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A Flor


Nunca gostei de dormir no escuro... Era como se a escuridão pudesse aos poucos ficar mais negra e me envolver com seu manto de luto.
Tentava buscar o sono, mas ele com certeza já tinha me abandonado, como tantas coisas na minha vida.
Tentei buscar a presença dele com as mãos, acariciava o cobertor, mas queria mesmo era sentir que não estava sozinha.
Aos poucos, comecei a ouvir vozes... Parecia que alguém me chamava, senti vontade de levantar. Mas encolhi meu corpo ainda mais, como quem quer se defender, esconder.
A voz insistia, falava das minhas dúvidas, mágoas. Parecia me conhecer intimamente. O medo crescia, mas me sentia especial, era um dom ouvir a voz...
Ele se mexeu na cama e eu me assustei...

- O que foi?
- Escute essa voz... Acho que é um espírito... – falei cochichando, como se estivesse dividindo um segredo.
- Desculpe, não quero decepcioná-la, mas não ouço nada.

Não conseguia ver, mas com certeza ele estava rindo. Eu parecia uma menina, fantasiando. Tentei me concentrar, queria ouvir novamente. Mas a voz calou.

Depois do café, comecei a pintar. Era um jeito de demonstrar o que me afligia, incomodava. Com alguns traços fui desenhando. Céu claro, as cores se misturavam coabitavam na tela.
A flor de beleza macia. Pequena num cantinho, sendo separada do resto da paisagem por uma cerca, que ia delimitando o caminho, perto das pedras, do verde musgo. A natureza era meu forte e minha força. Desde muito pequena adorava os tons de verde transpondo barreiras, sobressaindo nas aquarelas, nos bosques, nas matas, na vida.

- Que lindo!
- Obrigada.
- A flor é bela como você.
- Sou eu.
- Realmente a flor é você, tem sua leveza, sua tranqüilidade.

Depois do curto diálogo ele se afastou e eu não perdi a coragem de explicar o resto...
- A cerca é você... Impede a flor de encontrar seres parecidos, semelhantes, irmãos. Me impede todos os dias de sentir a energia do mundo invisível, a magia dos seres, os recados do tempo, as vozes do vento...

Gritei para que ele ouvisse do outro cômodo.
- Eu sou a flor, você é a cerca.

Ele voltou e me deu um beijo no rosto. Ele não se importava, o importante era estar ali... Senti-me confusa, era fascinante o outro lado, mas precisava admitir que não saberia viver sem os braços dele delimitando meu mundo. Sentia necessidade da proteção da cerca...


Oculta
Enviado por Oculta em 23/11/2005
Reeditado em 23/11/2005
Código do texto: T75313
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Sobre a autora
Oculta
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 39 anos
8 textos (406 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 04/12/16 02:02)