MENOS QUE A MORTE

De Gilson Vasco

Dedicado a Vitor Ryan e Heric Vieira

“É preciso bem menos que a morte para matar um homem.”

(Friedrich Nietzsche)

Funeral

Emudecido, consternado, cabisbaixo, abatido e fechado dentro de si mesmo, estava prostrado há horas, na mesma posição, aos pés do caixão aberto do penúltimo amigo que lhe restara na vida, enquanto demais presentes no velório iam e voltavam riscando o piso em porcelanato da sala contígua ao cemitério, preparada para aquela cerimônia fúnebre. Depois do espírito do morto que, provavelmente ainda continuava presente e o observava de outra dimensão, talvez eu fosse o único a notá-lo ali, mas qualquer outro que o visse assim diria que continuaria à beira do caixão até os últimos instantes do sepultamento do falecido, marcado para o início da noite que já dava seus primeiros sinais.

Não fora de todo em vida uma pessoa ruim, nem célebre, tampouco santa, mas se dependesse do amigo, a cerimônia do último adeus do morto teria sido realizada no palácio do governo ou no salão nobre de outra instituição pública, com direito a editoriais reservados em todos os veículos de comunicação para a manchete do falecimento, já que em vida não fazia outra coisa, senão querer se mostrar para o mundo, ainda que para isso fosse necessário abrir mão daquilo que não lhe era útil no momento. Largado custeou todos os gastos, sem reclamar de nada e não fez questão alguma que alguém além de mim soubesse que fora ele o responsável por toda a preparação do velório do amigo Odibixe.

O luxuoso caixão de madeira fina de mogno, com alças em ouro maciço e internamente acolchoado com os mais sofisticados tecidos de brancura em neve foi transportado da funerária para a sala de velório numa limusine preta adaptada, alugada para o serviço fúnebre e durante todo o velório, a cada trinta ou quarenta minutos um entregador de alguma floricultura deixava exposta pela sala mais uma monstruosa coroa de flores com dizeres do tipo: “Ao melhor amigo do mundo.”, “Brilha uma nova estrela no céu!” “Você sempre estará presente em nossos corações.” “Foi uma honra contar com a sua amizade.”. Muitas, os familiares nem chegavam, a saber, quem havia mandado, mas recebiam cordialmente, pois era sinal de que o ente querido havia plantado muitas sementes de amizades — ou alguém quis fazer o velório parecer de alguém muito conhecido. Fragrâncias aromatizavam a sala ornamentada, deixando o ambiente confortável e com a sensação de bem-estar, se é que alguém consiga se sentir bem numa sala de funeral com o corpo do morto esticado num caixão.

Os últimos minutos do funeral e prestes a chegar o momento do enterro alguns presentes começaram a prestar suas últimas homenagens ao falecido, haja vista que aquela era a última vez em que o finado participaria de um evento social na presença dos familiares e amigos.

Quando em vida, o falecido era frequentador de todas as boates, casas de shows, cabarés e bares espalhados pela cidade, mas os discursos eram cristãos. Paulo Cruz, um dos amigos que sempre o acompanhou nas noitadas boêmias, escolhido para abrir os discursos do fim do velório se posicionou a beira do caixão e citou um versículo bíblico de Eclesiastes, muito usado nos funerais:

— Meu grande e eterno amigo Odibixe, você gostava de viver a vida no acelerado, sempre se colocando ocupado demais para apreciar os momentos, apressado pela conquista daquilo que o fazia viver intensamente feliz saiba que “tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu. Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou; tempo de matar, e tempo de curar; tempo de derrubar, e tempo de edificar; tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de dançar” e hoje, meu amigo, é tempo da inevitabilidade, tempo de você ir e deixar o nosso coração mergulhado nas larvas da saudade.

Marcelo Xisto, outro amigo, com um versículo decorado de Tessalonicenses tomou a palavra para dizer que o tempo de morrer vem para todos e que aquele momento era um tempo de chorar pela perda do amigo, mas também que a morte não é o fim, e sim um momento, um novo recomeço:

— “Irmãos, não queremos que vocês sejam ignorantes quanto aos que dormem, para que não se entristeçam como os outros que não têm esperança”...

Olhou para Largado, fez uma pausa e continuou:

— “Se cremos que Jesus morreu e ressurgiu, cremos também que Deus trará, mediante Jesus e com ele, aqueles que nele dormiram.” Sendo assim, meu amigo Odibixe, qualquer dia desses voltaremos a nos encontrar, não aqui, mas em outro plano.

Parafraseando Salmos e citando à risca Eclesiastes, Pirraça, outro amigo de Odibixe que não perdia um churrasco e nunca comparecera a um velório antes fechou as homenagens tentando confortar a família do falecido:

— Os dias deste homem foram como as ervas dos campos que após florescerem se vão com os ventos para lugar desconhecido. Trinta e poucos anos ainda não era o dia de ir, mas como o amigo Paulo Cruz antecipou, nosso amigo Odibixe escolheu viver às pressas e, talvez, tivesse pressa de ir para deixar nossos corações transbordados de saudade, pois antes mesmo de vir para esta última despedida meu peito já estava cheio de nostalgia, mas jamais sentirei tristeza, pois, “melhor é ir à casa onde há luto do que ir à casa onde há banquete, porque naquela está o fim de todos os homens, e os vivos o aplicam ao seu coração.”.

Terminado as últimas homenagens concomitantes com o fim do funeral, Largado ergueu a cabeça, suspendeu as vistas, fixou seu olhar para a face do defunto e cedeu espaço para que o caixão fosse fechado. Fiz o mesmo gesto sabido de que aquela seria a última vez que eu viria aquele rosto. Percebi a face do morto como se estivesse num sono tranquilo e profundo. Parecia mais vistoso que o semblante contristado de Largado. Em seguida, o caixão foi tapado, levado ao cemitério e guardado o corpo de Odibixe num mausoléu, ao som de violinos, chuva de pétalas de rosas brancas, revoadas de pombos-correios e aplausos dos presentes.

Ao perceber os últimos saírem das imediações do jazigo eu também fui me afastando... Trombei com Largado e deixei meus braços caírem sobre os seus ombros e, abraçados, continuamos caminhando, a fim de sairmos logo daquele cemitério, sem um nada dizer ao outro. Não que não tivéssemos nada para dizer, mas simplesmente por não necessitar. Cada um ali sabia a dor do outro em seu profundo existir, em sua densa perda. Odiávamos funerais. Nós nos separamos num gesto de despedida temporária, sabíamos que muito em breve voltaríamos a nos ver. Continuei a passos largos no corredor principal e Largado contornou uma tumba como quem quisesse encurtar ainda mais o caminho. Fez bem, cruzou a linha de saída do cemitério com vantagem de segundos em relação a mim e, logo, sumiu. Eu o teria acompanhado, caso não o conhecesse tão bem, mas sabia que aquele era o momento de ele ficar só, ainda que somente por algumas horas.

Angústia

No outro dia, logo cedo, quando os primeiros raios solares deram as caras reluzindo a relva, fui à casa de Largado e, como sempre, o encontrei jogado sobre uma cadeira de balanço, num movimento maquinal, com o vaivém automático da cadeira, no alpendre de sua casa, num olhar extasiado, vagueando pelas vastas ondas dos trigais em lençóis dourados. Era angustiante vê-lo assim dominado pela amargura. Não fora somente a morte do amigo Odibixe que o deixara entristecido, vivia assim desde a traição. Bem diferente de quando o encontrei pela primeira vez, anos atrás, sorridente, saltitante, bem vestido, barba feita, cabelos cortados e unhas aparadas, à beira da Fonte dos Milagres, com uma das mãos tapando os olhos e a outra a lançar moedas de prata no poço dos desejos, depois de pedidos mentais que somente ele e, talvez, os deuses compreendessem as razões ou necessidades de receber um doce beijo da sorte, quando finalmente suas aspirações cavalgassem até os montes dos deuses e fossem registradas no livro das realizações. Na época eu já tinha fé, acreditava em milagres, mas já tinha tomado consciência de que minha sorte nascera para fazer oposição a mim. Pouco ou nada me importei, ora. E quem tem fé precisa de sorte? Ri da atitude do desconhecido, enquanto ele ria da ausência de sorte em mim. Tinha vindo de muito longe, andado durante dias e noites, vencido sol e chuva, enfrentado seus medos, atravessando vales e matas e, quando percebi ali, havia terminado de completar aquela primeira jornada simplesmente para perguntar aos deuses se eles realmente se importavam com ele. Rendeu-se à calmaria do lugar e resolveu residir por ali.

Eu continuava sem saber se os deuses haviam escutado as preces do amigo, mas sabia que nos últimos anos mais ninguém o ouvia, tanto quanto ele queria dizer. Eu sei que durante muito tempo ele viu milhares de outros desejos deitados sobre o poço dos desejos e fez tantos outros pedidos, mas nunca fora capaz de receber alguma menção dos deuses sobre a providência para com seus pedidos. Parecia muito certo das conquistas. Lançavam as moedas e antes mesmo de uma resposta onipotente continuava a sua travessia na esperança de encontrar o seu refúgio, e, agora, à beira de perder toda a esperança acumulada na sorte, durante anos, nem perto da fonte passava mais. Só levantou daquela cadeira para organizar o funeral do amigo e se fazer presente durante todo o velório.

Adentrei a casa, risquei o fósforo, acendi a chama, aqueci a água, passei um café e lhe ofereci uma xícara. Freou com os pés a cadeira. Aceitou. Nunca recusara uma dose de café ofertada pelas minhas mãos. Repetiu mais duas xícaras. Ficou muito bom. Estava doce, o café. Sua vida parecia amarga. A minha não sei. Só queria mesmo era estar ali. Não era uma ida casual. Sempre que podia eu o visitava, mas com a perda repentina do amigo eu sabia que sua tristeza havia aumentado muito. Já sabia disso e fui lá tão cedo justamente porque sabia disso. Sempre me dizia que amigo verdadeiro era aquele que chegava depois de todos os que se fantasiavam ter ido embora. Eu tinha mais era que estar ali mesmo. Ainda que em total silêncio, ainda que ele começasse a se queixar da própria sorte, ou da falta dela. Ora, se se abrisse comigo era porque confiava em mim. Sabia que a qualquer hora ele começaria a se abrir. Esperei. Esperei silenciosamente. Dois amigos emudecidos, mesmo com um mundo infinito de palavras preso na garganta esperando a liberdade. Como as inflorescências dos trigos em volta à sua moradia, aguardavam o nascer do sol para começar a reluzir no infinito da plantação eu o esperei. Esperei mais que o esperado, só então, começou:

— Tudo converge para a minha morte. Não que o meu corpo esteja doente. A menos que essa estreiteza no peito e o tormento na alma sejam uma alteração biológica do meu estado de saúde numa incessante tentativa de interrupção definitiva da vida deste organismo miserável. Eu sei que o mundo se tornou um lugar ruim, terrível para viver, mas eu preciso continuar respirando para não morrer antes de ter terminado a minha jornada...

Já era a quinta vez que ele me dizia isso e acho que dizia somente para mim porque não era de viver reclamando do destino para ninguém e penso que o fato de dizer isso para mim era porque eu era o único ser neste mundo em quem ele confiava e com o qual ele poderia contar. Havia acostumado a viver só e, por muito tempo, vagueava na certeza de que não estava morto, mas realmente se parecia abandonado, esquecido ou nunca lembrado pelos deuses da Fonte dos Milagres, comedores de moedas. Largado estava acabado e se não tivesse se acabando, seu fim nada demoraria. Era como se depois de certo tempo tivesse sido condenado a escolher a ficar preso com a angústia, andar sempre do lado errado da pista ao longo de sua vida ou seguir do lado do caminho, onde ficam todas as rachaduras para facilitarem os tropeços de quem agora vivia demasiadamente sem sorte, infeliz, desgraçado.

Caso ainda restasse algo ao seu favor, talvez, fosse somente a fé, pois com a sorte já não mais contava. Já havia tido fé também, mas há muito passara a creditar todas as esperanças na sorte. Suas estradas eram longas, os dias acinzentados e as noites escuras demais para quem vivia sem luz, num cemitério de incertezas. Seu coração era leve, mas sua carga era monstruosamente pesada. Talvez, o caminho mais curto fosse a morte, realmente. Sim verdade. Nunca passou pela minha cabeça desejar a morte dos outros, ainda que fossem meus piores inimigos, mas era depressivo demais vê-lo naquela angústia alguém que eu havia conhecido em felicidade plena. Só acho que todo mundo necessita de um descanso depois de carregar um fardo por estradas sinuosas, e se o descanso precisa ser compatível com a carga de cada um, aquele solitário precisava de um descansar eterno. Sim. Antes, quando o conheci não parava quieto um minuto e agora, passados alguns anos, após ser amordaçado pela felonia de um amigo, ficava ali a mercê do vaivém daquela cadeira, como quem não pudesse se mover; como quem não pudesse seguir na direção que sua imaginação o impelia; como quem tivesse nascido para navegar, mas agora estivesse preso a um oceano perdido, de olhos vendados, numa corredeira turbulenta, num barco a deriva... Condenado a amadurecer inerte ou, então, a ser ceifado como o trigo maduro. Não era eu quem estava desejando a sua morte. A verdade é que Largado rastejava de tristeza ao extremo e os poucos seres que ainda lhe olhavam notavam a angústia sentida como se visse a dor da morte se aproximar daquele ser. Vê-lo ali parado a observar aqueles trigais entregues ao bailar dos ventos e ao reluzir do sol de ouro parecia alimentar dentro de si um pensamento inconsciente de fuga. Há muito havia fugido para dentro de si, mas agora parecia querer fugir de si mesmo. Parecia sentir uma dor tão forte no seu interior ao ponto de transbordá-lo atingindo quem o olhasse, uma dor interior tão incontrolável ao ponto de sugar sua alma expulsando-a para fora do corpo, naquele instante.

Estava certo. Seu corpo não estava doente. Estava inerte. Era sua alma quem não mais queria sentir o sabor do viver em plenitude e implorava ao paladar a apreciar o sabor da morte graciosa, vinda num sussurro pairando levemente sobre o corpo imóvel daquele angustiado, deslizando no pensamento de Largado, delicadamente como os lábios que compartilham o mais doce dos beijos. Acho que só não tinha tentado um suicídio ainda porque alimentava um desejo que o obrigava a aspirar uma última viagem, como se essa viagem fosse o último dos passos para o fim da sua jornada, mas daquele jeito, sabia que a hora estava tarde, as noites escuras demais e as estradas solitárias para fazer a travessia. Sua vida afluía para uma excursão sôfrega ao fim da linha, à morte numa travessia por entre vales, colinas e matas. Com o desespero beirando o insuportável, a cada dia, o sofrimento emocional parecia ficar mais intenso e viver para Largado estava se tornando um fardo pesado e angustiante demais. A verdade é que o mundo ao seu redor já tinha se tornado insosso e a vida para ele já havia perdido todo o sentido. O caminho mais curto para escapar daquela sensação de dor e de impotência era a morte. Começara a ver na morte um passaporte para uma nova vida. O suicídio, para ele, parecia ser sua última cartada, o xeque-mate contra o sofrimento.

Depois da felonia do amigo que se fora, Largado preferia morrer de um só golpe a agonizar durante toda a vida, por isso, não mais temia a morte, não mais se preocupara com a ausência do viver, e, ainda não partira de todo, porque estava preso a tantos problemas para resolver primeiro antes de partir, porém, vivia a morte a cada dia, de maneira que grande parte dela já havia ficado para trás. Para que continuar a vegetar? Talvez, melhor fosse receber a visita definitiva da morte, pelo menos, ela, se viesse, seria mais nobre que o amigo impiedoso, pois a morte somente lhe tiraria a vida e o amigo impiedoso lhe arrancou bem mais. Largado vivia numa depreciação tamanha capaz de arrancar lágrimas de sangue do mais sarcástico e impetuoso transgressor. E como num império de zumbis, no qual o contato com os fluidos do morto-vivo passa adiante o vírus, via mordida, eu estava começando a ser mordido por Largado. Sofria uma dor pelas dores do amigo, e, ninguém — a não serem os deuses —, sabia dizer ao certo quem de nós dois seguia rumo melhor: se eu, em busca da permanência da vida, ou se ele, à procura do seu próprio fim. Evidente era a necessidade de uma tomada de decisão, evidente era a chegada do momento da partida: fosse eu para a morte, ele para a vida, ou que fosse eu para a vida e ele para a morte. Já não havia mais tempo para ficar sem decidir.

Se pela manhã vívida o encontrei triste feito uma tarde em neblina, na hora mais escura da noite, quando nos despedimos, o deixei ainda com aquela cortina cinza nos olhos feito uma estação chuvosa. Comum. Há anos era assim. Há anos estava assim. Somente uma quase imperceptível inquietude nos ombros e uma fixação nos olhos, como se tivesse um olhar há um milhão de milhas de distância dali ou como quem viu uma visão ou descoberto algo que somente as almas solitárias sabem e não acham certo revelar a outrem, me deixou naturalmente certo de que, talvez, agora fosse eu quem tivesse um velório para preparar. Nem milagre o livraria do fim naquela noite, não que eu não acredite em milagres, milagres acontecem se você deixar, se você deixar, somente se você deixar, mas Largado não mais deixaria, nem mesmo se permitia mais colocar estrelas nos seus olhos, nem mesmo para tirar o coração das trevas, daquela escuridão, ora, há muito a angústia o transformara numa pergunta sem resposta e agora a sua hora já estava tarde. Todos os sonhos já estavam encharcados, todas as estrelas dos seus olhos já haviam se apagadas, nublado todo o seu sol e secado todo o pó da lua, antes borrifado pelas suas estradas de prata, talvez, a única manifestação colorida para Largado agora seria algumas poucas flores em seu túmulo frio. Mas queria morrer sozinho, sem a presença do último amigo. Talvez, quisesse privar-me de eu ser espectador do seu último suspiro, porque para ele eu era o amigo verdadeiro, aquele que chega quando todos já foram embora. Fui. Fui sabendo que teria que voltar ao romper de algumas horas para o último adeus ao amigo. Fui. E fui numa certeza que, há muito, Largado já estava morto, como alguém que morrendo e, ficando visivelmente com aparência abatida e desconfigurada, fora privado do descanso eterno.

A traição

Há anos eu vinha preocupado com o estado de angústia do amigo Largado, mas uma espécie de clarividência, um sexto sentido prenunciava algo por acontecer! Seria o fim em definitivo de Largado? Talvez. Afinal, a hora da sua partida já estava atrasada demais, para quem não mais sabia o que era viver. Cerrei as portas, apaguei as luzes e me deitei para dormir, mas o pensamento sobre o fim de Largado me roubou o sono. Não posso dizer que passei a noite em claro, porque eu estava começando a viver nas trevas, pela dor do amigo...

Quando ali, nos trigais, cheguei pela manhã, as trevas já havia cedido o território universal para o reinado temporário da aurora e não muito demorou em a natureza começar a celebrar com abundância o nascer do sol, em seu mais autêntico esplendor, em sua mais bela forma, derramando um pano de fundo perfeito, tingido com tons de amarelo, laranja e vermelho do amanhecer do solstício de verão, todo o meu redor e tudo mais que a minha visão pudesse alcançar. Tinha pressa para atingir a residência de Largado para certificar de que o amigo expirara naquela noite, mas fui fascinado, por alguns instantes, pelo mais lindo amanhecer do mundo!

Enquanto o sol cortava o horizonte e navalhava as nuvens prateadas, espalhando o colorido pelo céu, a luz da manhã sangrava em tons reluzentes os trigais que bailavam uniformemente coreografados pelos ventos, lembrando uma terra de ouro, ainda meio escurecida, mas contagiante. Parei para continuar contemplando a luz do sol que continuara a se mostrar para o mundo, agora, mais majestosa ainda, quase descobrindo o horizonte e me enchendo de sensações. Fui magnetizado pela paisagem em tons de laranja, amarelo e vermelho, semeando as silhuetas pela plantação a perder de vista. Por alguns instantes, negligenciei Largado e seus pesares e continuei sendo espectador do mais lindo cenário visto por mim até aquele momento. Não era novidade visitar Largado, mas sempre que ia era sempre mais tarde. Tivesse descoberto aquele cenário antes, há muito, teria montado um acampamento eterno em meio aqueles trigais somente para apreciar aquela paisagem matinal em reluzentes fios de ouro a se movimentar em ondas douradas, incitando seus pendões maduros a se dobrarem num lamentoso bailar, sob o toque suave dos ventos nostálgicos, das manhãs alaranjadas do verão.

Como poderia um ser dotado de privilégios do contato com cenários tão lindos viver profundamente mergulhado em trevas? O que levara, de fato, um ser antes tão alegre e iluminado, a ser condenado a viver em profunda escuridão, às margens do mais belo amanhecer? Continuei magnetizado pelas nuances matinais, à espera das respostas para as perguntas que eu mesmo as fiz, e, quando os primeiros raios solares incidiam por entre as nuvens fazendo evaporar dos arbustos as gotas do orvalho, a luz solar começou a dissolver por todo o mundo e todas as cores se juntaram harmonicamente num intenso brilho azul, delineando a estação.

Dei continuidade à aproximação dos aposentos do amigo Largado. Provavelmente passara a noite, como sempre, jogado sobre a cadeira de balanço, no alpendre da moradia e, agora, morrera, em definitivo, ao alvorecer. Até porque, repito que Largado já estava morto, como alguém que morrendo e, ficando visivelmente com aparência abatida e desconfigurada, fora privado do descanso eterno. A desilusão causada pelo amigo o acostumara a ser solitário e a se sentir num navio à deriva no meio de um oceano perdido, a um milhão de milhas de distância de si.

Aproximei a passos rápidos, ao notar uma possível ausência do suposto falecido, e, tamanha foi minha surpresa: Largado não estava em posição mortal sobre sua cadeira! Largado não estava sobre sua cadeira! Largado não estava nem morto-vivo, nem vivo-morto, sobre sua cadeira! Sondei os olhos em toda a extensão do alpendre, em vão; levantei a vista pelos arredores externos, também nada vi; percebi a porta frontal entre aberta, forcei-a, um pouco mais e fiquei à espreita por alguns segundos, mas nada adiantou; e, só então, dei início a uma série de chamamentos, na esperança de obter uma resposta do amigo Largado:

— Largado! Largado! Largado! Largado...

Nenhum sinal de algum sobrevivente.

— Passou uma vida não-vivida inerte numa cadeira que não era de rodas e nos últimos acréscimos do segundo tempo da prorrogação decide se levantar para expirar noutro assento! — disse eu num tom de murmúrio, como quando um amigo se vai para sempre e o outro não tem mais o que dizer.

Fui adentrando com um nó na garganta, sintomático ao falecimento de um amigo que, todo o tempo, fora fiel com todos e caluniado por Odibixe. Desde quando o conheci se faltara com a fidelidade, alguma vez, fora consigo mesmo. Abriria mão de sua própria vida em prol da continuidade de outrem. Há muitos anos morrera para deixar viver o amigo Odibixe.

Estacionei. Estacionei num movimento travado, maquinado e automatizado... Não pude adentrar. Desde quando o conheci e passei a frequentar a sua casa, anos atrás, aquela foi a primeira vez que não consegui adentrá-la. Muitas vezes, era eu a passar o primeiro e único café do dia, naquela casa e, agora que, daria a vida para passar um último café e ver meu amigo degustar com grandes goles duas ou três xícaras de um líquido ralo e faltoso de doce sem reclamar, não tive ânimo para adentrá-la!

Ainda segurando o trinco, voltei de ré, puxei a porta, cerrei-a, forçando o trinco para baixo e para cima, várias vezes, como quem quisesse e não quisesse sair ou ficar. Sabia que eu necessitava organizar um velório, sabia que a função de preparar aquele funeral fora confiada ao último dos amigos do falecido — e eu mesmo teria feito a solicitação para cuidar de tudo, caso a missão não tivesse sido anteriormente incumbida a mim, somente para ter certeza de que o amigo partiria com dignidade. Nunca fora exibicionista, respeitava o comportamento ostentador de Odibixe, sem alimentar a fogueira da vaidade do amigo, mas sempre fora extremamente discreto e reservado, mesmo quando externava a sua alegria ao lançar moedas de prata no poço dos desejos.

Ele já conhecia Odibixe, quando eu os conheci. Largado muito o admirava, lhe confiava os mais profundos segredos e o tinha como um irmão de verdade. Admirava Odibixe, ao ponto de elogiá-lo para toda a nata social quando Odibixe o acompanhava para as reuniões oficiais que Largado comparecia para tratar de negócios formais e para a massa periférica em todas as festas, encontros e eventos organizados por Largado para desenvolver trabalhos comunitários voluntários aos menos favorecidos. Odibixe já era geneticamente prestativo e aprendeu a ser mais solidário ainda com Largado, aliás, foi a espontaneidade de Odibixe o principal gatilho acionador da grande confiança nele depositada pelo amigo Largado.

No início da amizade, entre Largado e Odibixe, aonde ia um estava também o outro, feitos gêmeos que nasceram ligados e se fossem separados um morreria, aos poucos, ao ponto de muitos questionarem se o que ligavam os dois era a consanguinidade.

— Não. Não é. Não somos irmãos de sangue, mas, caso fôssemos, talvez, não seríamos tão ligados assim. Nem as inúmeras moedas de prata lançadas no poço dos desejos, caso me mande um efeito contrário serão capazes de tornar infecunda a nossa amizade. Tenho em Odibixe um irmão muito bondoso! — respondia Largado.

Era perceptível o brilho de felicidade no olhar de Largado ao falar do orgulho pela amizade de Odibixe. Portava-se como se comporta um rei que, ao voltar de uma guerra, da qual fora vencedor, encontra todo o seu castelo em festa.

Passei pela cadeira, a dançar num vaivém desabitado, olhei-a por sobre os ombros e a deixei a movimentar-se solitária. Alcancei os fundos da residência, enquanto tomava coragem para o inevitável: adentrar a casa e iniciar os preparativos para o funeral. A porta dos fundos também estava entreaberta. Era por ali que, pela primeira vez eu iria entrar. E teria entrado de pronto, não fosse a percepção de movimentação e barulho se aproximar. Por um momento cheguei a pensar que eu já tivesse acionado os serviços funerários e que aquele quebrador do silêncio fosse o pessoal dos serviços fúnebres, mas lembrei-me que eu nem mesmo tinha iniciado os chamados. Teria Largado tomado ciência de sua inevitável partida eterna naquele alvorecer e ele mesmo tratado de acionar os serviços funerários no dia anterior? Teria tido o mesmo senso clarividente que eu e tratado de diminuir os trabalhos para seu último amigo que tinha por perto? Não! Eram veículos demasiadamente barulhentos para um veículo convencional. Não poderiam ser veículos funerários. Eram máquinas. Gigantescas máquinas. Só poderiam...

Negligenciei Largado mais uma vez, naquela manhã, desci uma ribanceira que ligava os fundos da casa aos trigais e fui me ter no meio da plantação. À medida que eu caminhava, o barulho parecia mais nítido aos meus ouvidos, até me vir a certeza de que máquinas pesadas projetavam aqueles barulhos por todas as imediações, enquanto consumiam parte da plantação. Nada demorou em eu visualizar inúmeras colheitadeiras, engolindo os grãos do trigo, em comboio, manipuladas por homens, vindo em minha direção, como se pensasse que eu fizesse parte dos cachos a serem colhidos, ou como se aqueles cachos todos não fossem suficientes para satisfazê-las, ou ainda como se eu fizesse parte do cardápio daqueles monstros naquela manhã. Não era nenhuma surpresa. Desde quando me tornei amigo de Largado aquela cena virara rotineira. Excetuando o último ano, quando Odibixe incendiou a plantação por mera vingança a Largado, eu acompanhava as colheitas, todos os anos. O que eu não imaginava era que já estava nos dias de colher o trigo, talvez, pela incursão de tantos acontecimentos acabei ficando esquecido.

Sem saber se parava ou se corria, notei uma das colheitadeiras ter a sua velocidade reduzida drasticamente e, logo, o condutor fez um gesto para mim como se quisesse que eu fosse até ele. Não compreendi os sinais. Chamou-me três vezes em tom de gritos crescentes até conseguir fazer-me compreender o que estava acontecendo e o que ele queria.

As outras máquinas continuaram pujantes com seus motores roncando, colhendo os cachos do trigo, numa parceria entre molinetes e lâminas... Então, ziguezagueei por entre elas, sem tirar os olhos de suas plataformas que estavam em flutuação, acionadas no mais alto grau de sensibilidade, com seus cilindros e trilhas contribuindo com a separação e peneiramento, até lançar as palhas no solo e por todo o meu corpo, me deixando com aparência de jabuticabeira, quando suas flores são tocadas pela brisa e se desprendem dos galhos.

Cuspi as palhas em gestos repetitivos, limpei os lábios com a ponta da língua, sacudi os cabelos com a mão direita, esfreguei os olhos com as pontas dos dedos e, me esquivando dos monstros comedores de grãos, atingi o gigante ali parado. Olhando assim de perto, parecia se mostrar mais imponente ainda.

— É você o amigo do senhor Largado que ficou responsável pelo acompanhamento dos trabalhos das colheitas? — perguntou o maquinista.

— Responsável pelas colheitas? Eu... — tentei eu explicar que o que eu tinha era um funeral para organizar, mas o maquinista desconhecido interrompeu minhas palavras:

— Não leu o bilhete, não foi?

Confuso estava e mais confuso fiquei ainda!

— Largado deixou-o em cima da mesa dos fundos. Estava com pressa, madrugou, saiu e pediu que eu lhe dissesse para adentrar a casa e ler o recado que ele deixou em cima da mesa! — disse naturalmente, esperando qualquer outra reação minha que não fosse sair correndo, mas foi justamente o que fiz.

Ensaiei dois passos para trás, me esquivei do laminar giratório daquela plataforma, cambaleei entre os cachos maduros do trigo e campeei de volta para a residência do meu amigo. Subi o barranco quase consumido pela exaustão, abrir a porta com o peito, adentrei a casa, pulei por sobre uma poltrona, atingir a mesa, me apropriei de um papel escrito e li:

— “Amigo, mais uma vez tomo a liberdade de lhe confiar à missão de coordenar as colheitas do trigo. Das últimas vezes porque eu não me via vivendo e, agora, porque preciso partir em busca da ressurreição. Dias atrás eu já havia combinado tudo com o senhor Igor sobre o destino final dos grãos, mas preciso do amigo acompanhando de perto para termos certeza de que tudo dará certo novamente. Zele também pela casa, tudo o que tenho passa a ser do amigo até que eu volte, caso eu ainda volte. Boa sorte! Abraços.”.

Visitei todos os espaços da casa, examinei todos os armários e compartimentos e corri em direção à cadeira de balanço, somente para ter certeza de que Largado não estava desfalecido ou mesmo fisicamente morto em algum lugar. Refiz todo o percurso e repeti toda a procura, mas Largado não estava em nenhuma parte do interior daquela moradia, tampouco jogado sobre sua cadeira de balanço. Hesitei-me: sua ausência seria boa ou ruim? Se não estava ali, aonde mais poderia está? Teria se jogado em baixo de alguma daquelas máquinas?!

Abandonei a casa, venci o quintal, desci a ribanceira meio corcovado e fui procurar o maquinista em meio à plantação. Nada demorou em eu encontrá-lo. Agora fui eu a fazer o alarde, feito uma galinha que põe um ovo e sai cacarejando como se tivesse chocado uma ninhada:

— Senhor Igor! Senhor Igor! Senhor Igor! Senhor Igor!

Parei todas as colheitadeiras, sem intenção. O senhor Igor deu sinal para que os demais continuassem a trabalhar e ele reduziu a velocidade do seu veículo, parou, desceu da máquina, veio ao meu encontro e perguntou:

— Qual é o motivo desse desespero todo, homem de Deus?!

Depois de me ouvi pacientemente retrucou:

— Não percebe que Largado jamais se atiraria embaixo de um veículo, ou tentaria tirar sua própria vida, homem! Quisesse fazer isso já o teria feito há tempos e ninguém o impediria.

— Diz isso porque não compreende a dor que aquele amigo sofre... — disse eu.

— E quem mais compreende a dor de um ser, senão o próprio ser que a sente?

Em cumprimento ao ditado popular de que “quem cala consente”, concordei e continuei calado, a ouvi o senhor Igor:

— Quando chegamos aqui pela manhã, o senhor Largado já nos aguardava e até nos ofereceu um café. Só dispensamos porque somos prevenidos, trouxemos tudo: café, lanche, almoço... Depois avisou que, provavelmente, você apareceria mais tarde, como sempre faz e saiu depois das últimas recomendações, dizendo não ter dia e nem hora para voltar. Na verdade, nem deu certeza se voltaria. Descreveu suas características e lembrou-me várias vezes sobre o bilhete a ser entregue ao amigo de confiança dele e logo saiu pelo portão da frente caminhando, quer dizer, parecia mais rastejar que caminhar, mas saiu e não se matou debaixo de nenhuma máquina. Parecia mais está indo atrás da vida que da morte. Deduzi que era você assim que o vi e, por isso, avisei do recado deixado por ele.

Tranquilizei-me...

— Que bom que ele conseguiu tomar alguma atitude. Não compreendi muito bem sobre os males que ele sofre, mas o antigo gerente da empresa do maquinário deu-me excelentes recomendações sobre ele, dias antes de fecharmos o acordo do aluguel do maquinário para as colheitas, mas eu não tenho nada com isso, vou continuar os trabalhos. — concluiu.

Bem mais calmo, porém, pensativo, antes mesmo de o senhor Igor voltar para a cabine do veículo, lhe desejei boa sorte, livrei-me daquele trabalhador, dei as costas e iniciei o percurso de volta para a casa do amigo.

— Se não estava fisicamente morto em casa, nem se lançara sob uma das máquinas, por aonde andaria o homem que horas atrás estava prestes a morrer sobre uma cadeira eternizada no alpendre de sua casa?!

Eu já não sabia se estava feliz pelo amigo ter se levantado e saído pela segunda vez nos últimos dias depois de anos prostrado — uma para organizar o velório do amigo Odibixe e a outra, agora, não se sabe para quê —, ou se estava triste e preocupado sem saber que fim levara Largado. Eu já não sabia se ficava ali para cuidar de tudo como ele me confiara, ou se deixava tudo entregue ao acaso e partia em sua busca.

Enquanto adentrava à cozinha e tomava uma xícara de café preparado por Largado, fiquei a pensar:

— Aonde fora? O que fora fazer? Meu Deus! Fosse aonde fosse, não conseguiria ir muito longe, naquele estado!

Se já não estivesse morto em definitivo, talvez, estivesse a rastejar em busca do seu cemitério, feito um zumbi que, preso em uma espécie de morte em vida, vive a cambalear nos arredores dos cemitérios.

— Matarei dois coelhos com uma só paulada: estocarei todo o trigo no celeiro, cuidarei para que nenhum dos pertences do amigo se perca e partirei em busca de Largado, o quanto antes — pensei.

Eu não poderia abandona-lo, como fez Odibixe, quando o amigo mais precisou. Aliás, Odibixe nem só o traiu como o matou socialmente. O transformou num escravo, em alguém sem vontade própria, sem nome e o aprisionou numa espécie de morte em vida. Se antes Largado transbordava de alegria, Odibixe o formatou num corpo inerte de alma apodrecida, em alguém que, depois de sofrer uma morte social, se isolando de todo o mundo e de si mesmo, se entregara a uma condição de uma existência morta.

Odibixe foi se tornando amigo de Largado aos poucos. Um conheceu a família do outro e todos os membros das duas famílias se tornaram grandes amigos, mas a amizade entre os dois parecia indestrutível, até Odibixe se despertar para o lado obscuro da vida, tentando transformar seus sonhos tolos em ouro. Odibixe se perdera na escuridão e não mais conseguiu encontrar seu caminho de volta para algo verdadeiro, onde pertencesse ao mundo real. Não que tivesse tentado flutuar para se livrar do afogamento das maledicências... Influenciado por uma minoria que parecia querer viver de exterioridade falsa, Odibixe passara a transitar entre uma parte refinada da humildade geneticamente adquirida e outra parte grosseira como embusteiro. Nada demorou em encarcerar o pouco que ainda restava de humildade num cofre inútil e, de uma vez por toda, lançá-lo no calabouço de uma embarcação, à deriva, em um oceano povoado por fantasmas e demônios, sem nunca se arrepender do feito.

Para Largado tudo fora uma surpresa, mas para muitos que o conhecia bem de perto percebia em Odibixe intenções de interesses capitalistas, vaidosas e demonstração do que realmente não o era, ao ponto de quase sempre se aproximar do outro, somente para usá-lo de má fé. Usava e abusava dos amigos, feito parasita a sugar seu hospedeiro, e quando achava que aqueles amigos não lhes seriam mais úteis, os descartavam como fez com Largado e com muitos outros. Bastava não ter dinheiro para as farras e bebedeiras e se exibir para os amigos que aparecia na casa de Largado para fazer mais um empréstimo que jamais pagaria. Contudo, Largado não o abandonaria por isso. O que mais contristou Largado foi o fato de Odibixe ter se afastado de uma hora para outra, assim que conseguiu amizades tidas como mais populares, mas que na verdade, muitas viviam propositalmente do lado obscurecido da vida. Odibixe os invejavam e percebeu que Largado não apoiava as atitudes erradas do amigo. Odibixe incendiou toda a plantação de Largado, como um facínora mistura o joio no trigo e fez Largado parecer uma erva daninha, ao ponto de ser caluniado pelo amigo e passar três infindáveis anos na cela de uma prisão fria, escura e fétida, sem ter cometido crime algum.

Quando Largado ganhou a liberdade da cela, trancafiou-se dentro de si mesmo. Odibixe ainda esbanjava uma falsa fama alimentada pelos falsos amigos, pois já havia perdido todos aqueles que eram de fato verdadeiros. Faleceu aos trinta e poucos anos, enquanto azarava umas prostitutas, num bar imundo, cercado por três ou quatro daqueles que fingiam lhe serem fiéis, quando na verdade, a fidelidade dos tais estava em mais uma dose de cachaça de última categoria.

Se depois que fora caluniado, traído e abandonado por quem parecia ser um grande amigo e não fora mais que um vigarista dissimulado e ainda ter ânimo para organizar um dos mais luxuosos funerais que a cidade já tinha visto, a fim de não deixar Odibixe ser ridicularizado, já que aquela era a última vez que o finado participaria de um evento social na presença dos familiares e amigos, eu jamais deixaria Largado, uma pessoa tão generosa, se acabar por aí, longe de tudo e de todos. Então, coloquei na balança mental o que era mais importante: ficar ali parado a cuidar dos seus bens, ou deixa-lo morrer à míngua por aí em qualquer lugar.

A busca

Não perdi tempo. Apaguei as luzes, fechei cortinas e janelas, cerrei as portas e quando tudo estava organizado, guardado e seguro, saí a passos largos pelos férteis campos, em volta da casa, onde vicejavam os trigais, dobrados aos sopros dos ventos do verão, feitos ondas de ouro reluzentes ao sol dourado e, minutos depois, andando em linha reta percebi o meu cansaço. Não poderia parar, precisava encontrá-lo, o mais depressa possível. Sabia que se Largado não estivesse morto, àquela hora, seu copo estaria rastejando por caminhos desconhecidos e a sua alma perdida em devaneios. Partir em peregrinação ao amigo Largado... Não sei pela qual razão, o primeiro lugar que me veio à mente de que Largado estivesse era a Fonte dos Milagres e não perdi mais tempo...

Fui direto para o poço dos desejos. Quando atingir as imediações da Fonte dos Milagres, já estava exausto e minhas pernas ardiam em brasas, pesadas e formigantes. O clima fresco dos arredores me rejuvenesceu de maneira quase instantânea.

Várias pessoas, muitos adultos, até mesmo crianças, estavam em volta à Fonte dos Milagres, lançando moedas no poço dos desejos, num ritual sincrônico: colocavam a mão direita num dos bolsos, a outra na testa, fechavam os olhos — faziam um pedido — e jogavam uma moeda na fonte.

Fiquei alguns minutos a observar aquelas pessoas, cada uma em seu próprio mundo mágico da imaginação, talvez, esperançosas de que em poucos dias o desejo iria se realizar.

Veio-me à cabeça a imagem de um Largado de tempos atrás, jovial, amável, risonho, bem trajado, barba feita, cabelos cortados e unhas aparadas, à beira daquela Fonte dos Milagres, com uma das mãos tapando os olhos e a outra a lançar moedas, nas águas cristalinas, numa tentativa de que seus desejos pudessem ser realizados com um toque de mágica, depois de pedidos mentais que somente ele — e, talvez, os deuses — compreendesse as razões.

Olhei em pesquisa minuciosa e tive certeza do meu engano: Largado não estava ali.

Eu que passei uma vida inteira tentando subornar outros deuses — e ainda não tinha conseguido nada em troca —, pela primeira vez, na vida, resolvi confiar o pagamento antecipado por uma possível dádiva. Aproximei ainda mais da fonte, fixei um olhar desconfiado para a estátua da “divindade” que erguia sua boca gotejante do poço e fitava a todos com olhos brancos e mortiços, cegos como os olhos das aranhas e fiquei a imaginar que tipo de poder aquele ídolo dos frequentadores daquele santuário teria ao ponto de responder às preces das pessoas. Pela dúvida, lancei uma moeda de baixo valor para não correr o risco do prejuízo — cultuo Deus vivo —. Nem Largado, homem incorruptível, ingênuo e afetuoso, com tudo o que fizera, ainda não era bom o suficiente para conseguir uma intercessão daquela versão de uma divindade, imagino eu, sujeito sem sorte e blasfemador ao extremo, capaz de acreditar que, por muitos anos, Largado, fora caloteado, invés de ser retribuído de alguma forma.

— Quantas moedas seriam necessárias lançar àquela fonte, para que os deuses respondessem a uma prece? — perguntei num desvio de olhares entre a estátua e o poço soterrado por moedas.

Não obtive resposta, tampouco, insisti na indagação, não é do meu feitio aguçar a fúria dos deuses. Decidi me afastar do poço... Dei as costas, e, antes de sair de todo, atirei outra moeda de pouca importância por cima do ombro e saí.

Ainda tive tempo para perguntar a uma mulher que estava com um grupo de crianças sobre a possível presença de Largado por ali. Desconfiada, olhou-me de cima a baixo e de baixo a cima e respondeu:

— Não o conheço senhor. Pergunte ao senhor Emanuel.

Senhor Emanuel era conhecido de todos e estava passando pelas imediações do santuário, naquela hora, provavelmente com destino a uma praça com um jardim em frente à igreja, onde costumava a se sentar com uns amigos para jogar cartas.

— Senhor Emanuel! — chamei com propósito de pará-lo.

— Opa! — disse freando.

— Estou em busca do amigo Largado, o senhor o viu? — perguntei.

— Vi... — respondeu tentando prosseguir, mas interferi:

— Viu?!

— Sim. Mas não aqui... — tentou.

— Aonde, então? — perguntei.

— Rastejava pelas estradas do frigorífico abandonado. Tentei convencê-lo de voltar comigo, mas disse ter uma pendência urgente para resolver. Não sei como... — argumentou.

Interferi, agradeci, desejei boa sorte com as cartas e descambei rumo ao antigo matadouro. Uma construção muito antiga que começou a ser erguida com dinheiro público e quando estava quase pronta, faltando somente parte do maquinário foi abandonada e entregue às ruínas, antes mesmo de começar a cumprir as suas funções para as quais foram projetadas. Estava ali há mais de três décadas, entregue aos desgastes naturais e às ações dos vândalos.

Travessei a ponte sobre o Tijucuçu e já estava quase atingindo o frigorífico abandonado quando olhei para a margem esquerda do riacho seco e avistei Xavier Figueiredo, sujeito fechado, mas que conhecia a todos e dava noticia de tudo.

— Xavier! O senhor por aqui.

— Só passando.

— Queria saber se o senhor viu um homem passando por aqui mais cedo.

— Vários... — respondeu com a voz serena de sempre.

— Senhor Largado? — mencionei.

— Cambaleando, feito uma mula manca. Parecendo um bêbado. Mas para quem nem andava... Fiquei até admirado. — opinou.

— Conversaram? — perguntei.

— Não. Um estava longe do outro e mesmo se estivéssemos frente a frente ele não... — afirmou.

— Viu para onde foi pelo menos? — perguntei.

— Para as bandas das corredeiras, aposto — garantiu.

As corredeiras eram onde a velocidade das águas do Tijucuçu ficava um pouco mais buliçosas, variando entre leves correntezas e pequenas cascatas e, por isso, por muito tempo, as lavadeiras aproveitavam aquelas partes rochosas do leito do riacho para lavarem suas roupas.

Deixei Xavier Figueiredo a zelar pela vida, margeei a estrada e fui em direção ao outro lado do riacho. Pouco mais de uma hora de caminhada pela trilha que levava às corredeiras e nem sinal de Largado. Somente um grupo de adolescentes farreava às margens do Tijucuçu. Uns sentados sobre as rochas ingerindo Johnnie Walker Blue Label e outras bebidas alcoólicas e fumando Carlton e outros dando saltos mortais, do leito para as águas.

— Viram passar por aqui um senhor? — perguntei e um deles respondeu:

— Tirava um cochilo quando chegamos, oferecemos uma bebida e ele a recusou. Estava todo maltrapilho, todo largado, mas parecia sóbrio.

— Sóbrio?! Muito obrigado, meu rapaz. A pessoa que eu estou em busca não está nada sóbria. — disse eu.

Dei dois passos para trás, como quem quisesse voltar pelo mesmo caminho e teria voltado para reestruturar as ideias, não fosse outro rapaz perguntar-me:

— Uma dose de uísque para animá-lo?

Aceitei. Nunca gostei de ingerir álcool, nunca fui um degustador de uísques, sempre achei muito fortes. Mas, naquela hora me caiu muito bem. Sem gelo, sem água e sem nada misturado nele, foi perfeito. Largado devia ter experimentado um pouco. Talvez se sentisse melhor.

— Mais uma? — ofereceu-me o primeiro que introduziu a conversa quando cheguei.

— Agradecido. — disse eu.

— Não gostou? — quis saber.

— Muito. É que preciso ir... — avisei-o, enquanto devolvia o copo.

— Largado. O nome daquele senhor é Largado. — disse ele, enquanto recebia o copo.

— Sabe em que direção fora? Perguntei...

— Em frente... Mencionou algo sobre a busca da purificação, libertação, sei lá. O senhor tem razão, de sóbrio ele não tinha era nada. — disse ele.

Desisti da volta e continuei... Não tinha andado nem dois quilômetros ainda quando um sono repentino pôs-me a nocaute! Efeito do uísque? Reflexo das noites mal dormidas? Cansaço mental? Perturbação física? Não sei.

Fui levado à Fonte dos Milagres e deixado à beira do poço dos desejos, onde moedas não mais eram lançadas ali, e sim, pedaços de roupas! Sim. Pedaços de roupas! As pessoas não deixavam moedas no poço como antes, agora ele estava soterrado de objetos que não eram as brilhantes moedas de pratas. Em vez disso, o que todos atiravam lá dentro eram pedaços de roupas, de pessoas doentes, confiando que o ato fizesse com que os enfermos ficassem curados.

Percebi a estátua a me olhar com o dedo em riste, como quem me acusasse do maior crime do mundo já cometido por alguém. Odibixe estava ao lado, ria ao mesmo tempo em que zombava de mim.

Despertei zonzo, à beira da trilha e me coloquei de pé. Por alguns instantes pensei que tudo aquilo sobre a fonte fosse real, mas foi só um sonho atrapalhado e continuei a busca pelo amigo Largado. Minha intuição denunciava nosso reencontro, a qualquer hora.

O reencontro

Aproximava da hora mais quente da estação seca. Largado seguia a passos rastejantes por uma região onde as árvores são brancas como as estrelas. Deserto. Detalhes imperceptíveis por ele que há muito, se confundira a um morto-vivo ou a um vivo-morto. Nada mudaria seu estado de espírito. Ainda que a hora fosse oportuna e a estação oferecesse o mais fresco dos sabores Largado permaneceria trancafiado dentro de si mesmo a não desejar descobrir o paradeiro das chaves que o libertaria. A desilusão causada pelo amigo o acostumara a ser solitário e a se sentir num navio à deriva no meio de um oceano perdido, a um milhão de milhas de distância.

Naquele estado extasiante e supersticioso de quando eu o conheci à beira da Fonte dos Milagres em plena felicidade lançando moedas ao poço a arquitetar desejos mil, Largado teria ficado perplexo em meio àquelas incontáveis carcaças de animais que jaziam expostos sob o sol escaldante, misturadas entre cactos e arbustos do sertão, se decompondo encostados em arbustos ressecados. Teria tirado o rosto de lado e, por três vezes, feito o sinal da cruz, num ritual de expulsão às maledicências, apelação a algum santo capaz de livrá-lo dos demônios ou do inferno, durante aquele início de travessia. Mas não tinha condições de dar contas nem de si. Tudo ficou despercebido naquele mar de carcaças.

Estava exausto. Não suportou. Caiu debruçado por sobre si, ali mesmo, se juntando aos ossos do agreste naquele cemitério esbranquiçado de animais, naquelas paragens áridas dominadas pelas cinzas sem nem pensar — ou involuntariamente pensando um milhão de milhas por minuto — porque se deixou se perder em algum outro mundo. Novamente, morria ali mesmo. Sim estava morto. Há muito ele estava morto, muitos o enterraram vivo.

Quando o alcancei, seu corpo estava um negrume, forrado pelos abutres em pesados e curtos movimentos — não tendo a capacidade de matar passam toda a sua vida esperando pela morte dos outros animais — à espera do último suspiro para iniciar o banquete da sobrevivência daqueles. Expulsei os carniceiros, aos gritos e chiados, debrucei por sobre o corpo de Largado e já derramando um pouco de água em sua boca, o sacolejei. Estava morto. Não fisicamente morto, mas estava morto como nos últimos anos. Talvez eu fosse somente uma miragem para ele, naquele instante da continuidade da travessia.

— Friedrich Nietzsche disse certo: “É preciso bem menos que a morte para matar um homem.” — pensei.

Gilson Vasco
Enviado por Gilson Vasco em 12/11/2022
Reeditado em 16/11/2022
Código do texto: T7648251
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