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Vocação

Nas aulas era o mais dedicado, aham, sim senhor, levava a sério sim, tinha tudo já pensado. Recomendação de papai, desde menino que a cinta larga de lona não me deixava esquecer. Dedicação. Era uma das palavras prediletas do velho. A minha não era palavra não, era frase: “Párapaipárapaipárapai!!!” Ele não parava não. Quem parava era eu, de chorar. Foi bom porque fiquei escolado, as orelhas calejadas e o couro grosso, até brincava com as marcas fundas do joelho esfolado de caroço de milho, gostava de pensar na lua. Com o tempo a gente aprende a extrair diversão de onde não se imagina.

Entre uma surra e outra, papai era faxineiro, ajudante de serviços gerais (preferia assim), isso pra botar comida no nosso prato, costumava dizer, de boca cheia, todo jantar. Costurando pra fora, mamãe não percebia ou era surda, sei lá, o que sei é que nada fazia. Diz que na roça, vida sofrida, é assim que se torce o pepino, que é pra não desandar pra mau caminho – seja lá o que isso seja.

Ele, sofrido e alcoólatra, limpava latrina e varria o zoológico. Um dia faltou o tal que fazia a limpeza de uma sala lá, e apontaram papai na escala. E foi assim, naquele dia, que meu destino foi selado a ferro e fogo, a idéia encasquetada funda dentro do crânio do velho.

Pegou as chaves com o chefe da segurança, juntou seus instrumentos e pôs-se em direção do desconhecido. Lá ficavam os animais empalhados, toda sorte e espécie. Entre as garras e as presas, uns a rugir, outros pastando, descobriu minha vocação.

Não sei se empolgado pelo nome da profissão ou se por apreço pela morte – dos casos de infância que pouco soubemos por sua própria boca, o mais célebre era sobre suas façanhas de caçador; e um ou outro aberto na faca, brigador justo, já na versão de mamãe -, naquela noite o velho nem comeu, nem dormiu.

- Taxidermista... Meu filho vai ser taxidermista...

E assim se deu.

Já era quase adulto e não agüentava mais os abusos de papai, afinal, abstraía-me, que era pra não dar confiança e, por vingança ou falta de opção, fazia a merda do curso.

Minha irmã casou-se, pra fugir daquele hospício, isso é certo. Mas levou de presente de casamento a mancha que alvejante não tira, a reprovação dos pais. Na igreja também não pode receber as bênçãos, papai fazendo favor e prestando contas ao criador, fez questão de contar a todos sobre a mácula em sua virgindade. Só omitiu quem foi o malfeitor, embora em meio a trapos e cortinas, mamãe soubesse.

Mas que se há de fazer, comida na mesa e educação: obrigação. O resto? É resto, vizinho não tem que saber.

Enfim formei-me. Estágio como manda o figurino e tudo o mais. Fazia um trabalhinho também por fora, pra juntar um qualquer e me mandar dali. Papai já estava pra se aposentar, mas o instinto continuava dos piores, cobrando sem querer ser cobrado.

Todo jantar a mesma coisa, minha irmã não queria ver nem pintada, e mamãe consentia, melhor, ausentava-se, mas de corpo presente, como havia feito a vida inteira. Sob a luz fraca da copa, pareciam bonecos de cera, a pele derretida pela idade.

Aí me deu um estalo.

Podia ter sido de pau ou de faca, teria sido mais divertido reconheço, mas danificaria as peças. Preferi veneno. Pá, pum. Tiro e queda. Uma trabalheira danada, sujeirada, foi ruim de conseguir tanta palha, um desafio. Graças a Deus pra algo serviu o curso.

Não quis profanar a aura de paz dos dois, ser fiel ao espécime é a primeira das normas. Quando a polícia chegou, viu lá: papai de cinta na mão, vestido de faxineiro; mamãe com as agulhas no ouvido, os olhinhos de vidro fitando o infinito.
Douglas Evangelista
Enviado por Douglas Evangelista em 06/12/2005
Código do texto: T81761
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Sobre o autor
Douglas Evangelista
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 36 anos
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Douglas Evangelista