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Amor em linguagem do séc. XVI-XVII

DESCARREGANDO  O  DEFUNTO
José Augusto Carvalho
“Não há pau como o carvalho,
Nem lenha como o azevinho,
Nem filhos como os dos padres
Que chamam ao pai – padrinho.”
(Epigrama popular)

“Mia senhor, o arcebispo
Fez-vos fremosos meninhos;
Sodes madre; el non he padre,
Ca os chama a elles sobrinhos.”
(Adágio inventado mesmo)

      Vencer a língua é mais que vencer arraiais, ou não morre o robalo por muito morder a isca apetitosa no anzol? Por isso foi que tive de matar o meu compadre aquele, muito mau falador da clerezia do meu amo arcebispo. E, como fiel mancebo, não posso permitir que fale mal do meu amo homem algum, seja cujo quer.
      Conto do início. Eu calhou-me de ir à tasca da esquina, no sábado, para uns aperitivos inocentes, bebendo à saúde de mim mesmo. E quem lá  vejo, já no troco das pernas, sem nem se agüentar sentado? O meu compadre aquele, meu próprio compadre, que eu nem não sabia que naquela noite eu haveria de matá-lo por lavar a honra do meu amo arcebispo. Falava muito o cujo sobre conquistas de amor. Quanto mais parvo, mais confiado. O muito beber é sinal de pouco viver. Não sou de pregar ouvido nos conversamentos que não são do meu respeito, mas a tasca é lugar público, e o que alto se fala sem querer se ouve, mais ainda quando se está sozinho, e não se tem com pessoa a quem falar-lhe para distraimento do que ao redor se comenta. E escutei-o, contra o meu prazer. Dizia ele que havia passado mais de uma noite e até duas tardes nos braços carinhosos de Nhá Ana, paixão do meu amo arcebispo, quando Sua Excelência Reverendíssima se encontrava  em Paris, para melhor ilustramento pessoal de sua Santa Cruzada contra o pecado. E todo si próprio gabava, baboso, os seios redondos e as pernas longas da senhora arcebispa, e até de um sinal de nascença falou, situado no mimo traseiro, do lado esquerdo de Nhá Ana. Veneno e amor um e outro é matador. E eu nem não ligaria para os convencimentos conquistatórios do meu compadre, se ele não tivera dado nomes e identificações comprometedoras. Nem sempre se há de tudo dizer, porque há coisas que melhor se faz em não dizê-las, ainda que todos as saibam. Gloriou-se o compadre de haver presenteado meu amo com dois longos ornamentos no alto da testa, ao gozar dos favores de Nhá Ana. Em prato que se come, um nem não deve cuspinhar. Na ocasião se vê quem cada um é. E o lixoso dizia, também, alto e bom som,  para quem quisesse, que o meu amo fazia com Nhá Ana os fornicamentos que não nem devera, em sua qualidade de enviado do Cristo. Há que fazer diferença entre o homem e o sacerdote. Aquele é gente, como o compadre ou mim mesmo. Mas este é sagrado, com poder de perdoar os nossos pecados, no confessionário, e de transformar o vinho em sangue de Cristo e o pão em carne de Cristo, no Santo Sacrifício da Missa. Ao homem se lhe tudo se permite, mas o sacerdote não se diz contra ele um ai, porque é emissário de Nosso Senhor. E do homem nem nada se não deve tampouco dizer, porque difícil é separar um do outro, que ambos os dois são a mesma pessoa.
      Fiquei zangado. Bem sabe o gato de quem as  barbas lambe. Meu compadre aquele era maior de idade, e se bêbado estava era por sua própria conta. Era esse o meu amigo, que moía no meu moinho? Por que falar mal do meu amo? Eu  andou-me a cabeça à roda menos por efeito do que bebera do que pela tristeza do que ouvira. Ali me jurei-me que teria de matar meu compadre aquele, porque não soubera manter segredo do que fizera. Quem nada não sabe não pode tomar providência. Por que é que o compadre não ficou calado? Fiquei fulo de tristeza.
      Não sou de atirar com barro à parede até que pegue. Vou direto ao que quero. Quem ao longe não olha, do perto se fere. Parei de beber para melhor guardar a justeza e a rapidez de minhas idéias. E fiquei de olho aberto na atenção do compadre, que nem ao menos me vira a mim na tasca, tão preocupado estava com botar peçonha na vida alheia dos outros.
      No que ele saiu troncho, tropeçando em cadeiras, eu, mais do que asinha, me pus-me ao largo, seguindo-lhe a ele os seus passos. Perdiz é perdida se quente não é comida. Não eram mais que onze horas da noite, mas em tudo muita escuridão havia, a esconder homem à distância de dez metros. Por isso me tive de chegar-me mais para perto. Eu tinha dele aquele dó danado de lhe tirar-lhe a vida, mas não semeia nada quem de passarinhos tem medo. Ele muita tolice fez em conversar coisas tão imas sobre Nhá Ana. Se ele de mim justiça não recebesse, certamente do meu amo não lhe escaparia, que o haveria, no mínimo, de excomungá-lo. Antes a lã se perca que a ovelha: seria melhor que eu o matasse a ele, salvando-lhe a alma, do que deixá-lo vivo e com a alma condenada às agruras do inferno, para sempre desligada da Santa Madre Igreja, único e verdadeiro caminho da salvação eterna. Se fugisse do alcaide, cairia no meirinho; se fugisse do lobo, cairia no arroio. Minhas idéias eram-me essas, de muita amizade pelo compadre aquele que eu ia matá-lo. Nem mais raiva eu não tinha, só muita pena de não ver-lhe nenhuma saída para ele.
      Nisso ele pára, enfim, sentindo que havia gente em sua sombra, e espera para ver quem é. Melhor assim, pensei. Eu ficaria perto dele para à vontade escolher o exato local. E digo-lhe boa-noite a ele, já ao seu lado, e ele quase nem me reconhece a minha voz, de tão bêbado. E andamos algum tempo em silêncio, sem nada nos dizermos um ao outro, e eu, depois, parei e disse:
      — Ouvi o que vosmecê falou na tasca a desrespeito da minha ama arcebispa. Isso não é coisa boa de fazer, compadre. Quem come perdiz a barba lho diz. Quem faz por ter, vir-lhe-á a ver.
    E ele, tropeçando na fala:
    — Nada não é mentira. Lá vai a língua onde o dente grita. Vosmecê bem me conhece-me, não sou de lorotar. Mas como é que vosmecê me ouviu-me, se nem lá não estava?
      — Quem não quer ser lembrado, muito quedo fica, compadre.
      E eu disse, depois de uma pequena pausa que aproveitei para uma cuspidela:
    — Quem muito fala diz o que nem não deve. E o compadre muito me entristeceu-me com sua faladoria de vosmecê.
    Ele calado ele estava e calado ele ficou. E eu fui adiante:
    — Repreender velho e apulgar cão duas doidices são. E ademais, compadre, xarope bem feito às vezes não surte efeito, por isso não repreendo.
      — Ah!...
      — Mas eu castigo, porque um castigo vosmecê tem de receber para não deixar a língua tão solta.
      Aí foi que ele então se decidiu-se a despregar de novo a língua faladeira:
      — Mas o que eu disse é tudo verdade!
      — Nem toda verdade é boa de dizer, compadre. Vosmecê se excedeu-se.
      — Os namorados têm os olhos furados, compadre. Eles não vêem que o que fazem no escondido, logo tem um que espalha. Eu apenas sou macaco velho: mais cedo ou mais tarde não ia todo  mundo saber? Só apressei a chegada da notícia.
      — Não há casa rica onde a roca não fia, mas respeito é bom, compadre, e eu gosto. Nhá Ana pertence a uma autoridade, ninguém nela não deve de pôr-lhe a mão, se não quiser barulho. De mulher assim mal não se diz, mesmo sendo verdade, porque, por ser ela quem é, há de amar a formosura da alma mais do que si mesma, e ser virtuosa de muitas virtudes na boca do povo e da arraia-miúda.
      Ele ainda tentou falar, mas eu cortei asinha a frase na fonte. E disse:
      — Compadre, é perigoso ser muito ardiloso. A abelha só morde quem trata com ela. Melhor se o compadre se calado tivesse, sem muito falar bestamente.
      E acrescentei, num suspiramento de dor sentida:
      — Estou com uma arma apontada pro seu peito. Diga as orações que conhece, compadre, porque vou matá-lo a vosmecê.
    E ele aconteceu-lhe de todo si mesmo tremer. E num repente se foi toda a bebedeira como se o terror lhe tivesse trazido de novo o raciocínio. E começou de falar sem tropeçar nas sílabas, tudo certinho, com muita firmeza, apesar do medo. Dizia que eu era seu amigo dele e compadre de mais tempo ainda que do arcebispo; que eu não podia me trocar-me por outro; que nós dois ambos éramos quase manos irmãos, e que ele era tão filho de Deus quanto mim. E deu de me fazer-me elogios muitos, a dizer do quão me queria. Não me deixei comover-me. Quem me faz festa, não a soendo fazê-la, ou me quer enganar-me ou me há mister. Disso sei, não me convenço com bajulações. E respondi à sua lengalenga:
      — Tarde piache, compadre. Guar-te de chorar o que não se pode remediar. Diga vosmecê as rezas que sabe, porque não quero que sua alma se perca no fogo eterno.
      Ele, então, muito bestamente, ao invés de fazer as orações e de pedir perdão a Deus dos seus pecados, resolveu me agredir-me, e tentou lutar comigo. Sou mais forte, mas nem não quis lhe bater nele. Quando ele avançou, num berro, eu aconteceu-me de apertar o gatilho, em instintivo gesto de defesa. Assim que achei até bom, porque ele me dera uma razão a mais para tirar-lhe a vida dele. E a quem em defesa própria um desafeto apaga não se lhe há de jogar-lhe a primeira pedra.
    Então eu acometeu-me uma raiva de muita força, e atirei no corpo estendido até que a arma em seco estalasse. E ao morto lhe desfiz-lhe os botões da braguilha e, com o meu canivete, arranquei-lhas a ele as suas partes, porque ali estava a raiz do mal, a razão da sua morte, a desonra falada de Nhá Ana, o culpado de tudo. E, com cuidado as embrulhei-as, nos panos que lhe rasguei-lhe ao paletó do compadre, para matar dois coelhos de uma só cacheirada.
      No domingo de manhã, em antes da Santa Missa e da minha sagradíssima comunhão, chamei Nhá Ana, e ela acordou nuinha no seu leito dela, e arranquei-lhe as cobertas, e disse que era só uma advertência, para que ela nunca mais não nem deixasse de pensar duas vezes antes de a um indiscreto falador entregar-se. E sentenciei: tantas vezes vai o caldeirão ao poço que lá um dia lhe fica o pescoço. Que ela muito se cuidasse, que vida ameaçada é vida acabada. E joguei-lhe sobre os seios nus, já desembrulhadas, as partes que eu cortara do corpo daquele mau falador.
      Peguei pela mão o sobrinho primogênito do meu amo, e com ele fui à Igreja, onde muito contrito rezei comovido pelo pai dos meus filhos e pela alma pecadora do meu finado compadre.
(Extraído do livro de contos Órfã de filha (1. ed.Vitória: Editora da Fundação Ceciliano Abel de Almeida, 1993, p.43-47; 2.ed.São Paulo: Editora Didática Paulista, 1996)


















José Carvalho
Enviado por José Carvalho em 29/12/2005
Código do texto: T91958
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Sobre o autor
José Carvalho
Vitória - Espírito Santo - Brasil, 76 anos
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