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Era uma vez uma Rosa...

                                     
                                      Era uma vez...
              Uma rosa, um pássaro colorido, um beija-flor...




Nasceu uma rosa linda...
De cores suaves e perfume delicado
Sua pele rosada alumiava as noites
Seu silêncio acolhia os dias
Sua forma exuberante bailava no tempo
Ela era feita de mistérios e encantos
Seus movimentos fascinavam passarinhos que, às vezes, ali sobrevoavam!
Quem a tocasse seria por ela decifrado e amado
Mas a rosa nasceu em um jardim distante...
Lá só apareciam os raios de sol, o orvalho das manhãs, os beijos dos ventos alísios, os sons do silêncio, a voz do infinito.
A rosa era feliz assim, na companhia dos filhos da mãe-natureza.
Ela sorria, ora se encolhia, sentia o abraço dos seus amigos.
O sol a aquecia, a lua a adormecia, o vento a embalava.
Os pássaros a tocavam, a terra a alimentava, o orvalho saciava sua sede.
Ela sorria e a todos agradecia se mantendo bela, doce, amiga.
Seus dias eram iguais
Era o que ela conhecia
Um dia a rosa recebeu uma visita
Um beija-flor a acariciou e dela gostou
Ele nunca tinha visto uma rosa tão bela!
E intrigado ele ficou.
Perguntou à rosa como era sua vida ali naquele jardim distante, sem outras rosas, sem outras flores, sozinha...
Estava curioso, sempre encontrava rosas em jardins floridos e naquele só havia ela.
A rosa abriu seus olhos rosados num brilho bonito de se ver...

_ Nasci aqui, beija –flor! Lembro-me ainda uma semente no bico de um pássaro colorido, de asas ligeiras, voando tão alto e bonito que se via o infinito... Ele bailava entre as nuvens e seu coração batia forte. Viajamos muito tempo. Ele era alegre, livre e divertido. Então encontramos um vento soprando forte. O pássaro se assustou e resolveu procurar um local para nos abrigar. Sem medos, ele foi cuidadoso. Quis nos proteger. Lembro dele dizer que o mundo é de todos e para todos. Tem momentos que nos mostram o tempo de recolhimento, necessário ao movimento da vida. A vida deve seguir sua lógica. Devemos respeitar o espaço e o tempo de cada ser no universo. Assim ele pousou aqui. Aguardou que o vento forte serenasse e seguisse seu rumo. Foi então que ele me deixou aqui e partiu. Antes de ir embora ele me abrigou no profundo da terra. Eu era semente! Fui recebida e acolhida, fui cuidada e protegida, fui plantada. Durante nossa viagem eu aprendi a amar e a ser amada com liberdade e muito cuidado. Ainda era uma semente quando o pássaro me escolheu e me amou. No tempo da lógica da vida me deixou aqui, livre para sonhar e pensar. Livre para viver.  Ele partiu e eu ouvi lá do abrigo da terra suas asas ligeiras e firmes. Sempre me lembro de nossa viagem e sorrio. Ele me faz companhia e eu o encontro dentro de mim. Não estou só porque não sou só. Escolhi acolher os amigos que aqui encontrei e aprendi a amá-los e eles a mim. Aprendi com cada um de meus amigos a me alimentar dos momentos compartilhados e a partilhar o meu afeto e a minha vida com eles. Muitas vezes recebemos visitantes, assim como você. São bem vindos, nos alegram, nos acrescentam, aprendem algo conosco, trocamos. São visitantes apenas, seguirão seus caminhos. Estes pertencem a outro mundo e não podem clarear nossa estrada. Iluminam nossas vidas e se vão. Aprendemos o valor de cuidarmos bem e carinhosamente uns dos outros aqui, nas adversidades e na tranqüilidade, de maneira singular. Respeitando e admirando as diversidades e o outro. A nós em especial. Aqui o vento conversa com a chuva e o sol, a lua clareia a noite, os pássaros cantam alegrando nossos dias. Eu perfumo nossa morada, embelezo nosso verde, acarinho o vento, sou acarinhada por todos eles. Nos olhamos, nos falamos, nos cuidamos. Cada um de seu lugar, como pode e como sabe. Dando ao outro o que tem. Recebendo do outro o que ele tem. Sem cobranças ou expectativas de que o outro seja quem desejamos. Acreditamos que é por cada um ser quem é e dar o que tem e pode, como sabe. Por cada um de nós receber do outro o que ele oferece com alegria, amor e gratidão, que somos felizes aqui e não nos sentimos sós.

_ Mas vocês não sentem dor, tristeza, medos, vontade de conhecer outros lugares?

- Nós sentimos tudo isso sim, afinal são sentimentos necessários a todos. Isso nos fortalece e nos permite evoluir. Nos possibilita fortalecermos nossos laços e sermos importantes uns para os outros. Respeitamos a dor dos amigos, os acolhemos se somos procurados, os deixamos sós se necessitam do tempo do encontro consigo mesmos. Sofremos, sorrimos, amamos, sentimos medo e raiva. Somos frágeis e fortes. Nos permitimos vivenciar esses sentimentos sem vergonha do outro ou de nós e somos leais uns com os outros. Ouvimos nossos corações no silêncio de suas verdades para aprendermos a ouvirmos o coração dos outros.

- Você linda rosa sente saudade de quando era semente e de sua viagem no bico do pássaro que a trouxe aqui?

- Saudade não. Cada momento daquela viagem me acompanha, habita dentro de mim. O pássaro vive em mim. Nos temos dentro, que é o único lugar onde se está junto e se tem o que desejamos, somos, amamos, fazemos. Tudo isso é bem cuidado no profundo de cada um de nós. Sendo assim é infinito! Tenho lembranças tão vivas de cada momento de minha vida que consigo sentir o cheiro de cada um deles. Eu sempre as contemplo para que se mantenham vivas e aquecidas. Para que eu me lembre de que um dia fui um ser pequenino no bico de um pássaro ousado e cuidadoso. Um pássaro que se aventurava a viver sem descuidar-se de sua vida e da vida daquela sementinha que ele escolheu conduzir. Eu também o escolhi. Quando ele se aproximou de mim eu sabia que ele era meu amigo e seria meu companheiro. Nós dois nos entregamos um ao outro com confiança e respeito. Sabíamos diferentes e complementares. A escolha surgida da entrega leal cria laços de afeto livres e verdadeiros. Incondicionais.

_ Você gostaria de viajar comigo? Quando quiser eu a trago de volta.

_ Você jamais poderia me trazer de volta. Já não sou uma sementinha. Cresci e criei raízes. Aqui eu vivo! Mas para que eu amadureça no tempo da vida preciso continuar aqui. A terra me nutre e a luz do sol me alimenta, a brisa me acaricia, a lua me visita, o chão me sustenta. Os pássaros que aqui vivem cantam perto de mim. O orvalho da manhã se deita em minhas pétalas. Eu os ouço e os acolho. Eu os amo perfumando seus dias, contando-lhes de minhas viagens e de minhas observações. Eu os inspiro a se amarem e acreditarem nos sonhos. Eu deixo que me olhem por muito tempo em seus momentos íntimos, mesmo sabendo que não estão me vendo. Nós confiamos uns nos outros e nos cuidamos. Nós somos melhores porque somos parte da vida e da história de cada um e juntos construímos nossas vidas. Nós temos um compromisso com nossas vidas aqui. Nós desejamos crescer e amadurecer aqui.

_ Mas e quando você morrer ou algum de seus amigos também?

_ Aqui aprendemos muita coisa. Uma delas é que a gente se transforma. Sempre dando continuidade à vida. Existem formas diferentes de existirmos, de sermos, de vivermos. A forma é que morre, a vida não. Nós trocamos de roupa, modificamos. Mas continuamos vivos. E quem chega, com a forma que antes um dia tivemos, poderá nos sentir e conosco conviver num outro tipo de relação. Na verdade nós apenas saímos de um corpo para ganharmos outro. Com outras possibilidades e funções. Assim a vida segue sua lógica no seu tempo. É preciso aceitar a vida como um presente Divino cuidando dela. A vida não é só minha, nem sou a vida. Precisei viajar no bico do passarinho que aqui me trouxe, precisei viver muito tempo aqui, para saber que somos aprendizes e na vida somos todos responsáveis por todos. Somos filhos do Criador e há um pouco de todos em cada um e de cada um em todos. Quando um de nós se transforma sentimos a dor da separação sim. Mas estamos juntos para acolhermos o momento de dor e compreendê-lo como parte da vida e de nosso crescimento espiritual e pessoal. Juntos nos despedimos e juntos nos reencontramos.

_ Você é feliz bela rosa?

- Muito feliz! Eu escolhi ser feliz Na vida você precisa se sentir feliz para ser feliz. A escolha é sua.

_Qual o sentido da vida pra você?

_A vida tem o sentido que nós damos a ela.

_ Bela rosa, eu hoje sou mais feliz. Conhecer você e ouvir suas palavras me fez muito bem. Obrigado por responder minhas perguntas e me acolher em seu jardim. Penso que está na hora de eu voltar para casa. Aprendi a voar e agora aprendi a voltar para meu lugar e cuidar dele e dos que comigo convivem.

_ Você pode voar sempre, infinitamente! Você tem asas para conhecer outros lugares, aprender outras coisas, ensinar e repassar aos outros aquilo que aprende. Asas que te levam a muitos lugares e te possibilitam viagens dentro de você e dos outros. Cuide bem de suas asas para sempre poder voltar à sua casa. Cuide bem de sua casa pra ter para onde voltar. Cuide bem de seus companheiros de vida para ser feliz!

- Tentarei fazer isso sim. Bela rosa, eu a levarei dentro de mim.

_ Beija-flor, você também se encontrará dentro de mim.

_ Sabe, bela rosa, você já está...

_ Beija-flor, você e eu estamos eternamente um no outro. É assim... Habitamos dentro.

_ Adeus bela rosa!
_ Adeus beija-flor!


  Soraia Maria Lopes Martins.

Gov. Valadares, 31 de agosto de 2.004





SoraiaMaria
Enviado por SoraiaMaria em 24/03/2005
Código do texto: T7738
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Sobre a autora
SoraiaMaria
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