 19/11/2007
Código do texto: T742629

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Sobre a autora
Maria Olimpia Alves de Melo
Lavras - Minas Gerais - Brasil
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