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Ironias à parte

A areia lhe escorria por entre os dedos, a cada passo o peso do corpo abria buracos que eram logo inundados, um processo sem fim, a repetir-se por todo o caminho. Por dentro, sentia-se assim também.

Por isso a caminhada, a brisa, os guinchos de gaivota. Praia em primavera para tentar aquecer o inverno do coração. Dali pra voltar, a difícil e indesejável missão de retorno, a ampulheta virando, enchendo seus próprios buracos abertos, e crescendo e se fechando, como ostras, como seus passos. Impossível fugir.

Abre a camisa, senta-se. As flores de um despacho, secas, mortas, competem com a beleza e com o frio ameno, clima de fim de tarde, fim de mundo. Estufa o peito, tenta pôr as idéias no lugar. Os olhinhos dela em casa - não quer olhar.  Coragem também não tem para olhá-los.

Melhor continuar a andar, ver gente, tentar esquecer em vão. O calçadão serpenteia em preto e branco e a distância até lá é longa, é dura. Tem de enfrentar.

A impotência entranhada nas costelas, uma dor imensa, daquelas que só sabe quem sente. Todos esmorecem ao menos uma vez.

Em seus sonhos, emanava luz própria o pedacinho de papel. Já se iam dois dias que, pela primeira vez, arriscou jogar.  Novato, aconselhado por amigos, preferiu a dupla sena.

Achava que desta vez conquistaria o coraçãozinho de Juju, tão necessitado dele, acreditava. Impressionantes a transformação e felicidade que um bilhete premiado poderia causar: viagem pra Disney, sei lá.

Impressionante os mecanismos da cabeça de um pai ausente.

Agora, nem isso é conforto para o maldito momento em que, hoje, depois do trabalho, resolvera esticar pra mais um chopinho, a memória falhando depois de uma ou duas caipirinhas, Juju na escola sofrendo com a espera e com o fato de ser sempre a última da saída, e sua vinda pra casa, sozinha, a rua pra atravessar, outro bancário que bebeu duas ou três caipirinhas à oitenta por hora e não a viu, tentou desviar e não conseguiu.

Remorso. Culpa. O que, na verdade, não adiantou de nada. Como o bilhete. Ao menos, um velório digno.

O calçadão imenso até em casa.
Douglas Evangelista
Enviado por Douglas Evangelista em 05/12/2005
Código do texto: T81097
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Sobre o autor
Douglas Evangelista
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 36 anos
32 textos (1072 leituras)
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Douglas Evangelista