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O QUINTAL

   São que horas? Perguntou e sem esperar resposta não voltara os olhos; os olhos vidrados na paisagem da janela: o quintal, o quintal...E parecia a voz minúscula de um duende dentro da sua cabeça.E estava diante do quintal: gramado verde, pés de laranja da terra, pitangueira.O sol fazia com que o brilho da manhã cheirasse ao acre das plantas que eram as ervas da sua avó; e que tantas noites curaram suas febres.
   São onze horas da manhã.Respondeu uma voz surda e apagada atrás de si, uma voz cheia de catarro, arrastada...
   Ele se debruçou ainda mais sobre a janela, como se assim pudesse entrar para dentro do poço fundo da memória – da sua própria memória – e ai resgatar minuciosamente os goles de cada segundo do que vivera.
   E veio a febre.Ele podia sentir – dentro da lembrança – a sensação dolorida do calafrio no queixo, e este era o que mais tremia, por mais que a avó o cobrisse: duas, três, quatro mantas.
   A mão da avó era pesada na caricia à beira da cama, e a penumbra uma escuridão roxa.A mãe, a mãe aonde estava? Ele estava na casa da avó.
   Marcinho, Marcinho – a voz da mãe quente e longe parecendo vir do guarda-roupa – no escuro – a sua frente.Ou parecia vir das frestas da janela cerrada? Mas ele ouvia nítida apesar de tão longe.E não se sentia, embora estando, na casa da avó.
   Mas olha o quintal pela janela e tenta voltar atrás dentro da escuridão do poço fundo da sua memória.Marcinho quer voltar ao antes disto – se isto fora no mesmo dia – no quintal.
   O pé de laranja da terra, imóvel e verde, um pouco distante da pitangueira e mais distante ainda das palmeiras.Tudo numa paz entre borboletas brancas e passarinhos.
   Cadê? É o mesmo de tão distante.O que faltava? O que faltava? Ele sabe que lá atrás das palmeiras estar, está lá.E sorrir, dentro do quadrado da janela, enxergando o brilho delas sob o sol.
   “Carregadinhas o ano todo...”- era uma voz de dentro de uma ciranda, e era sua própria voz saindo agora porque a velha atrás de si o interpelara.
   Marcinho não ouvira a própria voz, se a sua voz estava muda dentro do poço onde mergulhara, e a voz era alguém secreto da ciranda comum.
   Um dia claro demais no começo, e a brincadeira correra tão gostosa, correra gostosa como ele imaginava ser o doce mais doce que ainda não comera; então o dia fora escurecendo assim por fumaças, fumaças de nuvens.E parecera ser por causa do papel picado que foram queimar.Seus segredos em comum que tinham que queimar.Haviam tomado consciência que cresciam e os segredos não podiam ficar expostos para qualquer um.
   Fizemos o tempo nublar! Ele exclamara, ele exclamara...
   A velha atrás de si, não conseguia pegar o que acontecia, e inultilmente o interpelava.
   Não, não, não era a sua voz...Que voz grossa, a sua sempre fora tão fina como de um cristal, quase não se podia ver.É aquela voz que dissera: fizemos o tempo nublar! Era uma voz que tinha convicção mesmo diante do ilógico! E o rosto?
   Esfregou as mãos sobre a face, e veio de novo – dentro da escuridão – a febre, o seu bater de queixo dentro da escuridão roxa, mas como o eco da velha que o interpelava: e almoço, ficas para o almoço?
   Havia o cheiro azedo de uma bebida quente: o chá, sim o chá de folha de pitangueira e de laranja da terra.Podia ter sido um sonho, e sonho era sonho.A febre era tão real que sabia que se indagasse a avó agora ela iria confirmar.
   E...Como? Queimara os segredos em comum, e a coisa que tinha mais certeza – além da febre – é que tiveram a possibilidade de fazer um dia tão claro nublar.
   Assim...Assim.Não podia lembrar; o poço escuro era fundo, embora ele tentasse na escuridão...Se ele conseguira sentir a voz quente da mãe e vê-la em um sorriso na penumbra roxa...Ele podia tentar, ele podia tentar.
   Eu tenho que estar lá! Exclamou dentro de si e algo dentro de si.E a velha ia e voltava com a voz pastosa de alegria tímida:
   -O almoço já esta na mesa.

   À mesa ele alcançou a memória sem a memória.Foram as palavras que saiam arrastadas, lentas, cheia de catarro pela boca da velha.
   E nos miolinhos de pão sobre a mesa Marcinho foi se esquecendo a mastigar, mastigar; e olhos vagando distantes e embaçados...
   Doze anos já faz, doze anos já faz – a velha já havia falado isto, e falava mais, e era o que ecoava dentro da sua mente porque ele estava distante, de volta ao seu poço fundo, escuro, tão escuro, onde ele tentava captar, pegar, enxergar não luz, porém enxergar mesmo no escuro.
   E veio a febre novamente; não, não ele agora, e sim o ele na lembrança.Era possível se ver? Ele se via, via-se lívido naquela penumbra roxa na cama de lençol tão branco que era tanta luz naquele lúgubre cômodo; suas mãos débeis tentavam pegar a caneca com o chá das folhas, e o cheiro azedo se aproximando.Aquele chá era o puro e severo, mais sincero aroma do arrependimento.
   Marcinho engoliu em seco o que mastigara tanto, e vira que a avó estava assustada com sua distração, e riu.
   -o que esta o preocupando? Indagou a velha tão serena, parando o ritual da refeição, alisando com as duas mãos a toalha da mesa.
   Ele insinuou um vestígio de riso e pensou em arriscar, pensou, e a velha encarando animada como nunca antes acreditou  na possibilidade de uma então comunicação.E ele se fechou entre calmo e sério.
   -Nada vó, nada...


   O importante era aquele exato instante em que ele foi chegando no quintal.Não mais o encarava da janela como numa fotografia de possível movimento e o encarava com os pés.
   O pé de laranja da terra era do mesmo modo abreviado em beleza como os seus frutos que a avó dava um jeito.
   Foi na mesa que ele se lembrou do doce que ela fazia, e bem pensou em perguntar.Fora talvez então o vestígio de riso? Não sabia de mais nada, e nem havia mais estas questões dentro da sua cabeça, porque o que importava era seus pés aquele exato instante.E como corria louco como vento este exato instante, e então já se via distante, distante e cada vez mais...Próximo? Toda vez que pensava em próximo que fosse com indagação lhe vinha a mente: a febre, a escuridão roxa, o cheiro do chá que era acre como que ela achava ser o puro arrependimento.
   E seus sapatos, que eram sapatos que combinavam com seu rosto ainda do mesmo menino, do mesmo menino que ali estivera.E vinha a escuridão roxa mesmo olhando cegamente para o dia claro.Ah, esfregou as mãos no rosto numa interjeição muda.
   Bárbara! Exclamou por dentro, inflamante de felicidade ao passar as palmeiras e ver o muro.um simples muro de tijolos salpicado de cimento grosso e com plantas parasitas agarradas, samambaias nascendo.Bárbara! A linda menina de cachinhos negros, de pele morena-canela.E ele: Marcinho, seu príncipe encantado, de lindos olhos claros, e cabelos quase louros.
   Bárbara o amava muito.Era só saber que ele estava na casa da avó e já estava ali.
   Vim para brincar com você – dizia tão sorridente a frente dele tão ruborizado.Ele sentia ainda mais vergonha porque sabia que ela queria brincar de marido e mulher.
   Ah, então...Já chegava.
   Não, não era por isso – se “isso’ era apenas isso – que ele ansiava tanto pelas férias na casa da avó.
   “Carregadinhas o ano todo”... – a voz de dentro de uma ciranda.
   Ele plantou a bolinha de gude ali, onde agora seus pés pisam.Ele, ele, não fui eu!Confessou num berro tão íntimo.E será que seu rosto expressava as angustias daquelas vagas exprobrações.
   Vai nascer um pé de bolinhas de gude, vai nascer.
   Bárbara estava de costas chateada, riscando o muro, ainda na época de tijolo cru, porque Marcinho dava preferência, dava preferência para Arthur, jogar bolinhas de gude com Arthur.
   Um grito de repente: Meu Deus! Acudiu-se dentro e fora que caiu sentado no tapete verde do quintal.Estava feliz de tanto pejo, na confissão interior de se descobrir.
   Bárbara riscava o tijolo cru do muro com um tição de carvão.A menina usava toda sua fúria e revolta no rabiscar: Eu quero brincar, eu quero brincar...
   Se ele olhasse agora, além da sebe maltratada, ainda podia haver vestígios da revolta da menina ao qual os cachinhos balançou como nozinhos de arame.
   Mas era tão bom, de um gozo esplêndido aquele instante vivido.As bolinhas de gude, as bolinhas rodando no semicírculo feito a cal no tapete verde do quintal...e não era só isto o “apenas isto”, era que tanto ele como Arthur estavam de cócoras, ficavam muito de cócoras.
   E ele sentia, sentia um calor estranho, desconhecido, perigoso; o calor que o enchia de pejo.Quase era como a febre, e lá vinha a memória dela: da febre, a velha avó trazendo a caneca fumegante no cheiro acre do arrependimento.
   E volta, volta, volta...Ele esconde os olhos nos joelhos para esconder de si mesmo o si mesmo tão claro na luz do depois do meio-dia: estar dentro de tudo – como tanto catou – como se vendo vivendo tudo quase minuciosamente(é que não dar para ser tão perfeito) e Deus! Ele se arrependeria se desse pelo ao menos para voltar atrás.
   Ele via, ficava olhando desejado para o sexo de Arthur que acocorado com short curto, de safado mesmo deixava exibir.
   Arthur de um moreno como Bárbara, mas indecente já pela pré-adolescencia precoce instigava assim, instigava assim até que explodiu: aquele absurdo de plantar uma de bolinha de gude para nascer um pé de bolinhas de gude.
   A menina não se conformou, e debochando dos dois, foi saindo a dizer:
   -Vai ver seus bestas se nasce pé de bolas de gude – e os nozinhos de arame balançando na cabecinha espevitada que os dois, com muito gosto, viram desaparecer pelo portão do quintal.
   Então o quintal só deles dois, então começou a nascer o segredo em comum que tiveram que queimar depois para não correr o risco da exposição à qualquer um...
   Fizemos o dia nublar! E assim regra ainda mais a sementinha que colocaram ali.
   Marcinho ergueu-se num salto satisfeito afinal com a reconstituição.Mas e a febre? A febre, foi sentindo ao chegar perto da pitangueira, devido ao cheiro da erva.
   Mas por quê? Afinal por quê? E Arthur será que cumpriria a promessa feita a doze anos atrás, e com esta idéia na cabeça ele foi se aproximando contente do portão de ferro.
   Bobagem a bolinha já não estaria lá mesma, e não podia acreditar embora estivesse vendo tão real ele: Arthur, tão o mesmo e diferente ao mesmo tempo, chegando cada vez mais perto do portão onde ele estava.
   Marcinho abriu-se num riso febril e espaçoso com o coração tão descompassado, e Arthur estava elegante e lindo.Ao chegar perto, abriu a palma da mão direita, desviando o olhar do amado do seu rosto para o que então desvendou: a bolinha azul desenterrada, a sementinha...
   Entreolharam-se inflamados de sentimentos sincero como dois homens de verdade.
   E Bárbara?
   Foi uma sombra nas palmeiras.As palmeiras sacudiram, e acontecia um beijo, um beijo, mas a velha os encontrou ali horrorizando-se pela cena: duas crianças Meu Deus, duas crianças nesta indecência, e não se pode descansar dos doidinhos, não se pode, dar-se mole para estes pequenos que se ver no que dar.
   E tudo podia, podia ou cabia de não ser, porque a velha precipitou-se perto deles com um balde de água fria, um balde de água fria mesmo.
   E ele: Marcinho, molhado, feliz, feliz mas gripado.Feliz porque fora poupado da sua natureza.
   Só que mais tarde – ou o mais tarde é agora – o genro da velha já encheria os ouvidos da filha da velha:
   -Você sabe, você sabe mulher, pode não gostar de ouvir, mas é a mais pura verdade, que a culpa...A culpa de tudo é da velha...É da velha!

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AUTOR: RODNEY ARAGÃO

   04 DE OUTUBRO DE 2004

 
Rodney Dos Santos Aragão
Enviado por Rodney Dos Santos Aragão em 04/12/2007
Código do texto: T764835

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Sobre o autor
Rodney Dos Santos Aragão
Cabo Frio - Rio de Janeiro - Brasil, 44 anos
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