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O amor é cego

Era mal descer o pé do estribo e dava de cara com ela. No meio da fumaça, os palitos rolando de cá pra lá, de lá pra cá, assando mal e bem passado. Os cabelos desgrenhados e a testa suada só serviam pra deixá-la mais atraente. Tinha aquela medida inexata, tipo dois e meio de beleza e um terço de feiúra, no lugar certo. Que não era de olhar pros lados, pois o pai, dizem, o dono da barraquinha, quase um cão de guarda a repelir as investidas dos mal e bem intencionados. Que se dane. Todos os dias sem igual. Vestidinhos que combinavam com as espinhas, estratégicas, meio que salpicadas, perdidas, entre o queixo e bochechas, um mimo. Não se agüentava mais de passar e olhar, queria um naco daquilo tudo.

- Tudo bem? Dá um de carne, por favor.

E ela lá, toda dura, se controlasse mais a postura arriscava um torcicolo dos brabos. No muito, respondia com um leve movimento de cabeça, sem deixar saber se era resposta ou esquiva das moscas. Mas que olhava de esguelha, olhava. Dava pena de ver o rostinho atiçado pelo calor da churrasqueira e a incessante conversa fiada pelo ouvido adentro - dava dó de ver.

A trama, tal qual reprise, continuava do mesmo ponto – de ônibus e de história – e ele mais do que querendo dar um basta na novela. Na corda bamba a convidou pro pagode de terça-feira, feriado. Ela, fingindo desinteresse, deu uma de difícil e encenou afetações, como se tivesse coisa melhor pra fazer. O pai, de lá, a espiar em meio aos corações de frango e entre o misto e o bacon, de cara amarrada, claro.

Mesmo sob a aura de tanta reprimenda, inevitável deu-se o desenlace do romance. E a partir deste dia, ao vê-lo descer do ônibus, além de ser pra receber o costumeiro vale-transporte dos fregueses, o braço dela se esticava era mesmo pra se enlaçar no dele. Unha e carne, eram vistos pelos altos e baixos arredores do bairro. Paixão de despertar inveja nas viúvas, nas encalhadas, e nos antigos cachos, largados à deriva, ao sabor da maré do destino. Finalmente casaram-se. E buscaram guarida na casa humilde de alvenaria, presente do sogro, pra lá dos cantos do fim de estrada. Ele, firme no batente na barbearia; ela, por exigência dele, tratou de arranjar em que se distrair, já que pra mulher casada não pega bem ficar vendendo churrasco e lata de cerveja pra marmanjo.

Acostumada desde menina a ter seu próprio sustento, estranhou o novo modo de tocar o carro pesado da rotina. Porém, cheia de prendas, vinda de família conservadora, dedicava seu tempo a agradar o marido e fazer direitinho pra que tudo corresse bem. Retomou o bordado, que há muito não pegava em agulha e linha pra nada. Encorajou-o a comprar um cachorrinho, de fato uma companhia e, no mais, como se sabe, não dá pra facilitar pra ladrão hoje em dia. Mulher trabalhadora e perfeccionista, pegou-se com afinco nos afazeres de doméstica, um desafio. A comida sempre quentinha, a roupa passada e engomada, a casa limpa.

O marido que no início um pão doce de tanto encanto e atenção, deu pra ser distraído: perdia os horários, vinha com bafo de bife de alho e cerveja, nem reparava se ela prendia o cabelo de jeito diferente. Esperta, fingia não ver, pois crescera assistindo a peleja da mãe com o pai, xucro e grosso, de dar de lavada em mula. Aquilo é que não queria pra ela. Que sacrifício não se faz pelo bem do sagrado matrimônio? Pois bem.

Não tão fácil quanto achava ser, a receita de felicidade, sim, desandou, transbordou, derramando o pouco que sobrava. O que antes fazia vistas grossas, de cadinho, agora em sintonia fina enchia de balde seu campo de visão. Durante o jantar nenhuma palavra. Passaram a viver como dois estranhos, evitando-se, a não ser pelas conversas que se faziam necessárias. De tanto indiferença, o sexo esfriou, ficou corporativista, sem rosto, uma medida mal aplicada, sob os olhos sombrios do tratado nupcial (“na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza...”).

Ele chegava cada vez mais tarde e ela nem força ou ânimo tinha mais pra reclamar. Teria errado em se omitir? Como consolo e distração, fazia tudo pelo certo, afinal quem há de julgar é só mesmo nosso senhor. Bordou cama, mesa e banho, um enxoval completo. Quando antes não olhava nem pros lados, ficou amiga das vizinhas, matronas matreiras, que lhe enchiam os ouvidos de boatos – ou fatos? – a respeito da conduta dele. Fazia-se de zéza e, de pulmão cheio, gritava muda os desgostos da vida. Até que, por conselho de Dona Rosa, mulher de sargento, familiarizada a burlar o cotidiano de ordens e hierarquia, resolveu dar-se um pedaço de tempo pra si própria. Ah, liberdade!

Viraram amigas inseparáveis, a experiência de Dona Rosa servindo-lhe bem de ponto de apoio no redemoinho em que se encontrava. E era um tal de salão juntas, compras no shopping, fazer feira, missa. Do porquinho tirou as economias, renovou o guarda-roupa, comprou sapatos envernizados, estilo boneca. Grampo nos cabelos e – pasmem! – maquiagem no rosto, fora o espartilho e novo penteado. No fundo, no fundo, em misto de revanche e amor, só pra agradar o maridinho. Até tirou o bigodinho, sua marca registrada. Esperou a sexta-feira pra em grande estréia ter a ovação merecida.

Ele bem que estranhou ao chegar em casa e ter com o som ligado tão alto, mais tão alto que da esquina se ouvia o pagode esgoelando das caixas. Espanto maior foi de vê-la pintada, daquela maneira, um despautério por certeza! Um coque no alto da cabeça e aquele vestido tão, tão... colado! Na boca a marca da desgraça, um batom que se fosse mais vermelho, capaz de enfurecer touro. Deus do céu, o que ela queria com aquilo?! Diante do semblante estupefato do marido, sua reação foi de correr e se esconder, evitando vergonha maior. A dele, foi de correr como criança perdida, sem saber aonde ir. Recolheu seus pertences e pôs-se pra fora dali o mais rápido possível, como querendo apagar da memória o presenciado. Nunca mais se viram.

Ela casou-se novamente, vacinada, desta vez com homem decente, meio que criou um faro pra canalha. Ou chauvinista. Vive bem e feliz, das espinhas curada e regularmente freqüenta a manicura, pedicura e cabeleireiro, vaidosa toda vida. Dia desses trombou com ele no mercado: a tiracolo, no maior love, com uma negrinha desdentada, despenteada e com a pele craquelê. “Tem jeito não, esse um aí ou é doido ou só ama mulher feia” – pensou com seus botões.
Douglas Evangelista
Enviado por Douglas Evangelista em 26/11/2005
Código do texto: T76801
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Sobre o autor
Douglas Evangelista
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 36 anos
32 textos (1072 leituras)
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Douglas Evangelista