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iNCIDENTE EM VILA DE FÁTIMA PARTE 2

2 - O MORTO

Quando cabo Solto entrou no gabinete, invadiu seria mais correto dizer, pois nem na porta batera e muito menos licença pedira, Vieira estava a sonhar com  o  casamento  dos  dois, devaneio este que no abrir  brusco  da  porta saiu pela janela e se fez gás, nuvem, que pensamento é como o tempo, nunca mais volta se uma vez perdido, ainda que Vieira corresse para a janela, ainda que cabo Solto de nada entendesse daquela atitude e dissesse seu delegado, pois ainda era delegado, o preso se matou. Atônito, quem,  foi a primeira pergunta que Vieira fez e é lógico que era o preso se cabo Solto acabara de dizer, e o que aconteceu foi a segunda já também respondida e só quando perguntou mas como, é que o transtornado soldado pode tomar outro fôlego e responder: se enforcou na cela, doutor Vieira e assim o caso tomava um vulto importante pelo tratamento de doutor, tão raro nesse tempo em que o respeito anda escasso entre a juventude. Venha ver o senhor, e é lógico que ele iria pois era delegado ainda e saiu da sala tropeçando nas memórias espalhadas pelo chão.
Atravessaram o corredor estreito, mal caiado, e com dois passos estavam em frente à cela onde Tico, o único anão da cidade, com o pescoço preso ao lençol que estava preso à viga, por sua vez presa à cela, presa à delegacia, presa à cidade, ao país, ao continente, à terra, ao centro da gravidade, só não preso à vida, compunha uma tétrica estátua como se tudo fosse uma peça só, com a cabeça voltada para o céu e os pés, minúsculos, obedientemente voltados para a terra.
Tico chegara à cidade, ninguém sabe precisar com certeza dia, mês, ano, hora, minutos, tampouco o motivo que encaminharam os reduzidos  passos em direção àquelas paragens, nem porque acabara por ficar, vivendo uma vida discreta, não se sabe com ajuda de quem, pois se não trabalhava, nunca pedira nem recebera, mas sempre pagara do que comia e bebia e vestia, tudo proporcional ao seu tamanho.
A única certeza era que sua figura começou a fazer parte da paisagem do local depois do linchamento do cigano, o que não era grande pista. Era fácil de afirmar isso tamanha a dificuldade que foi para Tico acostumar-se com a rotina da sesta do meio dia a uma, hora sagrada em que todos se recolhiam e muitas vezes ele perambulava a procura de uma venda para comprar alguma coisa ou simplesmente alguém para trocar uma prosa.
É da natureza humana criar o que não se pode afirmar com certeza e assim logo surgiram boatos, especulações sobre a origem do anão. Diziam alguns que fora o único sobrevivente de um circo que incendiara, que ele se salvara por que havia saído da sua tenda para dar uma mijadinha, que pelo seu tamanho não poderia ser jamais uma mijadona, que depois disso, sempre dormia ao relento com medo de ser pego de surpresa pelo fogo e quem respirasse forte perto dele, sentiria o cheiro de queimado. Tudo isso, uma balela do povo que foi se diluindo no dia a dia e Tico foi ficando, ficando, afinal um lugar que tinha Soninha, um Tico a mais  ou a  menos  seria indiferente, até o dia fatídico em que amanheceu enforcado na cela da delegacia.
Esquecer, é não trazer de volta à memória o que um dia lá esteve enquanto que não lembrar é não ter sequer passado pela massa cinzenta e dessa vez delegado Vieira não conseguia lembrar, por mais força que fizesse, da prisão do anão. Que diabo esse pequerrucho está a fazer aqui, desde quando está preso, porque ainda não estava na rua se não era do seu feitio prender alguém e quase perguntou ao cabo Solto mas conteve-se a tempo, premeditando a humilhação que sentiria: imagine, ele, delegado não se lembrar da prisão do único anão, agora o único enforcado da cidade? Para certificar-se de que não fora a  próprio vítima a escolher morrer naquele cubículo examinou a fechadura, trancada, lacrada. Onde está a chave, cabo Solto, no gabinete, no quadro de chaves no lugar de sempre, senhor delegado, pronto se humilhara da mesma forma. Então vá buscar uma escada para tirar o corpo enquanto eu abro a cela. Cabo Solto saiu enquanto delegado Vieira voltava para seu gabinete onde o telefone tocava insistentemente há mais de dois minutos.
Eugenio Asano
Enviado por Eugenio Asano em 31/03/2005
Código do texto: T8916
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Sobre o autor
Eugenio Asano
Guarulhos - São Paulo - Brasil, 59 anos
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