Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Incidente em Vila de Fátima parte 1

INCIDENTE EM VILA DE FÁTIMA

PARTE I - A MANHÃ

1 - AS BOAS NOTÍCIAS NÃO TEM PRESSA PARA CHEGAR

OS OLHOS DO DELEGADO Vieira acarinharam o gabinete que por tanto tempo lhe servira, e seu cérebro reviu passo a passo, que massa encefálica, ainda mais a dele, não faz nada por inteiro e sim por etapas, avaliando o seu papel de delegado por 30 anos na Vila de Fátima,  denominado de subdistrito, pouco mais que um povoado, esquecido por Deus e pelo mundo, longe de tudo e de todos, terra onde muito se tem pra falar por ter pouco ou nada a fazer e onde função de delegado é apartar briga de bêbados, intriga de marido e mulher, esfriar os ânimos de casais embrenhados nos matagais ou praças públicas quando esses fatos ocorriam, o que era uma raridade, pois nesse terreiro de chão batido, ou pela presença da autoridade ou por ser da natureza do próprio povo, nem isso acontecia.

O único incidente que culminara no linchamento do cigano Juan, embora ocorrido há menos de dez anos, estava guardado dentro da memória, num local reservado a um passado distante, enterrado sob a cruz em frente a igreja e na sesta diária do meio dia a uma.
Em cima da mesa do delegado, um envelope todo amassado, carimbado com digitais invisíveis de não sei quantas mãos que permitiram o prosseguimento da sua viagem desde o início da postagem até hoje, a  data da entrega, exatamente um mês e dois dias depois, trazia  em seu bojo a missão de avisá-lo a partir do dia tal do mês tal do ano tal e tal, vossa excelência está exonerado de suas funções como delegado de Vila de Fátima, petê, motivo aposentadoria, petê, cordiais saudações, petê, agradecimentos, etecetera, etecetera,  e veja só esse monte de tal e tal era justamente o dia de hoje.
Delegado Vieira fora pego de surpresa: como, a partir de amanhã, juntar-se à turma da beira do rio, pescando mentiras e lambaris do passado que volta e meia enroscam no anzol da memória? Onde já se viu uma simples carta demorar mais de um  mês para chegar? Se tivessem mandado um mensageiro manco da língua e da perna, rastejando ou andando de trás para frente, há muito teria recebido o comunicado e se preparado para esse dia, mas conformou-se e pouco resmungou, tratando de acostumar-se  com a situação. Afinal, cidade do interior é assim mesmo: tudo, até as notícias demoram a chegar, nada está por perto quando mais se precisa e quando menos se espera, chega uma visita que demora a se despachar e se as autoridades da capital lembraram dele, deveria sentir-se honrado, mesmo que há tanto tempo tivesse entrado com o pedido da aposentadoria, mas processos são assim mesmo e ele, como representante da lei, tinha que saber e respeitar essas coisas mais que ninguém.
Foi empilhando um a um os processos amassados, memorandos, comunicados, avisos, leis municipais, estaduais, federais, cartões de aniversários, Natais, Páscoas, convites, além dos livros e revistas que acumulara, todos eles lidos e relidos ou na falta de outras atividades ou porque gostava mesmo, sei lá, mas quando não estava em patrulha diária, que fazia em 20 minutos em marcha lenta,  tamanha a dimensão  da sua responsabilidade e ordem, lia, lia muito e jogava xadrez com cabo Solto a quem ensinara os primeiros movimentos e hoje, muitas vezes chegara até a perder do soldado. Ou o moleque estava ficando esperto, o que duvidava, ou ele estava envelhecendo, não sabia, assim como não sabia como acumulara tanta tranqueira, e  num impulso só arrancou as três gavetas da mesa e as coisas que estavam presas no fundo caíram levantando uma preguiçosa poeira fina e despertando do sono de 30 anos .
Colocando-as de boca para baixo, derramou o seu conteúdo sobre a mesa e com  calma passou a examinar meticulosamente cada coisa que até aquele momento estivera esquecido. Chamou-lhe a atenção a segunda gaveta, de bunda virada para cima e de barriga  vazia. Um nó subiu pela boca do estômago e veio travar na garganta quando percebeu  um dos lados, justamente a que ficava virado para dentro da mesa, fazendo concavidade, o tamanho exato da sua botina onde repousara seu pé durante 30 anos, um desenho que natureza alguma vai desmontar ou refazer, onde, a partir de amanhã, um  outro pé vai se encostar aqui.
Pegou aquela parte extirpada da mesa e voltando-a de boca pra cima de novo, passou a devolver-lhe o que a ela pertencera. Depois eu mando cabo Solto levar para casa, tenho tempo para arrumar tudo daqui pra frente, como se até aquele momento não tivesse tido esse tempo. A  gaveta, bem, a gaveta, eu digo que depois eu devolvo, ou melhor, não devolvo coisa nenhuma que esta é minha e o próximo delegado que traga uma para também carimbar seu pé.
Retirou com cuidado o revólver calibre 38, ainda com a mesma bala no tambor quando recebera do seu antecessor, como era mesmo o nome dele, sem sequer ter dado um único tiro até aquele momento.
Assim fora seu mandato, sem incidente nenhum, mas também sem nenhuma medalha, comenda ou diploma, uma carreira intacta como aquela agenda que Soninha lhe trouxera quando viajara para capital com a mãe, vindo no fundo da mala com a dedicatória em letras trêmulas, te amo papai. Agenda que depois disso nunca mais viu a cor da tinta de uma caneta, mas também, pra que marcar o que está na rotina e na retina? Mas agora sim, as coisas iam mudar, pois a partir de amanhã ia deixar de ser delegado pra ser pai, marido, se preocupar com o casamento de Soninha, que, com quase 20 anos, ou 18, ou 19, era ruim de fazer contas, ainda sem um namorado, enquanto meninas e meninos mais novos já se embrenhavam pelos matagais. É sina de filha de delegado,  todo mundo tem medo, queixava se ela, mas a verdade  é que homem mais simples  que Vieira não havia no mundo e sua maior repreensão era um tapinha nas costas, não faça mais isso, viu, e a cadeia era usada, quando usada, a pedido do próprio povo, encana seu delegado que ele merece e pronto, encanava, mas muitas vezes deixava de trancar a porta e no máximo no dia seguinte a cela estava vazia.
Vieira, enquanto pai não queria admitir mas Soninha não tinha como empecilho a sua profissão, mas a total falta de um mínimo de beleza que a mais feia das mulheres têm. Além disso era dada a desmaios histéricos em locais públicos quando algo não lhe agradava, arrancava os cabelos, rasgava as roupas, o que ninguém olhava, menos por respeito do que por falta do que olhar.
Se uma idéia puxa a outra e para cada preocupação existe uma solução, quem sabe unindo a necessidade matrimonial de Soninha com o apreço que tinha por Solto, que desde moleque, moleque que nada, bebezinho ainda de dias de vida quando o adotara. Seu delegado, toma conta do menino, assim dissera a mãe, pois o pai morreu deixando para a viúva e o recém nascido somente um rádio ligado e algumas dívidas. Depois disso a mãe, só Deus sabe, se é que sabe, onde foi parar. Eu volto quando melhorar de vida e assim foi e assim deve estar sendo porque até hoje nunca mais mandou notícias, ninguém sabe de nada a não ser que delegado Vieira, recém casado, se viu com um distrito inteiro e uma criança pra cuidar, embora os dois coubessem na palma da mão. Sua mulher, dona Esmeraldina, de nada falou, acolhendo o menino  com  indiferença, tratando de alimentá-lo para não morrer de fome e só. Vieira, pelo contrário, cuidou do menino como se fosse seu filho de verdade, mas não lembrando do nome de batismo, a não ser da família, Solto fora seu pai, solta estava sua mãe, portanto ele também seria Solto. Óbvio. Ainda não havia Soninha que só viria ao mundo depois de uns dois anos, numa noite em que todos os cães da vila ladraram fazendo tremer as paredes das casas, ainda que só se tivesse conhecimento de 3 ou 4 vira-latas que mal se agüentavam em pé. Foi nessa noite que, ainda pequeno, Solto, futuro cabo, segundo testemunhas, saiu a andar pela casa, de quatro que ainda não tinha adquirido forças nas perninhas raquíticas, olhos faiscando como duas lanternas, aproximou-se do berço, onde estarrecidos pela feiúra da menina todos tentavam tomar fôlego, onde, a mãe, de nada falou, que da cria, não se acha defeito nem tampouco o pai, pelo motivo mesmo e a parteira por educação e  olhando para a recém nascida exclamou :
- Você é linda ! ! !
Cresceram os dois sob o mesmo teto, como irmãos, sem manifestações de grandes intimidades, cada um do seu lado, falando pouco entre eles, Soninha por opção e Solto por falta de assunto, este tratando Vieira por senhor delegado, nunca usando a palavra pai ou padrasto ou mesmo padrinho, que se usasse, seria falso.
Vieira só soube que o menino era meio leso da cabeça quando, na entrada da sua adolescência, as mães da vila começaram a reclamar do sumiço das latas de leite condensado das suas cozinhas, ingrediente este muito usado na época e na região para preparo de doces diversos que delegado Vieira em particular se empanturrava nas sobremesas de domingo. Desaparecimento envolto em mistério, até que um dia, um menino, mais velho que Solto, por descuido de si ou do destino, caiu na calçada e se feriu ainda que sem gravidade, um corte à toa, com a lata de leite condensado que levava escondida debaixo da camisa. No vai-vem das perguntas, um pingo de água oxigenada para limpar o ferimento, outro de metiolate para esterilizar o machucado e a memória e a língua do menino se voltaram para trás do muro da escola, onde, segundo ele, meninos de todas as idades, maiores ou menores, faziam fila com a lata de leite na mão, em frente ao molecote Solto que sentado ao chão esperava cada um descer a braguilha, derramar o leite no pintinho, alguns já virando cara** como se diz no meio popular com pelo no saco e tudo e assim ia passando a língua no leite derramado, enquanto os outros pacientemente esperavam cada qual com a sua lata, numa organização nunca vista. Do falado pelo menino machucado à constatação dos fatos, ficou uma brecha e nunca se soube da verdadeira história da tal união do doce com o prazer, ou porque tudo fosse invenção, ou porque pela manobra  dos  mais  velhos a roda, ou melhor, a fila foi  desfeita  antes da chegada dos adultos e logicamente  Solto  nada falou e também nada a ele perguntaram, tampouco os outros, supostos participantes foram interrogados, vergonha dessas nem se comenta, melhor deixar pra lá. Só as sobremesas doces foram substituídas por salgadas e outras guloseimas que não levassem leite condensado em sua receita.
Mesmo sem nada esclarecido, delegado Vieira procurou    consolar-se pensando que gosto é como c* e cada um tem o seu, como diz a boca do povo, e afinal aquele não era seu filho legítimo, mas assim mesmo a responsabilidade da cria pesou e tentou mostrar para todo mundo que Solto era macho sim, por isso ia ser, veja só, soldado, um valente batalhador da ordem e da justiça, seu braço direito, o seu homem forte. A verdade que Vieira não confessava nem para seu travesseiro era que depois de tanto pensar e procurar ocupação para Solto, só achou como alternativa a profissão de soldado, veja bem por que: num vilarejo tão pacato como aquele, sem grandes ocorrências, o Q.I. de um Solto seria  suficiente. Além do mais Vieira estaria sempre por perto, pois mesmo que quisesse seria impossível estar longe de alguma coisa naquelas paragens.

Eugenio Asano
Enviado por Eugenio Asano em 24/03/2005
Código do texto: T7642
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Eugenio Asano
Guarulhos - São Paulo - Brasil, 59 anos
9 textos (336 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 27/09/16 02:18)