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Baldeação

Chove uma chuvinha danada, daquelas chatas, de amolar. Contínua, continua sem parar, pelo jeito dura o dia todo. Nesses dias fica ruim de sair de casa, aqui no morro, o barranco fica escorregadio, se brincar desce tudo. Sem contar o chinelo, filho único, que no molhado, samba triste querendo arrebentar.

Faço que não faço, remancheio, desconverso quando a Mãe antes de sair pro trabalho me chama. Mas tem jeito não, ela conta com o dinheirinho dos doces no fim do mês, sempre apertado fim do mês. Remédio amargo, a alvorada de tanto se repetir, a gente acaba por acostumar.

Um puxão nas cobertas e as pernas ruças de fora no frio do tempo. A Mãe sempre me lembra de dar graças a Deus por ter um teto. Agora, é fazer um café, engolir os biscoitos de maisena e, pior, tomar banho gelado – o dia já mostrando o rosto. Gostava mesmo quando pequerrucho, a Mãe me levava junto pros apartamentos em que sempre trabalhou. Comida boa, tão diferente, a geladeira cheia, parecia filme. E a Dona Rosa me tratava bem, era meu filho pra lá e meu filho pra cá, mas quando os netos dela estavam eu tinha de brincar na área. Seu João, porteiro, gente fina, eu meninote, ganhava bala e jujuba, agora tenho de vendê-las.

Já de olho lavado, venho cumprimentando a favela que vai também sonada pra algum lugar. A não ser pelos bandidos, vida perdida, vida dura, virados noite e dia, ninguém fala. Parece um momento, uma coisa sagrada, hora de trabalhar, hora de refletir. Desço sozinho, calado, meio dormindo, meio acordado.

Quanta vez dormi debaixo da cama, ou dei de cara com defunto na porta. Quantos foram os que criados juntos, ali, lado a lado, na companhia da escola, em direção ao Brizolão, que desandaram, desviaram, e a Mãe deles foi quem acabou chorando mais cedo. Sempre que tinha um enterro junto vinha a voz grave da Mãe: “Tá vendo? É bom mesmo”. Sabia bem o que aquilo queria dizer. O último foi um primo. Treze tiros. Morreu amarrado que nem cabrito. Tava tanto sol que, quando o rabecão chegou, Xande tava estorricado, duro, mas pálido, morto em contradição.

O jeito é afastar estes pensamentos de lado, botar eles todos juntos, fechar na trouxinha bem apertada, onde moram o nome do Pai – que a Mãe nunca fala nele – e os perrengues da fome, que nem sono alimenta não.

Pro trabalho andar direito pago aluguel, comissão de boa índole, voto de confiança ao Seu Geraldo, camelô antigo do Centro, que guarda de favor e bom grado minhas mercadorias. De lá, pego o trem cedinho, primeiro carro, comprido igual lombriga. Aí é ganhar a vida na voz, quanto mais grito e refrão, melhor se vai à lida do comércio informal. Que a concorrência é forte, e os vermes, os metido a polícia, tão sempre tocaiando atrás de trabalhador honesto. Canso de contar os casos, e de ouvir os choros, dos parceirinhos atrelados pelos tais. Esparramam a mercadoria pelo chão, judiam mesmo de nós. Queria ver fazer com os fulanos lá do movimento, ah, eu queria. Dá vontade de jogar tudo pro alto, vou te dizer, mas tem sempre a Mãezinha ralhando, chegando junto nas orações, no terço desfiado.

No verão vendo picolé, dragão chinês é vinte. No inverno é chocolate, três por um real. E são só esses dois climas mesmo, que, entre eles, vendo é doce, perdendo a soma das estações. Comecei aos oito anos, bobinho, sem força, subia de Marechal Hermes a Central carregado de laranjinha, todo sabor. De tanto feijão e farinha: cresci. Agora desço de doce, paro, abasteço em Madureira, dou mais um reforço no Seu Geraldo e só vou embora depois de fumar unzinho, vício que peguei.

Cato lata também, que completa o orçamento quando a féria é baixa, me viro. Nessa correria de vagão em vagão, de parador a direto, de linha um e linha dois, a gente cruza com tudo quanto é tipo, tem que ter disciplina pra não se perder. Antigamente os trens davam mais dinheiro, não pagava passagem, tinham as tretas de pular, de passar por baixo. Hoje, diz que foi vendido, privatizado sei lá, só sei que as coisas tão mais difíceis pra camelô. Tem muito irmão metendo a mão em ferro e se marcando com o próprio no desespero da luta. Caio nessa não, respeito minha santa Mãe. Ela na Terra, a Virgem no céu.

Ainda na época das laranjinhas, me perdi na Central. Fiquei com o bocão aberto, correndo lágrima de lavar a camiseta. Só sabia repetir: “Japeri, Japeri, quero ir pra Japeri...” Aí não prestou. Presto, me batizaram, porque apelido é marca de nascença, é pacto de sangue pros que convivem mais entre si do que com a própria família. Japeri. Japeri, sou eu.

Dou mais ou menos umas trocentas viagens, nesse ritmo, cheio-vazio, a sumir de vista. Rango no de um real, restaurante uns chamam, comida boa, igual de casa. Quando o sol vai morrer lá por detrás do relógio, a lua sai fagueira, subindo manhosamente pelo Campo de Santana, iluminando de prata os buracos e os corações mais escuros. Tão bonito que dá nó, vontade de chorar, mas passa rápido, que isso não é coisa de macho. É no auge da atuação dela, quando cheia melhor, que caio no segundo tempo. O destino agora é, apesar da chuvinha, a zona, o prostíbulo, as donas. Lá – sempre São Geraldo, o salvador – vendo chiclete de menta e hortelã, balinha cara pra tirar bafo e cigarrinho com perfume, afinal, a peãozada do norte vem pra gastar, então, vem bonito, de traje e de dinheiro.

Desfilo, caminho, subo, desço, o cacete! Faço tudo pra arrumar o meu – A Mãe no coração, Deus a guarde. Muito camelô amigo meu garimpando por aqui. Vendem batata, cerveja em lata, churrasquinho. Churrasquinho já é mais explorado, é o chamado camelô-empresário, tem funcionário e tudo o mais. Outro papo. Mas ralando, dá pra todos, só ter disposição.

Elas ficam nas portas, de calcinha, de sutiã, sem sutiã, de peruca, de nome falso, sem dente, bêbadas, acabadas, viradas, surradas de tanta vida fácil. Muitas moram lá pra cima, lá na área, na roça como chamam. O produto delas sai fácil, o dia-a-dia é duro, filhos pra criar, casa pra levantar, aí já viu. Por incrível que pareça, tem marido que não sabe, e as moças são carne de pescoço, escoladas, dizem que dormem na patroa, que são do telemarketing, dão nó em pingo dágua. Só vendo. Os paraíbas, os do norte, são vítimas, coitados. A noite inteira os dedos nas maquininhas de moedas e os beiços nas vagabundas e na mardita. Elas aproveitam, vão fazer o quê?

A boemia escorre pelo ralo, o fedor de mijo e sexo entorpece os frágeis e os fortes – hora de se ir. Vem então o calvário do regresso, menos cravos nas mãos, menos chibatadas nas costas, mas o peso nos ombros, apesar do lucro. Se a Mãe soubesse...

Na Radial Oeste os favorecidos rasgam o asfalto. As luzinhas dos faróis vêm fracas e, quando tornam a ficar forte, se vão num relâmpago, deixando som e poeira e inveja. Vida dura a nossa. Tem os que, vadios, dormem por ali mesmo, onde der. São os da pista, sem prendimento com nada e ninguém.

Parou a chuva. Três horas da manhã é meu limite, galo cantando cedo no dia seguinte, volta tudo outra vez. E amanhã tem samba. Quem disse que pobre não é feliz?
Douglas Evangelista
Enviado por Douglas Evangelista em 27/12/2005
Código do texto: T90795
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Sobre o autor
Douglas Evangelista
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 36 anos
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Douglas Evangelista