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Em Alto Mar


“Passa a grana tio”
"What?"
“Isso mesmo, passa o money que estou apressado. Rápido, rápido. Não posso perder tempo.”

Daniel já estava quase se acostumando com essa atividade  rendosa porem, perigosa. Trabalhava como estivador no Porto Meridional, com um salário irrisório, não pretendia aposentar-se ali. Conseguiu o emprego porque tinha assistência do projeto Formação Cidadão garantido até aos dezoito anos. Completaria no mês seguinte, mês do carnaval. Precisava pensar num outro trabalho mas, o país em crise, com muitos desempregados, seria difícil. Melancólico, passava horas inteiras na expectativa de encontrar coragem para enfrentar os desafios lá fora e encontrar um jeito de dar grande passo na vida. Um pulo de mestre. Queria vencer, ser livre, sem cadeia, sem amarras e sofrimentos. Fixou no cérebro seu intento: durante o dia, trabalhava como estivador, nos feriados e noite, procurava arranjar dinheiro suficiente para realizar uma viagem em alto-mar. Poderia ter sorte e quem sabe, comandar o salão de jogos do navio.
No aeroporto da cidade, escolhia, sozinho a próxima vítima. “Gringos sempre têm grana,” - pensava. Não queria parceiros ou cúmplices. Quanto menos olhos, menor perigo. Coragem não faltava ao jovem  aventureiro. Com seu cavanhaque mal desenhado no rosto, cabelos claros raspado até à nuca, agia com muita cautela para não haver interrupção no sonho quase impossível. Ao passado, jamais.
Passou por anos tenebrosos quando foi abandonado pela mãe e o pai não conheceu.
Daniel não desejava ser um assaltante "profissional." Pretendia arrecadar  só o necessário para  chegar até Buenos Aires onde  embarcaria num transatlântico com roteiro por toda a costa da América do Sul. O desejo por essa aventura  manifestou –se no próprio trabalho, quando presenciava o embarque de afortunados, sem preocupação com o custo do passeio. Muitas vezes ficava revoltado com essa injusta distribuição de renda. Precisava economizar tostão por tostão. Contava no calendário quantos dias faltavam para o embarque e quanto conseguiria abocanhar por semana. Precisava "abordar" mais pessoas, o montante ainda não estava completo.   Embarcaria clandestinamente, e ainda por certo, freqüentaria a primeira classe do navio. Tinha habilidade com as mãos e aprendera jogar xadrez como ninguém, quando menino de rua, com o velho húngaro, da praça. Manejava as peças no tabuleiro com esperteza e elas seriam companheiras inseparáveis naquele cruzeiro. Pretendia promover um torneio e claro, ser o vencedor. Não poderia ser eternamente um clandestino.

Duas semanas depois, munido de um plano invejável, de bagagem e saúde, saiu do ambiente do aeroporto para  mergulhar naquela atmosfera pesada e marulhenta. Muita gente. Uns embarcavam outros olhavam. Chovia muito. Relâmpagos e trovoadas dificultavam o embarque. De repente, um blecaute em grande parte do navio. Era o que Daniel precisava. Nem precisou colocar seu plano em prática. Aproveitando-se da confusão aliada à escuridão, adentrou-se no transatlântico. Subiu até onde terminou a última escada. Lá de cima, observou tranqüilamente o desatracar do navio, ao retorno da luz. Comentou em voz alta: - É muito bom viajar num insubmersível.
Não esperava resposta e assustou-se quando ouviu:
- Concordo com você. É a sua primeira vez num navio?
Não, não é a minha primeira viagem. E você? O que faz aqui fora?
- Eu sou Milena. Apenas fumo e observo aquele inicio de jogo de dados.
- Gosta de dados?
- Não, xadrez.
A conversa continuou e em pouco tempo a amizade parecia ser antiga. Milena era uma daquelas garotas com idéias renovadas e avançadas. Lutava pelo que queria e, naquele momento, Daniel havia despertado os seus desejos. Convidou-o a dividir o camarote com ela e,  evitar a solidão de ambos.

Após uma rápida acomodação já estavam a conversar sob o céu estrelado. Afastaram-se um pouco a observar as estrelas. O  brilho delas era contagiante em alto-mar.
- Não é linda a  vista daqui?
Milena não respondeu porque seu interesse estava no jogo, lá dentro. O enigma das estrela ficaria para depois. A soma da aposta era vultuosa e aquele jogador não dava lugar a outro para jogar. Muitos queriam fazer parte daquela mesa. A sorte abancava-se naquele quadrante, só para um. Os ânimos se alteravam.
Arrastou Daniel pela mão, para próximo do tumulto que se iniciava, apesar do seu interesse em admirar o firmamento, em distanciar-se da aglomeração. Daniel sabia decifrar a linguagem das estrelas. Sempre falava com elas, quando morador de rua.
A insatisfação no salão continuou e um soco no queixo ao som das palavras, "vá trapacear noutro transatlântico" tombou o vencedor. A confusão ganhou dimensão e numa embolada infernal, uns apanhando outros batendo, uns em pé outros deitados, sóbrios e embriagados, ouviu-se o grito do segurança:
- O dinheiro sumiu.
Observou com espanto que Daniel também havia sumido.
Um silêncio espantoso! Ninguém ousava dizer nada. Cada um olhou para o outro com um olhar acusador: "foi você"
Todos suspeitavam de todos.
O comandante proibiu o deslocamento de pessoas:
- Fiquem onde estão. Nem um passo do lugar.
Com maestria, a equipe especializada começou as buscas. A seqüência foi quebrada quando um segurança, com seu dedo apontado em riste perguntou:
- Onde se encontra aquele seu amigo?
Tremeu. Sentiu uma sensação estranha. "Será que foi ele? Pareceu-me gente de boa índole.” Numa fração de segundo sentindo-se enganada reagiu:
- Meu amigo!? É verdade, onde está o rapaz? Acabei de conhecê-lo.
Os semblantes continuavam questionadores. Percebeu logo que não convenceu.
Os olhares vagavam pelo salão e sobre ela, numa busca mal sucedida. Mal sucedida, nem tanto. Um vulto, numa velocidade estonteante, saltou sobre a proteção de ferro, voando para a morte ou para a vida, imergindo na água salgada de Punta del Este.
Atrás dele outros e outros mergulhadores.
Sob olhares enxutos, as marcas da rapidez traçaram a água azul.  Direções diversas em busca do alvo, em vão. Outros afoitos também se aventuraram ao mergulho, confundindo a segurança e prejudicando as buscas. Não sabiam a quem procurar.
O primeiro a voltar foi Daniel com ar do sonso:
- Conseguiu escapar. Estive bem próximo do camarada mas os minutos em dianteira fizeram a diferença. Os outros estão no seu encalço.
Daniel falava com naturalidade e desenvoltura. Ignorou os vários pares de olhos estupefatos e as interrogações silenciosas. Esperou o regresso de alguns nadadores, fez comentários soltos e entrou para o camarote. Esparramou-se na cama, começou a coordenar os pensamentos, liberar a respiração na busca do relaxamento necessário para continuar com seu projeto minucioso e bem planejado. Os momentos negros, desconhecidos e perigosos nas águas turbulentas sob o navio foram estressantes. Um frio na barriga surgiu quando relembrou a rapidez com que se escapou dos perseguidores. Não fosse a escuridão, seus equipamentos e seus treinamentos, estaria perdido. Passou um olhar para o canto do quarto e deu graças por não ter jogado fora seus apetrechos de mergulho. Certo que não precisou usá-los quando do seu embarque no navio mas agora, foram de grande utilidade.
Daniel ignorou a batida leve na porta.  Sentou-se na cama e ficou apreensivo sobre quem poderia estar à sua procura. Confirmou se tudo estava em ordem dentro do quarto. Nova batida...
Ainda preocupado, abriu devagar a  porta ao som da voz aveludada de Milena:
- Esqueceu que dividimos o quarto?
- Você tem a outra chave.
 -  Deixei-a aqui quando saímos. Pensa que me enganou? Não acreditei naquela sua  prontidão repentina. Onde escondeu o dinheiro do jogo? – disse sentando sobre a  outra cama e com os olhos a vasculhar o quarto.
- Tá ficando louca doçura? Se eu tivesse com esse dinheiro não estaria aqui nessa
tranqüilidade. Estaria procurando lugar para protegê-lo. Além do mais, todos estariam atrás
de nós.
- De nós?
- Sim, de nós. Estamos juntos desde do embarque.
Milena lançou um sorriso de simpatia e dúvida quando ouviu:
- Gostaria de ficar sozinho. Estou muito cansado. Apague a luz ao sair.
Milena não esperou um segundo pedido. Afastou-se com o propósito de descobrir tudo, quando ele saísse do camarote.

No dia seguinte,  Daniel aproximou-se da mesa de jogo com alguns truques em mente. Sabia jogar as cartas. Os homens da mesa olharam para o novato, de cima para baixo e mandaram-no aguardar. Quando um jogador desistiu, aceitou o convite para aquela rodada. A sorte estava de vento em popa. Ganhou quase todas as seguintes. No salão já era o Sr. Daniel, ladeado de jovens e elegantes senhoritas. Solicitado por demais, para ser o par dançante naquela noite.
E que noite! Enquanto ele dançava e aproveitava as beldades da vida, o camarote era vasculhado por Milena. Vasculhou todos os esconderijos possíveis e imagináveis. Já desistindo de sua busca, percebeu que o vaso estava em falso. Com facilidade retirou-o examinou toda a cavidade interna e não encontrou nada visível a não ser um fio de nylon que ela começou a puxar com nervosismo. A porta se abriu e ela foi flagrada pelo companheiro de quarto.
- Percebi sua ausência no salão. Gostaria de dançar com você sob o ritmo de uma música
lenta. Vamos?
- Não me faça de boba. Você sabe o que estou procurando.
Podemos ser sócios e eu mantenho o meu silêncio. – disse Milena com firmeza encurralando o rapaz.
Daniel olhou pela janela a imensidão do mar. Estava cercado pela água azul. Todos os seus caminhos sempre foram cercados por dificuldades. Percebeu que havia perdido e era melhor metade do petisco do que nada atrelado a escândalos. Recuperaria o prejuízo noutros jogos, durante a viagem. Poderia também atender o seu desejo de ficar ao lado daquela moça linda. Estava amando-a apesar de não aceitar a idéia.
Acompanhado por Milena começou sua tarefa de pescaria.  Ao puxar  o nylon percebeu que não havia o embrulho plastificado na extremidade. Irritado sentiu-se traído:
- Pensa que sou otário? Onde colocou o pacote?
Milena tentou explicar que não estava com o dinheiro mas, o que conseguiu mesmo foi aumentar a desconfiança do rapaz. Daniel foi um furacão devastador no quarto; queria porque queria o que era seu de direito, lutou para conseguir, enfrentou o mar perigoso e exímios nadadores. Não perdoaria aquela garota bisbilhoteira. Por outro lado, Milena tinha certeza de estar sendo enganada. Se não era ela, só podia ser ele. Nos seus olhos um mar negro de tristeza e dúvida resolveu molhar a sua face.

Mais ou  menos uma hora depois, os nervos no lugar, Daniel chegou a conclusão de que poderia estar enganado:
- Ok, peço desculpas pela minha irracionalidade. Haveremos de encontrar o que perdemos. Se  é que perdemos.
- Como assim? – reagiu Milena se colocando na vertical.
- Sim doçura, ali foi só um despiste, uma forma de enganar o outro, no caso de ser descoberto. Como percebi que está me amando e que posso confiar em você, não há porque estarmos como gato e rato. Enlaçou-a pela cintura cobrindo-a de beijos leves e apressados.  A pergunta veio em seguida:
- Quer se casar comigo?
Milena ficou muda, trêmula e com o arfar do peito acelerado, percebeu que aquela era a hora do clandestino se despedir das estrelas. Com movimentos rápidos, apresentou a carteira de detetive de bordo, dando a voz de prisão a ele que estendeu os braços para ser algemado.

Juraci de Oliveira
www.jurainverso.kit.net
juraci@interpira.com.br

Juraci Oliveira
Enviado por Juraci Oliveira em 25/12/2005
Código do texto: T90254
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Sobre a autora
Juraci Oliveira
Pirapora - Minas Gerais - Brasil
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