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Dois pra lá, dois pra cá

 

 

Todos os dias da semana, pela manhã e à tarde, ela se dirige ao ponto do ônibus. Atravessa o corredor de ambulantes, torcendo o nariz para a miscelânea de cheiros que lhe golpeia as narinas. Ali se vende de tudo: churrasco; cachorro-quente; pão de queijo; batata frita em óleo duvidoso; grãos de milho amanteigados com manteiga rançosa, pastel, bolos. É surpreendente a variedade de coisas comestíveis que se encontra nesse lugar.

Dirige-se à fila, ou melhor, às filas que vão se formando conforme a ordem de chegada dos passageiros e que o fiscal tenta organizar. Ela tem sentimentos ambivalentes em relação aos fiscais, que lhe parecem um mal necessário, pois muitas vezes provocam grandes tumultos, causando brigas onde podem aparecer facas e até coisas piores. Por isso, tal funcionário nunca dura muito tempo no cargo. Esse novato, por exemplo, está atuando há dois dias, o anterior desapareceu de repente. O dito tinha o costume de empurrar o povo de um lado para o outro gritando:

 “_Entra na fila, cambada dos diabos.”

O povo não gostava e ficava irritado, devem ter reclamado na gerência ou então... quem sabe, deram um jeito nele, já o atual, em contra partida, pede as coisas de maneira mais delicada:

“_Façavor, pessoas, dois pra lá, dois pra cá, vão fazendo as fila direito, tudo pela ordem.  Pessoas! Não astravanca a passage.”   
Ela tem de reconhecer a fineza e a educação desse novo fiscal.

Não é fácil a vida de quem toma ônibus. Ela imagina um mundo onde o número dos usuários desse transporte fosse exatamente o mesmo que o dos bancos de veículos públicos. Seria o paraíso. Ir e vir sempre sentada, aproveitando o tempo para ler a Bíblia ou olhar pela janelinha, não ser atacada por todo lado feito o Afeganistão, enquanto viaja. Imagina também, um corredor de acesso aos terminais em que não houvesse aquele monte de comida mal cheirosa ou que pelo menos as ‘pessoas’ não se atrevessem a comê-las, dentro do ônibus.

Leu a sua frente: “cachorro-quente prensado + suco de uva R$ 1,50”. Quem vendia esse lanche era o Lourival, o seu vizinho da esquina. Sua casa não era nada limpa. Cachorro quente prensado era salsicha velha espremida na tostequeira e o suco era feito com a legítima água mineral caseira, que ele tirava da torneira enferrujada da pia da cozinha imunda e colocava em garrafas vazias de água de fonte, misturava com suco artificial em pó e vendia naquela precária barraquinha.

Nesse momento viu a Pamela, que na verdade se chamava Lucineide, mas não gostava do nome, comprar um lanche do Lourival e se aproximar toda metida a chique da primeira fila, justamente, no seu lugar, querendo passar na frente de todo mundo. Foi uma gritaria geral.

“_Olha a espertinha, chama o fiscal, chama o fiscal!”

O fiscal se aproxima:

“ _ Calma, pessoas, nada de confusão, moça a senhora tem de ir para a fila 5” _ e como chegasse mais passageiros ele os distribui pelas filas:

“_ Vamo lá, pessoas com muita calma, tudo pela ordem, dois pra lá, dois prá cá, dois pra lá, dois pra cá....”

 

                                                Célia Regina Marinangelo

                                                         23/11/2007

célia regina marinangelo
Enviado por célia regina marinangelo em 07/12/2007
Código do texto: T769147

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Sobre a autora
célia regina marinangelo
São Paulo - São Paulo - Brasil
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