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Dádiva

A hora se fez. Despedida, aquela vontade de ir e ficar, se pudesse, partir-se ao meio: metade a viajar ao destino, olhando de longe, vigiando; a outra, aqui, plantada, evitando ir, partido em dois, sem nunca partir. Queimação na garganta, um soluço, um choro preso, azia de saudade, embora ainda tão perto. Dá força saber que fará progresso, poder de melhorar e ajudar a já tão sofrida vida levada até então, que os tempos não são fáceis e, em cidade grande, as chances acompanham o superlativo dos entornos – melhor crer. A tiracolo seus poucos pertences: a bolsa de tiras de couro roído, um par de sapatos no pé e as alpargatas na mão, já que para viagem não são de bom-tom. No mais, a medalha em forma de coração que, ao abrir-se, revela de um lado a família apertada na moldura, de outro, a santinha a cuidar e olhar por todos.

Era sabido das dificuldades da jornada, por ouvir outros contarem, mas no auge de sua maturidade, o máximo distante que fora tinha sido até o enterro de sua avó, a não mais que cinco horas de viagem. Perto da distância enfrentada agora, quase nada. O ônibus antigo, perigando sempre esquentar motor, singra as estradas de terra levantando poeira, corta os leitos secos e os povoados como faca cega, afastando-o de seus laços e do presente; a frente: só o futuro. As cenas e imagens cada vez mais distantes, passando rápido ao ronco do motor que parece finalmente embalar. Os dados lançados.

São três dias e três noites sufocando pra dormir sentado e, o mais duro, aguando de fome nas paradas, o dinheiro curto, se bobear dando nem pro mínimo. Apega-se ao retratinho com toda força e fé, enfrentando frio, calor e fome, fosse o que viesse não o faria desviar de seu intuito, a mulher e os meninos veriam só. O que o esperava então? Junto do romper do sol na madrugada, a variação do tom de azul praquela luz indefinível, num rasgo no tecido do céu, alaranjado, de enorme beleza, revelando mais um dia. Aqui, diferente de lá, o calor vem apressado, ou aditivado pelo som e o quente das máquinas, o pólo industrial, a construção civil e tudo o mais que imaginava.  Sua esperança, brasa acesa no peito, ingênua e otimista, a necessidade se fazendo e reiterando o semear de seus sonhos férteis. Ê cidade grande!

Na rodoviária, o alvorecer de sexta pra sábado, o impacto do pensado com a realidade: dezenas e dezenas de desocupados, camelôs, prostitutas, espíritos carcomidos, insetos fustigados pelo zumbido de milhares de outros mais, convivendo, se aturando juntos. Formigas na colônia, tocando as antenas e seguindo seu caminho com a indiferença peculiar a que logo se habituaria.

O primo o esperava como combinado, dali pra terça, no máximo, começaria como ajudante de pedreiro em uma obra. Nem refeito da tortuosa viagem, se viu noutra fila de coletivo, a cabecinha forçada a entender aquele monte de gente se acotovelando com cara de tão poucos amigos. Sentado a janela, o primo ia lhe mostrando as maravilhas da cidade, o quanto iria gostar, o forró de sábado à noite, os perigos e abismos encontrados a cada esquina, o mal da pedra e como se perderam amigos e parentes, esfumaçando o próprio destino. Caso se leve a sério, a toque de caixa a ajuda pra família e boa vida dentro dos conformes possíveis. Não há motivo de se preocupar, por estas bandas, pra homem disposto trabalho não há de faltar.

Durante o jantar, riem, trocam histórias, eles ávidos por notícias dos parentes deixados, por claro. Escondido embaixo do entusiasmo, o coração já lancina, mal sua sorte atirada, remói saudade. Diante dos pratos quentes na mesa, casa pobre mas farta, o cheiro de lar, só ali dá-se conta de como será a labuta travada diariamente. Se não desencaminhar, arriscado morrer de banzo. Quisera poder ser Deus só por um dia, quem dera uma semana, pra cuidar de todo povo que deixara pra trás, ajeitar direito todo os abusos e desfeitos de gente que nunca viu vitória. Deitado no colchão duro e furado, olha pro teto, buscando iluminação, força, o que for, apesar da ansiedade e inquietação das novidades. Com o retratinho teso entre os dedos e os anjinhos inclusos na oração, dorme bem como há dias não dormia. O amanhã de promessa.
Douglas Evangelista
Enviado por Douglas Evangelista em 25/11/2005
Código do texto: T76264
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Sobre o autor
Douglas Evangelista
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 36 anos
32 textos (1072 leituras)
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Douglas Evangelista